{"id":2618,"date":"2025-04-08T13:33:29","date_gmt":"2025-04-08T16:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/?p=2618"},"modified":"2025-04-08T14:13:57","modified_gmt":"2025-04-08T17:13:57","slug":"entre-lapides-e-legados-o-cemiterio-da-colonia-mantem-viva-a-historia-dos-imigrantes-alemaes-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/entre-lapides-e-legados-o-cemiterio-da-colonia-mantem-viva-a-historia-dos-imigrantes-alemaes-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Entre L\u00e1pides e legados: o Cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia mant\u00e9m viva a hist\u00f3ria dos imigrantes alem\u00e3es em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><u>Tombado como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, o cemit\u00e9rio protestante fundado no s\u00e9culo XIX \u00e9 um museu a c\u00e9u aberto que preserva as ra\u00edzes germ\u00e2nicas na cidade<\/u><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns estudiosos da literatura argumentam que existe uma linha t\u00eanue entre o fasc\u00ednio e o medo. Entre os assuntos que podem gerar tais sentimentos est\u00e1, sem d\u00favida, talvez o principal objeto de medo de muitas pessoas: a morte. Os calafrios e os ombros pesados ao passar por um cemit\u00e9rio tamb\u00e9m trazem consigo olhares curiosos.<\/p>\n<p>Enterrar aqueles que morreram sempre foi uma quest\u00e3o de necessidade na sociedade, uma vez que os cad\u00e1veres, se n\u00e3o forem bem cuidados, podem at\u00e9 mesmo transmitir doen\u00e7as. At\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, era costume enterrar os corpos daqueles que eram cat\u00f3licos dentro das igrejas. Quanto mais a pessoa contribu\u00edsse financeiramente, mais perto do altar ela seria enterrada. Isso ocorria porque naquela \u00e9poca se acreditava que quem era sepultado na igreja tinha a sua alma protegida pelos anjos, pelos santos e, \u00e9 claro, por Deus.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, um decreto imperial determinou que uma parte de Santo Amaro fosse destinada a imigrantes alem\u00e3es: assim surgiu o bairro da Col\u00f4nia. Apesar do Brasil ser em sua maioria cat\u00f3lico naquela \u00e9poca, os imigrantes alem\u00e3es do bairro eram protestantes. Foi o pr\u00f3prio D. Pedro I que doou um terreno em uma de suas passagens pela regi\u00e3o para que fosse constru\u00eddo um cemit\u00e9rio. Ent\u00e3o, em 1829, os colonos fundaram o Cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia, a primeira necr\u00f3pole protestante do Brasil, tombada como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2634\" aria-describedby=\"caption-attachment-2634\" style=\"width: 461px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2634 \" src=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"615\" srcset=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-scaled.jpg 1920w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2856-1536x2048.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2634\" class=\"wp-caption-text\">Zona tombada do cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia &#8211; Foto: B\u00e1rbara Mendes<\/figcaption><\/figure>\n<p>No come\u00e7o dos anos 2000, a Associa\u00e7\u00e3o Cemit\u00e9rio dos Protestantes (Acempro) conduziu a revitaliza\u00e7\u00e3o do Cemit\u00e9rio de Col\u00f4nia. Durante esse processo, foi erguido um monumento em homenagem \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, houve a atualiza\u00e7\u00e3o da estrutura f\u00edsica e a entidade assumiu a gest\u00e3o do espa\u00e7o. As atividades no cemit\u00e9rio foram oficialmente retomadas em 18 de novembro daquele mesmo ano, e sua reinaugura\u00e7\u00e3o foi realizada em 27 de outubro de 2001. \u201cConta-se que aquela parte onde tem os t\u00famulos antigos, iam construir pr\u00e9dios e acabar com tudo. Ainda bem que os descendentes viram essa import\u00e2ncia de preserva\u00e7\u00e3o. Como as pessoas que v\u00eam agora de uma nova gera\u00e7\u00e3o, v\u00e3o saber dos seus antepassados?\u201d Conta Andr\u00e9 Barbosa, 59 anos, administrador do Cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Barbosa nasceu no Rio de Janeiro, mas veio para a regi\u00e3o sul de S\u00e3o Paulo nos anos 80 e se encantou com a hist\u00f3ria do bairro e a cultura alem\u00e3 trazida pelos imigrantes. Interessado pela hist\u00f3ria da Col\u00f4nia, estudou alem\u00e3o na USP e foi um dos entusiastas que incentivou o movimento de tombamento do cemit\u00e9rio como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico da cidade. \u201cA parte tombada foi em 2004, pelo Comprespe (Conselho Municipal de Preserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico da Cidade de S\u00e3o Paulo) que fez esse procedimento. Tem que vir um historiador, um ge\u00f3logo, t\u00e9cnicos dentro da \u00e1rea, preparado para ver se realmente o processo ser\u00e1 v\u00e1lido\u201d, complementa Andr\u00e9. No v\u00eddeo captado pela reportagem, \u00e9 poss\u00edvel notar a divis\u00e3o entre a zona hist\u00f3rica tombada e a zona que \u00e9 usada para os sepultamentos atuais.<\/p>\n<p>[html5_video id=2723]<\/p>\n<p>Vanessa Bortulucce, 50, \u00e9 historiadora formada pela Universidade Estadual de Campinas, estuda e leciona sobre arte tumular e suas simbologias no Museu de Arte Sacra de S\u00e3o Paulo, defendendo a ideia da preserva\u00e7\u00e3o dos cemit\u00e9rios como um compromisso com a mem\u00f3ria coletiva: \u201cOs cemit\u00e9rios contam a hist\u00f3ria da cidade onde eles est\u00e3o, a hist\u00f3ria das pessoas, contam a hist\u00f3ria dos status dessas classes, da materialidade dessa cidade, e da sua expans\u00e3o. Ent\u00e3o, eu costumo dizer que tudo que est\u00e1 do lado de dentro do cemit\u00e9rio \u00e9 fundamental para voc\u00ea compreender o que est\u00e1 do lado de fora dele\u201d, diz Bortulucce. Vanessa explica que o auge da arte tumular aconteceu no s\u00e9culo XIX, justamente quando o cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia foi fundado. \u201cA simbologia tumular envolve um jogo de sensibilidades. E a nossa cultura de Ocidente, que v\u00ea significado no ac\u00famulo de materialidade, \u00e0s vezes n\u00e3o consegue identificar simbologias quando estamos diante de t\u00famulos sem ornamentos. Hoje, os cemit\u00e9rios-jardins e verticais, s\u00e3o momentos contempor\u00e2neos da hist\u00f3ria dos cemit\u00e9rios, e eles tamb\u00e9m possuem simbologias\u201d, complementa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2652\" aria-describedby=\"caption-attachment-2652\" style=\"width: 423px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2652\" src=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c.jpg\" alt=\"\" width=\"423\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c.jpg 895w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/8e5100c9-0f60-4a70-b634-783ae64ed31c-70x70.jpg 70w\" sizes=\"auto, (max-width: 423px) 100vw, 423px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2652\" class=\"wp-caption-text\">Professora historiadora Vanessa Bortulucce &#8211; Foto: disponibilizada de seu arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m do valor hist\u00f3rico, o espa\u00e7o tamb\u00e9m desperta o interesse de curiosos, turistas e at\u00e9 criadores de conte\u00fado sobre mist\u00e9rios e lendas urbanas. Thiago de Souza, 46, \u00e9 criador do canal e iniciativa \u201cO Que Te Assombra\u201d, onde fez uma visita a necr\u00f3pole da Col\u00f4nia para desvendar um pouco mais de sua hist\u00f3ria, encontrando importantes elementos visuais da arquitetura protestante: \u201ca gente tem a tradu\u00e7\u00e3o disso na est\u00e9tica mais discreta, n\u00e3o relacionada \u00e0 Santos de Devo\u00e7\u00e3o. E, l\u00e1 no cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia, a gente ainda tem uma cole\u00e7\u00e3o plural e organizada de cruzes, que chamamos de Cruz de Ipanema. Essas cruzes tamb\u00e9m contam um pouco da hist\u00f3ria do desenvolvimento industrial do Brasil, porque elas s\u00e3o feitas na Real F\u00e1brica de Ferro S\u00e3o Jo\u00e3o de Ipanema, que foi a primeira fundi\u00e7\u00e3o brasileira organizada por Dom Jo\u00e3o VI\u201d. Nas fotos captadas pela reportagem, podemos observar as famosas cruzes fixadas nas paredes na parte tombada da necr\u00f3pole, contando com nomes como o de Anna Isabel Helfenstein, que nasceu em primeiro de janeiro de 1806 e faleceu em julho de 1891. Outros nomes tamb\u00e9m s\u00e3o vistos, o de Maria Catherina Zilig (1819-1890) e Pedro Reimberger (1811-1887).<\/p>\n<figure id=\"attachment_2635\" aria-describedby=\"caption-attachment-2635\" style=\"width: 604px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2635 \" src=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"604\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-640x480.jpg 640w, https:\/\/www.comunica.blog.br\/digital\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/IMG_2860-1000x750.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2635\" class=\"wp-caption-text\">Cruzes de Ipanema fixadas na parede da zona tombada do cemit\u00e9rio &#8211; Foto: B\u00e1rbara Mendes<\/figcaption><\/figure>\n<p>Engana-se quem pensa que o contr\u00e1rio da morte \u00e9 vida. O oposto de morte \u00e9 o nascimento, a vida \u00e9 aquilo que acontece entre essas duas coisas. O cemit\u00e9rio da Col\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 apenas um espa\u00e7o de morte, mas sim de mem\u00f3ria, onde o passado repousa, mas tamb\u00e9m fala sobre a hist\u00f3ria de quem j\u00e1 se foi, mantendo vivo o legado, tradi\u00e7\u00f5es e cultura de imigrantes alem\u00e3es que ajudaram a construir a identidade de S\u00e3o Paulo, uma cidade fundada por migrantes de outros estados e povos de todo o mundo, fazendo jus a sua fama de metr\u00f3pole mais cosmopolita e diversa do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tombado como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, o cemit\u00e9rio protestante fundado no s\u00e9culo XIX \u00e9 um museu a c\u00e9u aberto que preserva as ra\u00edzes germ\u00e2nicas na cidade &nbsp; Alguns estudiosos da literatura argumentam que existe uma linha t\u00eanue entre o fasc\u00ednio e o medo. 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