{"id":198,"date":"2024-09-10T16:51:37","date_gmt":"2024-09-10T19:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/?p=198"},"modified":"2024-09-10T16:51:37","modified_gmt":"2024-09-10T19:51:37","slug":"arte-de-pele-e-coracao-e-uma-carta-de-amor-a-tatuagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/arte-de-pele-e-coracao-e-uma-carta-de-amor-a-tatuagem\/","title":{"rendered":"Arte de pele e cora\u00e7\u00e3o; e uma carta de amor \u00e0 tatuagem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Aroma<\/strong><\/p>\n<p>Entre ruas e vielas, pontes e avenidas, casas e pr\u00e9dios, o centro de S\u00e3o Paulo se ergue perante \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Eternamente imundo, como um mausol\u00e9u friamente ignorante das fomes, choros e despedidas gravadas na psique dos beltranos. Como conquistar a individualidade perdida pela car\u00eancia de cobi\u00e7a? Como se redimir depois de tantos anos de v\u00edcio e fetiche p\u00fatrido?<\/p>\n<p>Foi o que perguntei para Lucas Henrique. Tatuador natal de Cajamar, que h\u00e1 pouco abandou o seu c\u00e1lice, e perambulou at\u00e9 S\u00e3o Paulo, onde se tornou \u00f3cio numa esquina do Pacaemb\u00fa. Aqui, adotou o desejo de se tornar um dos melhores tatuadores da cidade<\/p>\n<p>\u201cMeu pai me queria engenheiro, ou m\u00e9dico, ou advogado&#8230; ou de qualquer outro jeito que n\u00e3o fosse o meu\u201d, contava com uma risada, sentado no canto da sua pequena sala naquele est\u00fadio enorme. \u201cJ\u00e1 era \u00edntimo com S\u00e3o Paulo, morava aqui h\u00e1 algum tempo, e sabia que aqui me aguardava algo a mais\u201d.<\/p>\n<p>Levou-me para conhecer o quintal daquela casa. L\u00e1, um lago com carpas, que recheava o ambiente de sons e saudades de tempos n\u00e3o vividos. \u201cEconomizei, e comprei minha primeira m\u00e1quina de tatoo.\u201d Sentou-se ao lado da borda do lago. inspecionava suas mem\u00f3rias com os olhos, observando as pr\u00f3prias m\u00e3os, agarrando o que falava. \u201cComecei a tatuar como aprendiz, fiz cursos, recebi o meu certificado, tudo para ter certeza de que fazia certo\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei o porqu\u00ea da escolha do centro, entre todos os cantos e vistas da capital. \u201cNa verdade, eu que recebi um convite para fazer parte deste est\u00fadio aqui!\u201d Respondia com entusiasmo, voltando o olhar ao meu. \u201cTrabalhava em outro lugar, l\u00e1 na Barra Funda. O problema era que, al\u00e9m de l\u00e1 ser fora de m\u00e3o para mim, eu achava que eu j\u00e1 tinha evolu\u00eddo daquela fase, aquele momento j\u00e1 me era passado.\u201d<\/p>\n<p>Olhou para o outro lado e se levantou. Caminhou at\u00e9 uma bancada e colocou uma x\u00edcara de caf\u00e9 para si. Bebendo aquela ambr\u00f3sia amarga, acho que se rebuscando nas suas mem\u00f3rias e viv\u00eancias. Perguntei a ele que tipo de pessoa ele recebe para fazer seus trabalhos.<\/p>\n<p>\u201cO perfil muda bastante de dia pra dia.\u201d, falou, se recompondo da distra\u00e7\u00e3o. \u201cAqui, no centro, tem tudo que \u00e9 tipo de gente. Tem o cara com 19 anos que quer tatuar letra de m\u00fasica, tem o outro de 25 que trabalha que nem escravo e quer o nome da namorada.\u201d Continuou, dando risada consigo mesmo, \u201ctem o velhinho de 70, todo tatuado igual gibi, tem o de 40 que vive a vida boa e nunca nem chegou perto da agulha na vida.\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAqui, no centro, acho que tem muita diverg\u00eancia entre as pessoas que voc\u00ea encontra\u201d, explicava o artista. \u201cVoc\u00ea raramente vai encontrar duas pessoas iguais. Acho que essa \u00e9 a beleza desse peda\u00e7o de terra\u201d. Dizia, dando aquela caracter\u00edstica risada agarrada.<\/p>\n<p>Acompanhei o Lucas pelo resto do dia, assisti o processo de cria\u00e7\u00e3o e tudo que ele pensava sobre seu trabalho, at\u00e9 que me despedi dele. Agradeci pela conversa, pelo caf\u00e9, pela sua vis\u00e3o, pela oportunidade, pela m\u00fasica boa, pelas risadas, e por tudo que tinha feito naquela tarde de s\u00e1bado. Fechei o port\u00e3o do est\u00fadio, e me deparei com aquelas ruas calmas que desciam e subiam o bairro.<\/p>\n<p>Subi as ruas com todas as emo\u00e7\u00f5es encravadas no meu ser, depois daqueles tipos de conversa que te restauram at\u00e9 a alma. Assisti aquela vista do topo da Pra\u00e7a Ra\u00edzes do Brasil. Vista essa que chegava at\u00e9 depois da Pra\u00e7a Charles M\u00fcller e seguia pela avenida. Talvez, aquilo tudo que via n\u00e3o fosse a imundice que h\u00e1 pouco imaginava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Aroma Entre ruas e vielas, pontes e avenidas, casas e pr\u00e9dios, o centro de S\u00e3o Paulo se ergue perante \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Eternamente imundo, como um mausol\u00e9u friamente ignorante das fomes, choros e despedidas gravadas na psique dos beltranos. Como conquistar a individualidade perdida pela car\u00eancia de cobi\u00e7a? 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