Em meio à selva de concreto de São Paulo, casarões históricos resistem ao tempo. Restaurados e transformados em museus e centros culturais, essas construções contam parte da história da cidade, mas enfrentam desafios para se manterem vivos.
Casa das Rosas: um museu no coração da Paulista



Projetada pelo engenheiro Felisberto Ranzini e construída entre 1927 e 1935, a Casa das Rosas foi encomendada por Lúcia Lacaze Ramos de Azevedo e por Ernesto Dias de Castro, seu marido. Lúcia era filha do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, fundador do escritório responsável pela obra. O casarão foi habitado por 51 anos pelo casal, por seus dois filhos – Laura Dias de Castro e Ernesto Dias de Castro Filho – e, mais tarde, pela nora, Anna Rosa Menezes de Castro, que foi a última a deixar o casarão em 1986. Além da família, o casarão também foi habitado por diversos funcionários que cuidavam da casa e do jardim.
A Casa das Rosas possui cerca de trinta cômodos, além de duas varandas e um jardim com ipês, pitangueiras, um abacateiro, uma mangueira e as rosas, flores que dão nome ao casarão. Os cômodos foram separados em áreas íntimas, sociais e de serviços. No primeiro andar ficam a escada de serviço – que ligava todos os pavimentos do imóvel, inclusive o subsolo e a mansarda – a copa, a sala de lanche, a cozinha, a sala de jantar e a sala de estar – que faziam parte da área íntima da residência – a biblioteca e o escritório – onde os moradores recebiam amigos, clientes e fornecedores. No segundo andar ficam a antecâmara – que conectava os dormitórios e os banheiros – a saleta, um dormitório e o banheiro verde – que juntos funcionavam como um pequeno apartamento para receber hóspedes – o quarto do casal, um outro dormitório e o banheiro rosa – que era uma área focada nos moradores do casarão – a rouparia e o pátio.
Entre 2021 e 2023, a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, passou por um processo de restauro e hoje funciona como um museu-casa com entrada gratuita e recebe exposições, atividades culturais e educativas e cursos de literatura, além da área externa, onde ficam um restaurante e cafeteria. Loren Alves, 53 anos, visita o casarão desde que mora no bairro, há quase 20 anos. A fotógrafa comenta sobre como a Avenida Paulista é uma região muito favorecida em centros culturais e sobre como os casarões restaurados ajudam a manter a história viva. “É a nossa história. História nossa, brasileira mesmo.” Loren acrescentou que, inclusive, antes do restauro, o banheiro rosa funcionava como uma biblioteca, o que não permaneceu. “Porque é curioso, né? Uma criança que entra em um local que é um banheiro, mas que está cheio de livros… assim, dá pra levar a imaginação para onde quiser”.
Livraria Cultura: uma nova casa em um casarão restaurado



A atual Livraria Cultura, que na verdade é o Casarão Adolpho Schmidt, foi projetada pelo engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado e construída na década de 1920 para abrigar a família do médico Adolpho Schmidt Sarmento, que dá nome à casa. O casarão foi tombado como patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico pela CONPRESP, que significa Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo. A filial da Livraria Cultura, que fica na Avenida Angélica, possui entrada gratuita e conta com um grande acervo de livros novos para venda e outro menor de livros usados no espaço de sebo para venda na própria Livraria Cultura. A antiga residência também conta com uma cafeteria da Biscoitê, que fica no mesmo espaço.
Museu do Livro Esquecido: uma nova vida para um casarão da Liberdade



O atual Museu do Livro Esquecido, também projetado por Felisberto Ranzini, foi construído em 1924 para abrigar a família do próprio engenheiro e teve seu último morador em 2006. Com uma planta muito semelhante à Casa das Rosas, a Casa Ranzini também possui dois andares e um porão que possuía, entre outros cômodos, uma sala usada para revelar fotografias.
Aila Passeto Castro de Sousa, 22 anos, que é guia do Museu do Livro Esquecido, começou a trabalhar no local um pouco depois da sua inauguração como museu após o restauro, que foi em agosto de 2024. Ela comenta sobre como os casarões restaurados ajudam a história a não se perder e ser apagada, como tantos outros casarões que já foram demolidos em São Paulo. “A gente não pode deixar essa história ser esquecida”, complementa. Aila diz que o casarão traz uma janela para enxergar uma vida que as pessoas normalmente não conhecem, além de trazer um fôlego em meio a correria. “Trazer essa coisa cheia de tijolos e de colorido, eu acho que é um fôlego para os nossos olhos”.
Vinícius Veneziani, 29 anos, conta que já tinha vontade de trabalhar em um museu antes de ter sido apresentado ao Museu do Livro Esquecido por uma amiga. Ele comenta sobre os cuidados que devem ser tomados para serem feitos quaisquer procedimentos no casarão, sejam eles por segurança ou preservação. Ele diz que tudo precisa ser documentado e que devem ser consultados vários especialistas diferentes para que, dessa forma, seja mantida a identidade do casarão. “Por mais que o tempo passe, ele tem que preservar o que ele é, o que ele foi, e isso é trabalhoso”, comenta. Vinícius também fala sobre como os casarões restaurados, que trazem à memória o próprio espaço e os seus antigos moradores, são importantes também no presente. “É importante que lugares como esses que são ‘parados no tempo’ existam para que a gente tenha consciência de todo o processo que nos fez chegar onde a gente chegou”.
O Museu do Livro Esquecido, que fica na Liberdade, recebe exposições, um acervo acadêmico, clube de leitura, lançamento de livros e eventos culturais, além de fazer visitas guiadas pelo Museu. A visitação pode ser agendada nos dias da semana, e no sábado e no domingo, os ingressos devem ser comprados no próprio Museu ou online.





