Paulistanos que vivem e trabalham no Copan dividem opiniões sobre locações no edifício.
Você já abriu suas redes sociais e viu algum Airbnb disponível para locação no Edifício Copan? Provavelmente achou super legal a possibilidade de se hospedar em um local instagramável em um cartão postal de São Paulo. No entanto, a quantidade de Airbnbs disponíveis para locação no edifício tem gerado algumas questões para o condomínio.
O Edifício Copan, reconhecido como o maior conjunto habitacional da América Latina, abriga mais de 5 mil moradores e possui 1.160 apartamentos. Esses apartamentos estão distribuídos em seis torres, identificadas pelas letras de A à F, com cada torre possuindo 32 andares.
Atualmente, pelo menos 115 apartamentos estão disponíveis para locação de, no mínimo, uma noite. A maioria dessas locações se concentra na Torre B, a mais populosa do prédio, que conta com 448 kitnets e 198 apartamentos studios, representando mais de 50% do total de apartamentos do Copan.
10 curiosidades do Edifício Copan
Maria de Fátima* trabalha com locações de Airbnb no edifício. Ela topou conceder entrevista para a reportagem do Conexão Centro, mas desde que sua identidade fosse preservada, por temer que seu trabalho pudesse ser prejudicado. Por isso o nome dela foi trocado neste texto. Ela conta que a procura pelos apartamentos temporários tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. “A taxa de ocupação gira em torno de 80% a 90%. Há pessoas que ficam apenas uma noite, enquanto outras permanecem de três a sete dias”, afirma.
O aumento dos Airbnbs no Copan tem gerado uma certa divisão entre os moradores. Enquanto alguns veem a mudança como algo positivo e reconhecem os benefícios econômicos trazidos aos comércios do condomínio, outros encaram a situação com preocupação, devido ao aumento do fluxo de pessoas desconhecidas circulando pelos corredores.
“Alguns moradores mais tradicionais não gostam da alta rotatividade, reclamam que o edifício está se transformando em um hotel com muitas pessoas entrando e saindo, sem saber quem são. Outros enxergam isso de forma positiva. Entendem que essa movimentação valoriza o prédio e traz benefícios ao comércio do térreo, onde muitos lojistas também são moradores. Sempre indicamos os serviços e comércios do térreo aos nossos hóspedes, ajudando a fortalecer essa economia interna e integrando ainda mais a comunidade”, afirma Maria de Fátima.
Ela acredita que o Airbnb tem contribuído para a modernização do Copan. “O Airbnb impulsiona a expansão do Copan e a valorização imobiliária, já que muitos apartamentos estão sendo modernizados, mesmo preservando as plantas originais. Isso atrai um público que valoriza esse equilíbrio entre o tradicional e o moderno.”
Daniel Bernardo, engenheiro civil especializado em documentação e conservação de construções antigas, contratado pelo Edifício Copan, alerta que, além das questões sociais envolvendo o Airbnb, existem implicações técnicas relacionadas às reformas de “modernização”. A adaptação do espaço para atender novas demandas, como ambientes lúdicos voltados para atrair turistas, pode sobrecarregar o edifício, que possui quase 60 anos e não foi projetado para essas finalidades.
“Como engenheiro, vejo problemas quando as pessoas querem adaptar os apartamentos de maneiras que não foram previstas no projeto original, como a instalação de banheiras nas sacadas. O Copan não foi construído para esse tipo de alteração. A chegada do Airbnb trouxe uma nova dinâmica de uso, mas a questão é: será que um edifício histórico como o Copan está preparado para suportar essas mudanças?”, questiona o engenheiro.
Segundo Bernardo, o Copan foi projetado para ser um prédio residencial com um hotel na frente. Porém, o bloco B, que possui mais apartamentos, foi inicialmente projetado para ter uma parte que serviria como um “apart-hotel”. Com o aumento das locações temporárias pelo Airbnb, seu uso tem mudado radicalmente, aproximando-se do conceito de moradia temporária, previsto no projeto original.
No entanto, essa “nova” função do bloco B não vem sem desafios. Um dos maiores problemas levantados é a sensação de perda de pertencimento para quem vive no edifício há anos. “O Airbnb traz alguns problemas para o condomínio, especialmente a perda da percepção de lar, porque há estranhos habitando temporariamente no seu espaço”, explica o engenheiro. Ele imagina os desafios de uma moradora que, ao chegar em casa, vê todos os dias um novo vizinho, vivendo entre desconhecidos e não sabendo ao certo quem divide os corredores com ela. “Será que alguém, vivendo nessa realidade, vai querer continuar morando aqui?”, questiona.
Affonso Celso Prazeres, que começou a trabalhar como síndico do Edifício Copan em 1993 e exerce essa função até os dias de hoje, destaca os problemas trazidos pelo aumento de locações por meio de Airbnbs. “Existem muitos desafios, como o fato de que muitas dessas pessoas estão apenas de passagem e não têm qualquer vínculo com o Copan. Já tivemos uma situação em que um inquilino de curto prazo tentou abusar de uma moradora. Por isso, precisamos aumentar nossa segurança. Hoje em dia contamos com seguranças que circulam 24 horas pelo edificio”, explica.
Ele também ressalta a necessidade de adaptação a essa nova realidade. “Estamos tentando nos adaptar. No mundo inteiro, enfrentamos esse problema. Existem países na Europa que baniram a moradia de curto prazo”, afirma Affonso.
A disponibilização de imóveis via Airbnb em condomínios residenciais não foi amplamente proibida. Decisões do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) indicam que a locação por plataformas digitais pode ser restringida conforme as normas internas de cada condomínio.
Recentemente, houve uma reunião de condomínio no Copan onde foi discutida a proibição dos Airbnb, porém, não foi atingido o número mínimo necessário de votos para acrescentar a proibição na convenção, como explica Guilherme Milani, advogado e morador do edifício: “no Copan é diferente, os votos são contabilizados pela quantidade de metros quadrados que cada dono tem. Dois terços dos metros quadrados totais do prédio, cerca de 77 mil de 115 mil, teriam de aprovar essa mudança para incluir a proibição, o que não ocorreu”.
Mesmo com a discussão sobre o Airbnb, com seus lados positivos e negativos, fato é que o Copan, com seus 58 anos, busca formas de se modernizar para continuar sendo um marco da maior cidade do país, como afirma Affonso: “o Copan com a idade dele ainda não acabou, a imagem e o legado dele se sustentam”.






3 Comentários
Demais!! Parabéns pelo trabalho!!
Matéria muito bem feita.
Parabéns !
Muitos detalhes e curiosidades sobre o Copan.
Adorei! Muito interessante saber esse lado pouco conhecido de um prédio tão icônico de São Paulo!