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Arte de pele e coração; e uma carta de amor à tatuagem

Por Aroma

Entre ruas e vielas, pontes e avenidas, casas e prédios, o centro de São Paulo se ergue perante à população. Eternamente imundo, como um mausoléu friamente ignorante das fomes, choros e despedidas gravadas na psique dos beltranos. Como conquistar a individualidade perdida pela carência de cobiça? Como se redimir depois de tantos anos de vício e fetiche pútrido?

Foi o que perguntei para Lucas Henrique. Tatuador natal de Cajamar, que há pouco abandou o seu cálice, e perambulou até São Paulo, onde se tornou ócio numa esquina do Pacaembú. Aqui, adotou o desejo de se tornar um dos melhores tatuadores da cidade

“Meu pai me queria engenheiro, ou médico, ou advogado… ou de qualquer outro jeito que não fosse o meu”, contava com uma risada, sentado no canto da sua pequena sala naquele estúdio enorme. “Já era íntimo com São Paulo, morava aqui há algum tempo, e sabia que aqui me aguardava algo a mais”.

Levou-me para conhecer o quintal daquela casa. Lá, um lago com carpas, que recheava o ambiente de sons e saudades de tempos não vividos. “Economizei, e comprei minha primeira máquina de tatoo.” Sentou-se ao lado da borda do lago. inspecionava suas memórias com os olhos, observando as próprias mãos, agarrando o que falava. “Comecei a tatuar como aprendiz, fiz cursos, recebi o meu certificado, tudo para ter certeza de que fazia certo”.

Perguntei o porquê da escolha do centro, entre todos os cantos e vistas da capital. “Na verdade, eu que recebi um convite para fazer parte deste estúdio aqui!” Respondia com entusiasmo, voltando o olhar ao meu. “Trabalhava em outro lugar, lá na Barra Funda. O problema era que, além de lá ser fora de mão para mim, eu achava que eu já tinha evoluído daquela fase, aquele momento já me era passado.”

Olhou para o outro lado e se levantou. Caminhou até uma bancada e colocou uma xícara de café para si. Bebendo aquela ambrósia amarga, acho que se rebuscando nas suas memórias e vivências. Perguntei a ele que tipo de pessoa ele recebe para fazer seus trabalhos.

“O perfil muda bastante de dia pra dia.”, falou, se recompondo da distração. “Aqui, no centro, tem tudo que é tipo de gente. Tem o cara com 19 anos que quer tatuar letra de música, tem o outro de 25 que trabalha que nem escravo e quer o nome da namorada.” Continuou, dando risada consigo mesmo, “tem o velhinho de 70, todo tatuado igual gibi, tem o de 40 que vive a vida boa e nunca nem chegou perto da agulha na vida.”.

“Aqui, no centro, acho que tem muita divergência entre as pessoas que você encontra”, explicava o artista. “Você raramente vai encontrar duas pessoas iguais. Acho que essa é a beleza desse pedaço de terra”. Dizia, dando aquela característica risada agarrada.

Acompanhei o Lucas pelo resto do dia, assisti o processo de criação e tudo que ele pensava sobre seu trabalho, até que me despedi dele. Agradeci pela conversa, pelo café, pela sua visão, pela oportunidade, pela música boa, pelas risadas, e por tudo que tinha feito naquela tarde de sábado. Fechei o portão do estúdio, e me deparei com aquelas ruas calmas que desciam e subiam o bairro.

Subi as ruas com todas as emoções encravadas no meu ser, depois daqueles tipos de conversa que te restauram até a alma. Assisti aquela vista do topo da Praça Raízes do Brasil. Vista essa que chegava até depois da Praça Charles Müller e seguia pela avenida. Talvez, aquilo tudo que via não fosse a imundice que há pouco imaginava.

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