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Subterrâneos

Por Beatriz Carmo e Julia Figueiredo

 

Próximo ao horário de almoço, as ruas do centro paulistano descansam da multidão matutina que voltará ao fim da tarde. Os detalhes tornam-se mais perceptíveis, permitindo descobrir  locais escondidos, construções subterrâneas que guardam redutos de paz e tranquilidade a qualquer hora do dia. 

É o que atrai Mariana Tavares, 24, mestranda em Relações Internacionais, na Passagem Literária, túnel que liga ambos os lados da movimentada Rua da Consolação. Residente de Juazeiro no Norte, interior do Ceará, mini-mãozinhas de plástico em seus dois dedos indicadores, explica que “estar em contato com o ridículo, com o lúdico” faz parte do seu campo de pesquisa e a mantém conectada com a arte. Da mesma maneira, é assim que São Paulo se destaca para ela: pelo proporcionamento de manifestações artísticas para o público. “Por exemplo, eu estava andando pela rua e encontrei todo um mundo aqui embaixo”, diz.

Mariana Tavares, no sebo de livros da Passagem Literária, em seu último dia na cidade.

Para Célio Martins da Matta, professor de Arquitetura e de Design, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, há diferentes motivos para o fenômeno: “acho improvável alguém construir tamanho espaço para ser um ambiente subterrâneo”. Explica que, geralmente, são locais já existentes devido a outras construções, projetos e necessidades urbanas, “adaptados, quando percebidos em desuso por outras pessoas”.

A aproximadamente 3 km da Passagem Literária, a Pauliceia Desvairada, como definida por Mário de Andrade, guarda mais um de seus segredos: a Formosa Hi-Fi, bar voltado para uma experiência acústica de alta qualidade, inaugurado em agosto de 2025. A inauguração é recente, mas sua história não. Tombada, foi planejada pelo poeta Mário de Andrade, explica o ex-Secretário Municipal da Cultura e um dos responsáveis pela realização do projeto atual, Ale Youssef, em suas redes sociais. Hoje, é um ambiente de encontro e apreciação a diferentes expressões musicais.

Alexandre Preto, gerente da Formosa Hi-Fi, diz que  todas as músicas ali tocadas são provenientes de discos de vinil: 

 – Estamos buscando nossas origens, porque todos os discos que usamos contam uma história. É um espaço onde o personagem principal é a música.  

Cercado por vinis de variados estilos e explicitando sua preferência ao usar uma camiseta de banda de rock, Robson Sevilha, 47, dono da loja de discos Merchaniz, na Galeria do Rock, expressa sua paixão por esse modelo musical. O contato com os discos perdura há mais de 35 anos. Isso é elucidado quando faz a analogia entre fuscas e limousines em relação aos meios físicos e digitais de música:

– Os dois te levam para o mesmo lugar, mas são experiências diferentes. Ainda tem muita gente que não quer a música só no digital. 

Doze metros abaixo do solo, o teatro Centro da Terra localiza-se em Perdizes, Rua Piracuama, n° 19. Apesar de voltado para experimentações artísticas, já foi destaque por suas peças

inovadoras, em participação com o público. Relembrando do espetáculo “Ilha do Tesouro”, Maria Bilio, 22, frequentava o local quando criança:

– O quarteirão inteiro era cenográfico por conta dessa peça. O público vinha andando junto ao elenco.

Hoje produtora do teatro, vê-o como “um lugar muito relevante, principalmente para a geração nova de artistas. Mesmo em uma área pequena, movimenta um espaço da arte importante”, alega.

Com diferentes aspectos, todas essas construções guardam um pouco da história da grande São Paulo e continuam sendo agentes em sua cultura. Leitor assíduo e entusiasmado quanto às curiosidades guardadas por ela, Daniel Quindici, 40, desenhista industrial atuante em construções civis, dedica parte de seu tempo à página Sampa Raiz. No Instagram, é voltada para imagens antigas da cidade.

“No perfil, exponho que desejo resgatar a memória que São Paulo deixou no passado”, consta com ternura. Não somente uma tarefa por interesse próprio, Quindici encontra nesta atividade um outro propósito: contribuir à sociedade como cidadão. Relembrando de sua trajetória, o projeto iniciou-se durante a pandemia, com o desejo de compartilhar seus conhecimentos com o público.

– Eu sou apaixonado pela cidade, e quando vi tanta gente tão apaixonada quanto eu, tive ainda mais incentivo em manter e continuar contando essas histórias.

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