{"id":1333,"date":"2024-10-30T16:23:08","date_gmt":"2024-10-30T19:23:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/?p=1333"},"modified":"2024-10-30T16:38:16","modified_gmt":"2024-10-30T19:38:16","slug":"playarte-maraba-do-glamour-da-cinelandia-a-resistencia-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/playarte-maraba-do-glamour-da-cinelandia-a-resistencia-cultural\/","title":{"rendered":"Playarte Marab\u00e1: do glamour da Cinel\u00e2ndia \u00e0 resist\u00eancia cultural"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;O Cine Marab\u00e1 \u00e9, sem d\u00favida, um s\u00edmbolo da resist\u00eancia dos cinemas de rua de S\u00e3o Paulo. Se hoje eles s\u00e3o t\u00e3o poucos, nos anos 40 e 50 eram predominantes&#8221;, afirma <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/juliosimoes\/\">Julio Sim\u00f5es<\/a>, jornalista e autor do livro \u2018\u2019Cine Marab\u00e1 &#8211; O cinema do cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo\u2019\u2019. Localizado no centro da cidade, o Marab\u00e1 \u00e9 mais do que um espa\u00e7o de exibi\u00e7\u00e3o de filmes: \u00e9 um monumento hist\u00f3rico e uma testemunha viva das transforma\u00e7\u00f5es culturais e sociais que marcaram S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lan\u00e7ado no auge da &#8220;Cinel\u00e2ndia Paulistana&#8221;, na Avenida Ipiranga, quase esquina com a Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, o Marab\u00e1 permanece como um dos \u00faltimos representantes dessa era. Apesar das diversas fases e desafios ao longo dos anos, o cinema preservou sua ess\u00eancia e evoluiu junto com o mundo contempor\u00e2neo.<\/span><\/p>\n<h2><b>A origem\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Inaugurado oficialmente em 20 de maio de 1945, o<a href=\"https:\/\/www.playartecinemas.com.br\/cinemas\/mma\"> Cinema Marab\u00e1<\/a> foi projetado para ser um s\u00edmbolo de sofistica\u00e7\u00e3o e luxo no centro de S\u00e3o Paulo, evidenciando o auge da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, conhecida como a Era de Ouro dos Cinemas. Com capacidade para 1.655 pessoas em uma \u00fanica sala, o Marab\u00e1 foi criado pelo empres\u00e1rio Paulo de S\u00e1 Pinto, da Empresa Paulista Cinematogr\u00e1fica, com o objetivo de competir com o monop\u00f3lio do espanhol Francisco Serrador, que dominava o circuito de cinemas na cidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A arquitetura do Marab\u00e1, com seu hall de entrada de p\u00e9-direito alt\u00edssimo, colunas imponentes e um lustre vistoso, rapidamente o consolidou como um dos favoritos da elite paulistana. &#8220;O Marab\u00e1 se tornou uma das salas mais importantes da cidade por sua arquitetura marcante, caracter\u00edsticas preservadas at\u00e9 hoje, gra\u00e7as ao tombamento hist\u00f3rico do pr\u00e9dio&#8221;, explica Julio Sim\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos anos 40, a regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, conhecida como Cinel\u00e2ndia Paulistana, abrigava grandes salas como o Marab\u00e1, o Cine Ipiranga e o Cine Marrocos, que exibiam tanto filmes de Hollywood quanto produ\u00e7\u00f5es nacionais. Nessa \u00e9poca, ir ao cinema era um evento social importante. &#8220;Por sua localiza\u00e7\u00e3o privilegiada, pr\u00f3xima \u00e0 Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, o Marab\u00e1 se tornou um dos cinemas mais populares da Cinel\u00e2ndia&#8221;, relembra Julio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o passar dos anos, a concentra\u00e7\u00e3o de cinemas no centro de S\u00e3o Paulo tornou a experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica acess\u00edvel para muitos paulistanos, em meio a um per\u00edodo de grande efervesc\u00eancia cultural. \u201cNaquela \u00e9poca, com a nossa condi\u00e7\u00e3o, s\u00f3 consegu\u00edamos pagar o ingresso. N\u00e3o dava nem para comprar pipoca. Mas, quando entr\u00e1vamos no Marab\u00e1, o ambiente era deslumbrante, muito elegante\u201d, relata Eder Nilton, analista cont\u00e1bil, ao relembrar uma das suas primeiras idas ao cinema.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><b>Os anos de ouro e o in\u00edcio da crise<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos anos 80, Eder Nilton, ent\u00e3o com 14 anos e morador da Freguesia do \u00d3, se aventurou de \u00f4nibus at\u00e9 o centro de S\u00e3o Paulo em dire\u00e7\u00e3o ao Cine Marab\u00e1. &#8220;Era tudo muito elegante, com salas amplas e confort\u00e1veis&#8221;, relembra Eder, mencionando com carinho a estreia de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Cangaceiro Trapalh\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que assistiu no Marab\u00e1. Al\u00e9m disso, o que tornava o cinema ainda mais especial era a possibilidade de ver mais de um filme na mesma visita. &#8220;Depois, assisti <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Star Wars: O Retorno de Jedi<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Foi uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa mesma d\u00e9cada, o centro de S\u00e3o Paulo come\u00e7ava a sentir os efeitos da degrada\u00e7\u00e3o urbana, e os cinemas de rua enfrentavam dificuldades. Muitos deles adaptaram suas programa\u00e7\u00f5es para exibir pornochanchadas (filmes adultos), para sobreviver. No entanto, Paulo de S\u00e1, gestor do Marab\u00e1, resistiu a essa tend\u00eancia, mantendo uma programa\u00e7\u00e3o de qualidade, voltada para filmes comerciais. Essa escolha preservou a ess\u00eancia do cinema e garantiu que o Marab\u00e1 continuasse oferecendo uma experi\u00eancia para todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1999, Carlos Alberto Juli\u00e3o viveu uma experi\u00eancia marcante ao assistir \u00e0 estreia de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Star Wars: A Amea\u00e7a Fantasma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> no Marab\u00e1. &#8220;Foi a primeira vez que assisti a um filme da saga, e fiquei impressionado com os efeitos especiais. Nunca tinha visto algo assim&#8221;, conta Carlos, relembrando a atmosfera envolvente do cinema. Para ele, o Marab\u00e1 proporcionou uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica \u00fanica, mantendo viva a magia do cinema mesmo em tempos de mudan\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar dos desafios, o Marab\u00e1 permaneceu resistindo. Ap\u00f3s a morte de Paulo de S\u00e1, em 1996, a PlayArte assumiu a gest\u00e3o e, entre 2007 e 2009, fechou o cinema para uma grande reforma. Essa foi a \u00fanica vez que o Marab\u00e1 interrompeu suas atividades para uma restaura\u00e7\u00e3o, conduzida pelos arquitetos Ruy Ohtake e Samuel Kruchin. A moderniza\u00e7\u00e3o trouxe instala\u00e7\u00f5es atualizadas, mas sem comprometer o projeto arquitet\u00f4nico original. Ap\u00f3s a reabertura, Eder voltou ao cinema, &#8220;quando reinaugurou, fui de novo. Continua um cinema agrad\u00e1vel, embora hoje tenha menos movimento.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, o Marab\u00e1, com suas cinco salas \u2013 a maior com 430 lugares e a menor com 122 \u2013, \u00e9 o \u00fanico remanescente da antiga Cinel\u00e2ndia Paulistana que ainda exibe filmes do circuito comercial. Enquanto outros cinemas de rua foram transformados em estacionamentos, igrejas ou demolidos, o Marab\u00e1 permanece como um s\u00edmbolo de preserva\u00e7\u00e3o cultural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O jornalista Julio Sim\u00f5es escolheu o Cine Marab\u00e1 como tema de seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (transformado posteriormente em livro) ap\u00f3s observar a decad\u00eancia das salas de cinema no centro de S\u00e3o Paulo. &#8220;Sempre gostei daquela p\u00e1gina do jornal onde a programa\u00e7\u00e3o dos cinemas era listada, e percebi que o n\u00famero de salas no centro, antes conhecido como Cinel\u00e2ndia, estava diminuindo. O Marab\u00e1 era o \u00fanico que ainda funcionava, o que me despertou curiosidade. Resolvi ent\u00e3o investigar a hist\u00f3ria do cinema e entender o que o mantinha de p\u00e9 em um cen\u00e1rio de decl\u00ednio.&#8221; Para Julio, o Marab\u00e1 carrega um peso simb\u00f3lico, representando tanto a era de ouro dos cinemas quanto a transforma\u00e7\u00e3o do centro de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais do que um espa\u00e7o para assistir a filmes, o Cinema Marab\u00e1 \u00e9 um s\u00edmbolo da mem\u00f3ria afetiva da cidade, conectando o passado ao presente. Ele representa o glamour dos cinemas de rua de antigamente, a resist\u00eancia frente \u00e0s mudan\u00e7as e a capacidade de se reinventar. Em um mundo cada vez mais voltado ao consumo digital, o Marab\u00e1 preserva a ess\u00eancia do cinema como um local de encontro, divers\u00e3o e cultura, encantando gera\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<h2><b>Nossa experi\u00eancia<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Animados pela import\u00e2ncia hist\u00f3rica do Cine Marab\u00e1, decidimos assistir a um filme em uma quarta-feira \u00e0 tarde. Embora o \u00fanico t\u00edtulo dispon\u00edvel naquele hor\u00e1rio fosse um filme de terror, entramos assim mesmo, ansiosos para vivenciar o espa\u00e7o. No entanto, a experi\u00eancia deixou a desejar. A sala estava completamente vazia, o que gerou certo desconforto, n\u00e3o s\u00f3 pela falta de p\u00fablico, mas pela sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. O cinema, que j\u00e1 foi vibrante, agora parecia deserto e sem vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Notamos que alguns centros de pipoca estavam desativados, e a pipoca que compramos estava murcha e sem manteiga. O ambiente, em geral, parecia descuidado: as cadeiras estavam sujas e grudentas, e havia poucos funcion\u00e1rios, o que aumentou a sensa\u00e7\u00e3o de isolamento. Por outro lado, o pre\u00e7o acess\u00edvel do ingresso, apenas 15 reais, foi uma vantagem em rela\u00e7\u00e3o aos cinemas de shopping, cujos valores s\u00e3o bem mais altos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo com a experi\u00eancia negativa, estamos nos planejando para voltar em um final de semana, esperando que a atmosfera seja mais animada e que possamos finalmente aproveitar o charme desse cinema-\u00edcone da hist\u00f3ria paulistana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na nossa inf\u00e2ncia, o Cine Marab\u00e1 era um espa\u00e7o vibrante, cheio de vida, com filas longas e o aroma de pipoca no ar. Voltar agora e encontrar o cinema vazio foi desanimador. Ficamos chateados ao ver um lugar que antes simbolizava tanta energia e cultura agora praticamente abandonado, com salas desertas e cadeiras grudentas. Esse contraste nos fez refletir sobre como o ato de ir ao cinema perdeu parte de sua magia com o tempo, substitu\u00eddo por novas formas de entretenimento. Ver o Marab\u00e1 assim nos deixou com a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos perdendo mais do que apenas um espa\u00e7o, mas uma parte da mem\u00f3ria cultural da cidade.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Cine Marab\u00e1 \u00e9, sem d\u00favida, um s\u00edmbolo da resist\u00eancia dos cinemas de rua de S\u00e3o Paulo. Se hoje eles s\u00e3o t\u00e3o poucos, nos anos 40 e 50 eram predominantes&#8221;, afirma Julio Sim\u00f5es, jornalista e autor do livro \u2018\u2019Cine Marab\u00e1 &#8211; O cinema do cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo\u2019\u2019. 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