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O coração da Liberdade nas versões históricas do bairro em SP

Conheça cinco pontos históricos que ajudam a contar a memória do bairro oriental em São Paulo

Por Laura Soares e Mariana Santos D’Alessandro

Fundado em meados de 1905, o bairro da Liberdade, conhecido pela forte influência da cultura oriental, sobretudo japonesa, nasceu da cultura negra. De acordo com historiadores, a região era responsável por abrigar os escravizados libertos.

A presença japonesa na Liberdade começou a se consolidar a partir de 1910, quando imigrantes, inicialmente destinados às lavouras de café no interior paulista após a chegada do navio Kasato Maru em 1908, migraram para a capital em busca de melhores oportunidades. A região, marcada até então pela presença de famílias negras alforriadas, tornou-se ponto de fixação dessa comunidade. Com o tempo, surgiram pensões, mercearias e restaurantes voltados à colônia, transformando o bairro em referência da cultura oriental em São Paulo, identidade reforçada nas décadas seguintes também pela chegada de chineses e coreanos.

A origem do nome Liberdade tem duas versões históricas: a primeira, ligada ao soldado José Francisco das Chagas, popularmente conhecido como Chaguinhas, que foi capturado por liderar um levante de soldados que reivindicava salários atrasados. Chaguinhas foi condenado à forca, porém a corda usada em sua execução se rompeu duas vezes, e as pessoas que acompanhavam o enforcamento passaram a gritar: “liberdade” – vindo daí o nome do bairro. A segunda versão liga o nome Liberdade a abolição da escravidão no Brasil, em 1888.

Além de sua história marcada pela luta e pela imigração, a Liberdade guarda espaços que contam essa memória até hoje. Alguns deles são:

Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados

Erguida em meados de 1887, a Igreja das Almas situa-se na Praça da Liberdade, no antigo Largo da Forca, local em que ocorriam execuções públicas entre os séculos XVIII e XIX. Os condenados eram, em sua maioria, escravizados, pobres e marginalizados pela sociedade da época. A igreja foi construída em devoção às “almas dos enforcados”, em especial ao soldado Chaguinhas, tornando-se um marco religioso e de resistência popular.

Foto por Laura Soares

Feirinha da Liberdade

Se você já passou pela Liberdade em um final de semana, provavelmente se deparou com a movimentação intensa na praça em frente à estação de metrô. É ali que acontece a famosa Feirinha da Liberdade, um dos pontos turísticos e culturais mais marcantes de São Paulo. A feira nasceu em 1975, inicialmente chamada de Feira Oriental da Liberdade. A ideia era criar um espaço que representasse a cultura oriental, reunindo artesanato e gastronomia. Para Giovanna Giuntoli, 26, frequentadora assídua desde a infância, a feira é um lugar de afeto: “Na feirinha a gente vem com bastante frequência pra comer. Eu sou viciada em comida chinesa, amo muito. Sempre volto pra casa com alguma coisa do mercadinho também”. A Feirinha da Liberdade funciona aos sábados e domingos, das 10h às 18h, na Praça da Liberdade, logo na saída do metrô Liberdade (Linha Azul). O acesso é fácil e gratuito, o que contribui para o grande movimento de visitantes. Os preços variam por barraca, podendo ter itens de R$5 a R$20 reais.

Foto por Laura Soares

Hinodê

O Hinodê, construído em 1965, é um dos restaurantes japoneses mais antigos de São Paulo ainda em funcionamento. Situado na Rua Thomaz Gonzada, 62, o local é lembrado com surpresa por jovens visitantes. “Caramba, chique, ein?!”, reagiu Luiz Garcia, 24, ao descobrir a longa história do restaurante durante a visita. Hinodê mantém até hoje a tradição de servir pratos típicos como o teishoku (refeições completas com arroz, missoshiru, peixe e acompanhamentos). O cardápio varia de R$ 40 a R$ 100 reais.

Foto por Laura Soares

Jardim Oriental

O Jardim Oriental foi criado em 1974, idealizado por arquitetos japoneses e pela comunidade local. Apesar de pequeno, é um oásis em meio ao agito da da Liberdade. Inspirado nos jardins típicos japoneses, reúne lagos com carpas, pontes, pedras ornamentais e vegetação oriental. O jardim fica na Rua Galvão Bueno, 72.

Foto por Laura Soares

Museu da Imigração Japonesa

Foi inaugurado em 1978, dentro do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, na Rua São Joaquim, 381. O museu nasceu para preservar a memória dos imigrantes japoneses que chegaram ao brasil a partir de 1908, com o navio Kasato Maru. Seu acervo possui mais de 97 mil itens, entre documentos, fotografias, roupas, objetos de trabalho e itens pessoais, que narram a trajetória de adaptação, dificuldades e conquistas dos imigrantes no país. Hoje é referência para quem busca compreender o impacto da imigração japonesa na formação cultural do Brasil. “O museu é um pouco escondido, mas é ótimo para conhecer a história da imigração japonesa. Tudo lá é muito bem preservado, muito bonito. Tem até ativação de origami lá dentro”, diz Julia Gomes, 22.

Foto por Laura Soares

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