“Ah, eu achei assustador.” Nobu fala e ri, como quem lembra de um antigo susto: “Lembra muito a Universidade de Brasília, estudei lá. Calor, pernilongos, concreto, concreto armado. A gente cria raiva do Niemeyer, embora ache bonitas as coisas dele.”
O riso quebra a rigidez do concreto, mas não o espanto. O Copan intimida. De longe, parece um ser vivo; de perto, respira. As curvas de Niemeyer se dobram sobre si mesmas como um corpo que nunca para de se mover. Nobu chegou aqui sem nunca ter pisado no prédio. Alugou o apartamento pela internet. “Eu já trouxe as mudanças. Nunca tinha entrado no Copan. A primeira vez foi quando me mudei.”
O apartamento tem trinta metros quadrados, “o tamanho da garagem da minha casa em Taguatinga”, ele diz. É pequeno, mas parece conter a cidade inteira. Na estante, um Lego do próprio Copan, miniatura das curvas que o cercam todos os dias. Nobu sorri quando fala disso. “Pra mim é caro, mas é o preço de morar num prédio icônico.”

A história dele começa longe. Nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, e fez carreira como ator de teatro. Um dia, quis o cinema. “O mercado lá é bem fraco, né? Aí eu falei, vou pra São Paulo.” Gravou um teste de casa, pela internet, e passou. Veio para filmar uma série de streaming. “Eu queria chegar aqui já empregado. A internet possibilitou isso.”
Passou o primeiro ano no Butantã, bairro da zona oeste de São Paulo. “Foi bom morar lá primeiro, eu tava longe, mas ao mesmo tempo perto. O transporte aqui é muito diferente.” Depois de um ano, decidiu mudar. A amiga que o ajudou com o aluguel não contou que o apartamento era no Copan. Ele só descobriu quando chegou com as caixas.
Hoje, diz que o prédio o ensinou sobre a cidade. “O Copan mostra que o aluguel é caro. E quanto maior a gentrificação, mais caro fica” (em uma rápida pesquisa na internet descobre-se que os alugueis no Copan podem variar de aproximadamente R$ 2.000,00 a R$ 12.000,00). A fala vem com uma pausa, dessas que pesam no ar. “Quando meu contrato vencer, eu vou sair. Se fosse mais dramático, diria que tô sendo expulso. Mas é isso: tá virando tudo Airbnb.”
A cada andar, a cada obra, o centro parece se reconstruir por dentro. Nobu conta que escuta barulhos o dia inteiro. “É um barulho que parece que vai cair o prédio.” Ri de si mesmo, mas não nega o incômodo. “Quem faz home office aqui sofre muito.” Mesmo assim, defende o edifício com carinho. “O Copan tem que servir a cidade. Faz parte dela. O pessoal reclama que fica cheio de turista aqui embaixo. Tem que estar lotado.”
A fala sobre o caos vem quando o sol atravessa as janelas. “O Copan é o caos. O caos, assim, é engraçado, é uma coisa poética. Quem é o caos? Copan é o caos. Ele tá no meio de São Paulo, é curvo porque quis respeitar a rua. Tá encravado num lugar que não era pra ele ser, mas é. Tá aqui, tá pronto, tá aqui.”
Ele conta isso como quem descreve alguém querido, cheio de defeitos, mas impossível não amar. O prédio o transformou. Diz que anda mais rápido, que ficou mais ansioso, que virou paulistano.
A comida entrou na história por acaso. “Eu vi uma entrevista do Paulo Vieira. Ele falava que aqui tinha um prato feito de dezessete reais. Aí pensei: vou morar num lugar que tem um prato feito de dezessete reais.” Quando o encontrou, cobrou a promessa. “R$ 17,90. Ele mentiu.”
Da brincadeira nasceu um trabalho. “Eu fazia review de preço, ia a mercados, via o preço de uma salsicha em cada um. Fiz TikTok sem mostrar o rosto. Pensei: sou ator, não quero me filmar comendo salsicha.” Os vídeos viralizaram. “Depois de um ano, virou minha renda principal.”
Agora, Nobu divide o tempo entre as gravações e as caminhadas pelo centro. Gosta de observar o Copan de baixo, como quem se vê no espelho. “Aqui sempre moraram artistas. Eu falei: pô, que legal, chegou a minha vez.”

O prédio tem seus próprios personagens. Ele fala da vizinha de oitenta anos, da troca de pães e favores, das marmitas vendidas pelo grupo do condomínio. “Morar aqui não é viver num bichão de concreto. São várias casinhas, várias pessoas, várias famílias com histórias.”
Enquanto fala, o som da cidade atravessa a janela: helicópteros, buzinas, o burburinho de uma metrópole que nunca dorme. Nobu sorri e diz que gosta desse ritmo. “São Paulo é dura, mas tem amor. Ninguém fica aqui só por dinheiro.”
Na parede, a sombra do Lego parece projetar o próprio prédio em miniatura. “Um dia vou ter muito orgulho desse momento da minha vida.”
Do lado de fora, o sol do meio-dia se derrama sobre o Copan. As fachadas curvas refletem a luz como se o prédio também respirasse. Lá dentro, o concreto vibra com vozes, passos, barulhos e cheiros de almoço subindo pelos andares. É sábado, e a cidade pulsa. O edifício vive cheio de histórias, de gente, de ruído e de afeto.
E Nobu segue cabendo dentro dele, entre o caos e o carinho, entre a cidade e o sonho.
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