
Entre bandeiras, retratos de Messi com Maradona e ao som do tango, uma brasileira criou na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, um refúgio argentino onde futebol e cultura se misturam, e onde o bairro italiano se torna um pouco argentino.
Ao atravessar a porta de vidro pode-se ler “Viva la Vida”. O visitante tem a sensação de estar em uma parte qualquer de Buenos Aires. Observa-se Maradona de vários ângulos, a seleção argentina é retratada na parede, e uma bandeira costurada une o sol dos Andes ao verde e amarelo brasileiro. É neste cenário que lembra um estádio argentino que Rita Costa, 47 anos, brasileira e moradora da Mooca há 37 anos, comanda um bar que virou embaixada sentimental de Buenos Aires em São Paulo.
“Quando abrimos o bar, a ideia era que fosse um café portenho”, lembra Rita. “Mas na Copa de 2010, o pessoal começou a vir para assistir aos jogos da Argentina. Depois vieram os do Boca, do River… e aí não teve mais volta.” O que nasceu como um café de esquina se transformou em um ponto de encontro para torcedores, curiosos e nostálgicos. Nas paredes, escudos de clubes argentinos dividem espaço com tradicionais paulistanos, como uma camisa do Juventus, time da Mooca.
Em dias de jogo, o bar ferve. “Quando tem jogo da seleção argentina, enche. Boca e River também lotam”, conta Rita, que hoje vê o bar se tornar cenário frequente em reportagens esportivas. Onde até o Globo Esporte e Band já passaram por ali, atraídos por essa esquina onde o futebol é mais que espetáculo.
Mas abrir um estabelecimento argentino no coração da Mooca não foi tarefa simples. “Todo mundo dizia que não ia dar certo. Como vender empanada em meio às pizzas?”, lembra Rita. A resistência inicial do bairro italiano cedeu lugar à curiosidade e depois ao carinho. “A gente insistiu e conquistou nosso espaço. Hoje, temos orgulho de exibir a bandeira da Mooca aqui dentro”
O local se tornou também ponto de peregrinação de craques. “Já vieram o Sorín, o Rodrigo Garro, o Maleva Ferreira. Até um goleiro do Corinthians já apareceu por aqui”, conta Rita. Entre as lembranças mais fotografadas está uma escultura gigante de Maradona, com sorriso largo e olhos gigantes, que chama a atenção de todos que passam por ali. “Eles vêm, tiram foto, conversam. É um reduto. Um lugar pra se sentir em casa”, resume.
Nem tudo, porém, é só festa. Rita admite que o bar já enfrentou olhares atravessados por abrigar a torcida argentina em território brasileiro. “Tem rivalidade. Durante as Copas é mais evidente. Mas o carinho dos brasileiros é muito maior que qualquer crítica”, diz.
A Copa de 2022 foi o ponto alto. “Foi o nosso melhor momento. Quatro da manhã já tinha fila pra entrar. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) fechou a rua, e tínhamos 500 pessoas aqui dentro. Foi uma loucura”, relembra Rita. Enquanto Messi levantava a taça, ela celebrava sua própria conquista a de ter criado um espaço onde brasileiros e argentinos torciam, juntos, sem rivalidade, apenas como bons amantes desse esporte chamado futebol.
Hoje, com uma equipe formada quase toda por argentinos, Rita continua no comando do que virou mais que um bar, um símbolo de convivência. “Eu e mais um funcionário somos brasileiros, o resto é tudo argentino. A gente faz questão de manter essa referência cultural”, diz. E assim, sob o olhar eterno de Maradona e o brilho das luzes portenhas, o bar segue como um pedacinho de Buenos Aires cravado na Mooca, onde empanadas e pizzas, tangos e sambas, encontram-se e tornam-se únicos.




