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Messias é o garçom que ama servir gente

O Ano era 1996, e mais um jovem aspirante parte do seio acolhedor de sua família no interior da Paraíba, precisamente em Catolé da Rocha, 405 km distante da capital, João Pessoa, onde também nasceram o pai de Ariano Suassuna e o cantor Chico César.

O jovem é Messias da Silva. Sua família o incentivou a estudar: “Minha mãe era professora no interior da Paraíba, ensinou muitos a ler e escrever, mas o que realmente aprendi dela foi a empatia e o servir com paixão”.

A dislexia tirava sua atenção aos detalhes de pontuação e acentuação, e dificultou os estudos na oitava série, fazendo-o desistir no caminho. Contudo, outros detalhes eram registrados com precisão em sua mente, como nomes de pessoas influentes , fatos históricos, letras de música e uma sede por conhecimento. Tais habilidades introduziram em Messias uma bagagem cultural que a escola não oferecia. Quando criança, ouvia a rádio “Canarinho”, onde era fascinado pelas líricas de Milton Nascimento, Chico Buarque e Elis Regina, embora desconhecesse o que era, de fato, a MPB. “Na minha cidade, todo mundo conhecia as música do Amado Batista, e somente elas, eu me sentia deslocado pela escassez cultural”.

Messias, aos 18 anos, chegou em São Paulo com um amigo, e logo arrumou um emprego de ajudante de cozinha. Seu ofício: lavar pratos, muitos pratos. “Tinha pilha de pratos do meu tamanho”. Na infância e juventude, teve muitos amigos, futebol e uma moto que seu pai lhe deu para passear nos bailes. Mas a relação do jovem com a capital paulista foi quase extraterrestre. Em poucas semanas, subiu de cargo e se tornou garçom, mas logo percebeu que a terra das oportunidades carecia de atenção e empatia.

E o salão do restaurante italiano de Gigetto foi palco para Messias oferecer sua simpatia de forma modesta aos clientes de uma das cantinas mais tradicionais de São Paulo. Foram 20 anos servindo autoridades políticas, empresários e famosos. “Eu não sabia quem era o cliente, meus companheiros me contaram depois que o fulano era importante”, diz. Chama a atenção o jeito acanhado para dizer que possui em sua lista de contatos desembargadores e que já foi citado em um comentário da rádio BandNews pelo próprio Ignácio de Loyola. “Eu ganhava meu cliente na empatia e na honestidade, não visava a comissão da mesa, eu fazia pelo amor do fazer”.

O garçom sempre foi exigente com sua performance, decorando os 300 itens do cardápio, promovendo ao cliente uma experiência de sabor, mas não de comida: “isso eu deixo com o chef”. Os louros da dedicação de seus trabalhos eram recompensados por elogios e entradas para teatros dos artistas que iam comer no Gigetto. “Aqui em São Paulo eu nasci para a cultura”, diz Messias, entre um café e outro na biblioteca Mário de Andrade, e vai contando sobre a estátua “Fauno”, de Brecheret, que originalmente era para estar na biblioteca.

E Messias segue se reinventando. No seu auge dos 51 anos, como diz, decidiu começar a gravar para a rede tiktok suas andanças culturais. A memória fotográfica e atenção aos detalhes não vistos pela maioria, treinados em anos de correria de pedidos e clientela exigente dos restaurantes, capacitou o nosso guia de sotaque arrastado paraibano a esclarecer dúvidas e curiosidades sobre pontos famosos, como o edifício Martinelli, o Copan e a Casa das Rosas. Seus vídeos sem corte, que quebram o algoritmo, ultrapassando os 9 minutos habituais da rede, respondem individualmente aos mais de 29 mil seguidores, ou como Messias prefere dizer seus amigos de estrada.

 

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Marcelo lemes

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