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Entre a Modernização e a Memória do Centro – As histórias dos personagens

Por Beatriz Carmo e Gabriela Silva

 

Foto por Beatriz Carmo

 

Esta matéria faz parte de uma série interativa de quatro reportagens.
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  Denize Bacoccina, jornalista e cofundadora do projeto A Vida no Centro, relembra como nasceu a ideia: “Na verdade, a gente mora no Centro desde 2017, e montou A Vida no Centro ao perceber uma desconexão de informações sobre a região. Quando decidimos vir para cá, as notícias que saíam na imprensa eram quase sempre negativas”.

  Com olhar atento, Denize começou a notar que havia um movimento diferente pulsando diante dos seus olhos: a efervescência cultural crescendo, novos restaurantes e bares surgindo, brechós ocupando ruas e esquinas, e um fluxo cada vez maior de moradores que escolhiam o coração da cidade para viver. “Na imprensa, a imagem era muito negativa: de um lugar decadente, perigoso. E isso não correspondia à realidade”. Foi esse contraste que motivou ela e o também jornalista Clayton Melo, seu sócio, a fundarem o projeto.

  O início foi tímido, quase experimental. Dividindo a dedicação com outros trabalhos, Denize começou testando nas redes sociais, especialmente no Facebook. Nostálgica, ela recorda: “A primeira cobertura foi na Virada Cultural de 2017. Fizemos fotos, postagens, relatos ao vivo, tudo ainda no Facebook. E vimos que sim, havia muito interesse”.

  Esse interesse logo se transformou em combustível. Feliz, Denize relata como moradores do Centro pediam mais informações sobre o que acontecia ali, algo que faltava no noticiário. A validação do público fez nascer o site, depois vieram o podcast, os vídeos e até eventos presenciais. “Em 2019 fizemos dois festivais, e em 2020, já na pandemia, organizamos um formato híbrido: shows e atividades transmitidos pela internet direto do Centro”, conta.

  O público, ela explica, vai além dos moradores. O projeto atrai turistas, curiosos e até pessoas de outras cidades que, mesmo de longe, se encantam pela narrativa construída sobre a região, uma versão distinta daquela repetida pela imprensa tradicional.

  Hoje, Denize observa outro desafio: os muitos prédios fechados, cujos proprietários aguardam acordos de dívidas ou projetos de reocupação. “A prefeitura tem incentivado os retrofits, ou seja, modernizações que preservam a fachada, mas adaptam os edifícios antigos para uso residencial. Afinal, não há mais espaço para novas construções, mas há prédios que podem ser transformados em moradia.”

  Ela vislumbra um futuro mais dinâmico, com novos moradores e mais vida nas ruas. E acredita que essa vitalidade trará também maior cobrança sobre o poder público para cuidar da região.

 

Foto por Beatriz Carmo

 

  O amor pelo Centro também move Felipe Amaral, 38 anos, criador de conteúdo. Sua ligação vem de infância: “Meu pai sempre trabalhou no Centro, na região da República. Desde os meus cinco ou seis anos, ele me levava para lá”. As lembranças são ternas. O pai, falecido, revezava os passeios entre os três filhos. Para Felipe, ele foi ídolo e inspiração, hoje refletida no perfil @vemcomfelipe, no Instagram, seguido por 19 mil pessoas.

  O projeto começou de forma natural. Felipe sempre registrou imagens e vídeos do Centro, até que, há cerca de um ano e meio, decidiu compartilhar esse acervo de memórias com o público. “Por que não publicar esse conteúdo em uma página?”, pensou. Desde então, a ideia floresceu.

  Morador do Centro desde 2017, ele abraçou sem hesitar a oportunidade de viver onde já trabalhava há décadas. “É a melhor coisa que eu fiz. Estou inserido todos os dias na região central”, afirma, lembrando que sua trajetória profissional ali já soma 22 anos, desde que começou a trabalhar aos 16.

  Felipe percebe mudanças claras entre décadas: o fluxo de pessoas, segundo ele, cresce a cada ano. “Muita gente tem amor pelo Centro. Mas ainda há quem evite vir por acreditar que é perigoso. Só que, quando têm a oportunidade de conhecer, descobrem outra realidade, e querem voltar”.

 

Foto por Beatriz Carmo

 

  Maria de Nazareth Camargo, 54 anos, também fala do Centro com carinho e emoção. Em um vídeo-resposta, recorda que sua relação começou ainda na infância, aos 10 anos, quando participou de um projeto da escola municipal e se apresentou com o grupo de balé no Teatro Municipal. Mais tarde, aos 15, iniciou a vida profissional na Rua Sete de Abril, passando depois pela Praça da Sé, perto da catedral.

  Com brilho nos olhos, ela destaca a beleza da arquitetura de herança portuguesa que ainda resiste: o prédio da Secretaria da Educação, ao lado da Praça da República; o Mercadão, no Parque Dom Pedro II; a sede dos bombeiros, na Sé; os edifícios vizinhos à Estação da Luz. “São construções da época do café, que guardam a história da cidade”, descreve.

  Mas a paixão vem acompanhada de crítica. “Eu gosto do Centro, mas ele está abandonado. A parte que mais gosto, o Centro Antigo, está repleto de palacetes vazios, prédios que precisavam ser restaurados para preservar nossa história.”

  Entre memórias afetivas, olhares críticos e visões de futuro, Denize, Felipe e Maria compõem um retrato múltiplo do Centro de São Paulo: um espaço de resistência e transformação, ao mesmo tempo frágil e potente, onde histórias individuais se entrelaçam com os rumos da cidade.

 

 

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