Catedral da Sé, 25 de janeiro de 1984. Em um dos espaços mais emblemáticos do centro da maior metrópole de São Paulo, as vozes de milhares de cidadãos em um grito entusiasmado clamaram por democracia e liberdade. Em meio a bandeiras coloridas e cartazes, os rostos determinados de homens e mulheres brilhavam sob o sol, mostrando a esperança que estava no ar. “Queremos votar!”, gritavam todos juntos. Era momento de fervor, onde a história se misturava com a esperança.
As manifestações das Diretas Já movimentaram o país, marcando um momento crucial na luta pela redemocratização. A cada grito, surgia uma promessa de mudança; a cada passo, um forte desejo de construir uma nova história para uma nação que busca liberdade. Pessoas de todas as idades se reuniram na Praça da Sé, testemunha silenciosa de um dos momentos mais significativos da história do Brasil, enfrentando a opressão e reivindicando o direito de escolher seus governantes.
Conforme a multidão crescia, faixas com mensagens coloridas enfeitavam a praça, transformando o lugar em um mar de esperança e determinação. O clima era de empolgação e ansiedade, com a expectativa de um futuro melhor misturada à coragem de enfrentar um regime autoritário. A Catedral da Sé, com sua bela arquitetura gótica, não é só um símbolo religioso, mas um espaço sagrado de resistência e luta do povo brasileiro.
As palavras de líderes carismáticos ecoavam, animando a multidão e encorajando todos a não desistir. O povo se unia e a Catedral se tornava um marco, um ponto de encontro de um movimento que mudou a história da nação. Essa memória coletiva permanece viva até hoje.
A Catedral da Sé não é apenas um prédio; ela simboliza a luta do país por justiça e democracia. Ao longo dos anos, foi palco de eventos importantes, como a recepção de papas, celebrações e, claro, grandes mobilizações que moldaram a sociedade brasileira.
Fundação
No dia 05 de setembro deste ano, a Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção de São Paulo, conhecida carinhosamente como Catedral da Sé, completou 70 anos desde sua inauguração, mas sua história começou muito antes disso.
Sua história começou em 1591, quando São Paulo ainda era um pequeno povoado. O local foi escolhido pelo cacique Tibiriçá para abrigar a igreja matriz da vila de São Paulo do Campo.
A importância do indígena é enorme para a construção de São Paulo, como relata Felipe Candido, auxiliar administrativo e guia turístico da Sé, “O Tibiriça é considerado o primeiro cidadão paulistano, foi ele quem funda a Vila de Piratininga e funda São Paulo, além de ser ele quem escolhe o lugar da primeira Sé do século XVI.” Ao longo dos séculos, a catedral passou por transformações, acompanhando as mudanças sociais e políticas do Brasil.
Em estilo neogótico, a construção atual da Sé teve início em 1913, sob o projeto do arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl, professor de Arquitetura da Escola Politécnica. Inicialmente, a inauguração estava prevista para 1922, durante o centenário da Independência do Brasil. No entanto, a falta de verbas e as dificuldades impostas pelas duas guerras mundiais atrasaram a obra.
Moacir Assunção, historiador, jornalista, professor universitário e organizador da Caminhada histórica pelo centro foi quem nos contou sobre a história da Catedral da Sé e sobre os acontecimentos marcantes que ocorreram lá
“O templo neogótico da Catedral da Sé foi projetado pelo arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl, professor da Politécnica da Universidade de São Paulo e um dos maiores arquitetos do mundo. Ele, no entanto, não chegou a ver a construção.” Explica Moacir.
A obra, concluída parcialmente, foi inaugurada em 25 de janeiro de 1954, durante as comemorações do Quarto Centenário de São Paulo, ainda sem suas duas torres principais, mas foi apenas em setembro que se consagrou como culto divino, de acordo com as tradições da Igreja Católica Romana. A Catedral da Sé é uma impressionante obra arquitetônica, representando a fé e a determinação do povo paulistano.
A cidade de São Paulo foi fundada por dois padres católicos, cujos restos mortais descansam na cripta da Catedral, que foi construída antes da própria Catedral, simbolizando a profunda conexão entre a cidade e o catolicismo. “Então a Praça da Sé, a Catedral, é um marco histórico muito importante para a cidade.” Essa afirmação de Moacir reflete a relevância que a Catedral tem para os habitantes de São Paulo e para o Brasil como um todo.
Nos anos 1980, em plena ditadura militar, a Catedral da Sé tornou-se um local de resistência e protesto. A figura de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo na época, destacou-se por seu papel fundamental na luta pelos direitos humanos e pela democracia.
“Muitos anos depois, eu já era jornalista, fui descobrir que D. Paulo era jornalista e não só era jornalista, como era filiado ao Sindicato de Jornalistas e também, tinha outra coisa, era um dos fundadores da democracia corintiana, porque ele era corintiano roxo.” Conta Moacir.
Dom Paulo, ao lado de outros líderes, jornalistas e ativistas, desafiaram abertamente o regime militar. A missa de exéquias realizada em 1975 em homenagem a Vladimir Herzog, um importante jornalista assassinado pela Ditadura, reuniu cerca de oito mil pessoas na Praça da Sé e se tornou um momento marcante. “Oito mil pessoas na Praça da Sé, ela estava cercada por um aparato policial impressionante, o povo entrou, participou da missa, que foi um desafio aberto à ditadura”, completa Moacir. Esse ato corajoso e simbólico mostrou que a Igreja, sob a liderança do cardeal, se opunha à repressão.
Ao longo das décadas, a Praça da Sé e sua Catedral passaram por diversas transformações. Na década de 1980, o espaço tornou-se um ponto de concentração de moradores de rua e, infelizmente, de criminalidade.
“A Praça da Sé em determinado momento é tomada por pessoas em situação de rua”, relembra Moacir. E isso reflete na experiência de turistas, como é o caso de Stefano Rosa, estudante intercambista italiano de 24 anos, que percebeu a quantidade de moradores de rua presentes.
“A Catedral diz muito sobre o Brasil, porque ela é linda, parece as da Europa, mas quando você sai para a praça, dá para ver a diferença social no país. Na Europa não há tantas pessoas em situação de rua como aqui”, disse Stefano.
Nos últimos anos, esforços conjuntos entre a sociedade civil e o poder público têm promovido melhorias na segurança e na infraestrutura da Praça da Sé, revitalizando a área e atraindo mais visitantes. “A situação melhorou nos últimos, vamos dizer que nos últimos 2, 3 anos, melhorou”, explica Moacir.
A Catedral tem se afirmado novamente como um importante destino turístico, não apenas para os católicos, mas para todos que buscam conhecer a história e a arquitetura da cidade. Portanto, apesar das dificuldades, a Catedral sempre se manteve como um espaço de acolhimento e reflexão.
“A Sé é considerada uma das maravilhas brasileiras. Uma das 7 maravilhas brasileiras, você se sente pequeno perto da grandeza de Deus”, explica Moacir. A magnitude e a beleza da Catedral impressionam os visitantes, que se sentem pequenos diante de sua grandiosidade.
A Catedral da Sé não é apenas um centro religioso; ela também é um espaço cultural vibrante. Ao longo dos anos, a Praça da Sé tem sido palco de manifestações artísticas, culturais e políticas, refletindo a diversidade e a vitalidade da sociedade paulistana.
Nos últimos anos, a Catedral tem atraído uma diversidade de públicos, desde turistas até pessoas de diferentes crenças religiosas. Stefano é um exemplo disso: “O pai do meu amigo me disse para vir à Sé, porque, além de ser linda, conta a história de São Paulo, parece as Igrejas da Europa”.
Isso demonstra que a Catedral e a Praça da Sé são locais que transcendem a religião, acolhendo a todos em busca de conhecimento e reflexão. Já Moacir é contundente: “A Praça da Sé é o grande monumento da cidade de São Paulo.” Se tornando, portanto, um espaço que merece ser celebrado e visitado por todos que desejam entender a essência de São Paulo.





