Home / História / Parque Buenos Aires: um refúgio verde em uma selva de pedra

Parque Buenos Aires: um refúgio verde em uma selva de pedra

Como os parques têm a capacidade de impactar a vida urbana dos paulistanos
Por Fábio Camargo, Tiago Leal, Guilherme Brejão, Vitor Massaru e Luiz Parreira

O Parque Buenos Aires é um dos principais polos de lazer e cultura da região central da cidade de São Paulo. Localizado no bairro de Higienópolis e inaugurado em 1913, foi concebido como um jardim público inspirado nos grandes parques europeus e em alguns parques de Buenos Aires, na Argentina, que lhe deu o nome. Durante o século XX, o espaço passou por várias reformas, mas manteve o seu caráter original de área verde e espaço de lazer. No entanto, o crescimento da cidade e a verticalização da região de Higienópolis impactaram sua paisagem e seu entorno. Ainda assim, o parque se manteve como um refúgio verde em meio à agitação da cidade.

Segundo Matheus Casimiro, professor e doutor em Arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie existiam duas confusões sobre a origem do parque. A primeira de que o parque teria sido planejado por Bouvard, um paisagista francês “Bouvard foi responsável pelo projeto do parque Anhangabaú. Na verdade, ele apenas indicou a possibilidade de se criar outro parque na área do Buenos Aires”, explica.

A segunda polêmica girava em torno da nomenclatura do local, havia um debate se o ambiente deveria ser considerado um parque ou uma praça. “Até determinado ponto, o local era considerado praça, por não ser cercado por um gradil e ser um espaço pequeno. Depois, com a pressão dos moradores e o cercamento com grades, se tornou oficialmente um parque. Mas ele sempre teve as características de um jardim, e por isso era mais similar a um parque por ser refúgio verde do que uma praça. Já que a praça por sua vez era um lugar de muvuca, da confusão do dia a dia e não um espaço de recolhimento”, conclui o professor.

Estátua “Veado lutando com três tigres”

Para o produtor de audiovisual Vagner Pellegrini, de 36 anos, a estrutura do parque é um dos motivos que o faz continuar morando na região (ele se mudou recentemente do seu apartamento antigo, mas continua vivendo em Higienópolis). “Eu venho todo dia por causa da minha cachorra. Venho com ela aqui há uns 5 anos. Até por isso quando me mudei de Higienópolis, me mantive por perto.” Mas o produto faz um alerta sobre a utilização do espaço para cães: “Às vezes tem uns pais sem noção que deixam as crianças correndo lá dentro e isso agita o animal que pode, mesmo na brincadeira, acabar machucando sem intenção.”

No panorama atual da sociedade, com as novas e infinitas formas de entretenimento – em canais de streaming, as mídias sociais e os vídeos games – o espaço virtual parece ter mais valor que o físico para as novas gerações. Sobre isso o professor Casimiro explica como o contexto histórico muda a maneira como enxergamos os parques públicos. “O parque tem a função de ser um lugar para uso público. E assim, está condicionado as variações de contexto de cada período histórico.

No século 18, as pessoas usavam o parque para praticar críquete, na década 70 havia malhas de bocha e hoje são as pistas de skate que assumiram o protagonismo. Antigamente os córregos eram cimentados para criação de quadras, hoje as pessoas veem o córrego com um valor ecológico para sociedade. Independente dessa migração para o digital, o espaço do encontro e da sociabilidade ainda é muito característico do parque.”

Estátua “Nascer”

O parque tem uma série de benefícios para o espaço urbano. Ainda mais hoje em dia, com as questões ambientais tão em voga e pautando os debates e a opinião pública. O docente explica que os parques verdes têm um papel muito importante na drenagem das águas das chuvas, mantendo a água em um ambiente verde e auxiliando na prevenção de enchentes. Também, esses espaços agem como um regulador da temperatura ajudando na ventilação urbana. Para o professor, o grande desafio é equilibrar o uso do espaço público e a preservação ambiental.

Um parque público é um espaço democrático para o uso de toda população. Mas desfrutar desse espaço na rotina corrida do dia a dia pode ser um privilégio restrito a poucos. A babá Edilene da Silva tem 47 anos e ao ser perguntada sobre o motivo de sua vinda ao parque, revelou que não era lazer: “Eu venho quase todo dia, eu costumo por a criança que cuido para brincar e passear pelo parque. Mas eu venho a trabalho”.

Mais sobre o parque: segundo o site da Prefeitura da Cidade de São Paulo, o parque tem aproximadamente 21.000 metros quadrados. Um dos destaques do parque são as diversas esculturas presente no local: Veado Atacado, Leão Atacado, o busto do pensador argentino Rivadávia, entre outras. Te convidamos a conferir mais obras e suas curiosidades em nosso Instagram @conexaocentro. O local também conta com uma vasta vegetação das mais diversas espécies como: alecrim-de-campinas (Holocalyx balansae), andá-açu (Joannesia princeps), ipê-amarelo (Handroanthus chrysotrichus). E o parque abriga cerca de 80 espécies de flora ameaçadas de extinção, entre elas o palmiro-jussara (Euterpe edulis) e o famoso pau-brasil (Paubrasilia echinata). O parque fica localizado na Avenida Angélica, 1500 – Higienópolis.

Autor

+ posts