Por: Luana Xavier
Localizada próxima à Estação da Luz, a Ocupação Mauá é um símbolo de resistência e organização em meio às desigualdades do centro de São Paulo. Em um prédio que já esteve abandonado, 237 famílias hoje fazem dele um lar.
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“O direito à moradia é a porta de entrada para outros direitos. Quando você tem um endereço, você consegue tudo: saúde, educação, trabalho. A moradia é o início de uma vida com dignidade.”
A história começou em 2002, quando o prédio foi ocupado pela primeira vez. Após uma reintegração de posse, o imóvel foi retomado em 25 de março de 2007. Foram os movimentos MMLJ (Movimento de Moradia na Luta por Justiça), ASTCSP (Associação Sem-Teto do Centro) e MMRC (Movimento de Moradia da Região Central), que consolidaram a ocupação.
Em 2012, quase cinco anos após a segunda ocupação, o movimento enfrentou uma nova luta. O proprietário tentou entrar com uma liminar para reintegração de posse, mas houve uma mobilização dos movimentos que garantiu que o imóvel fosse incluído em um decreto de interesse social. Desde então, a Mauá está protegida por sua classificação como ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), permitindo que o prédio seja destinado à habitação de interesse social.
O próximo passo é a reforma completa do prédio, que já está habilitado para programas de retrofit, um processo que consiste na modernização de edifícios antigos. A expectativa, segundo Neti, é que as famílias possam financiar suas próprias unidades após a renovação do espaço.
A Ocupação Mauá, ao longo de 17 anos, estruturou-se por meio de organização e articulação, com rotinas e reuniões que garantem o bom funcionamento do espaço: “Cada andar tem o seu coordenador, a gente se reúne mensalmente ou quando há uma necessidade extraordinária”, explica Neti.
O prédio quase foi transformado em um centro do Projeto Redenção, voltado para a população em situação de rua, o que gerou um embate com a prefeitura. “Somos moradores aqui há mais de 17 anos, já temos um projeto para este imóvel. Não podemos ser tratados como se não existíssemos”, afirma Neti. Hoje, o diálogo com a prefeitura existe, mas é marcado pela burocracia.
Para moradores como Edivina da Cunha, 66 anos, aposentada que vive com três netos em um dos apartamentos da ocupação, a Mauá é um símbolo de estabilidade: “Moro há 17 anos na ocupação, e a Mauá, pra mim, é uma coisa muito boa. Antes, eu pagava aluguel e passava necessidade, hoje tá tudo bem, pois temos muitas ajudas aqui nesse prédio, como cesta básica e doações.”

Além de ser um lar, o edifício também se tornou um espaço cultural, abrigando produções artísticas como documentários e o videoclipe do rapper Emicida. Neti conta que, após a pausa forçada pela pandemia, a ocupação retomou gradualmente seu calendário de eventos, mantendo as portas abertas para parcerias culturais.





