Museu da Imigração reúne memória e ancestralidade e resgata a história de São Paulo, trazendo um olhar para os dias atuais
Entre malas de couro desgastadas, fotografias amareladas e histórias que cruzaram oceanos, a herança imigrante se faz presente na cidade de São Paulo por meio do Museu da Imigração, no coração do bairro da Mooca. O local preserva as memórias de milhões de pessoas que, em diferentes épocas, buscaram aqui novas possibilidades de vida. Em um momento em que o Brasil continua sendo refúgio e esperança para tantos, o espaço histórico que já foi a antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás se torna ainda mais atual e necessário.
[video_player file=”https://www.comunica.blog.br/digital/wp-content/uploads/2025/05/IMG_4088-1.mov”]
Fachada do Museu da Imigração
Inaugurada em 1887, a Hospedaria de Imigrantes foi uma das principais portas de entrada para aqueles que abandonaram suas terras natais, enfrentando incertezas em busca de trabalho e de um futuro melhor. Durante seus 91 anos de funcionamento, acolheu cerca de 2,5 milhões de pessoas de mais de 70 nacionalidades — italianos, japoneses, portugueses, espanhóis, sírios, libaneses, e tantos outros que ajudaram a moldar o Brasil que conhecemos hoje.
Em 1991, o prédio foi tombado pelo Conpresp, órgão de preservação municipal. Pouco depois, em 1993, foi criado o Museu da Imigração e em 1998, passou a se chamar Memorial do Imigrante, até ser novamente renomeado como Museu da Imigração, em 2011. A antiga hospedaria hoje abriga documentos, objetos, depoimentos e exposições que contam essas trajetórias de coragem e resiliência. Mais do que preservar relíquias do passado, o Museu da Imigração é um espaço vivo, que dialoga com a atualidade e continua revelando a força dos movimentos migratórios.
Prova disso é que, só entre janeiro e novembro de 2024, o Brasil registrou a chegada de cerca de 180.507 migrantes, segundo dados obtidos no Boletim da Migração divulgado pela Secretaria Nacional de Justiça (Senajus). Além disso, 62.388 solicitações de refúgio no mesmo período. Nesses 11 meses do último ano, foram reconhecidas 13.340 pessoas como refugiadas pelo Comitê nacional para Refugiados (Conare) — números que reforçam o papel acolhedor que o Brasil desempenha no cenário internacional.
Falar de migração é falar de ancestralidade e memória. A sala conhecida como Módulo 4, que é onde ficam as beliches, é descrita por Gabriela dos Santos, 28 anos, supervisora do setor educativo, como uma parte do Museu que reúne objetos pessoais das pessoas que passaram pela hospedaria e daqueles que trabalharam nela. “Geralmente o grande momento em que as pessoas ficavam muito emocionadas”, comenta. E apesar do museu trazer à tona várias memórias positivas, que são lembradas com carinho pelos visitantes, muitas vezes o processo migratório também remete à memórias e experiências traumáticas. “Então parte do nosso trabalho era mediar quem se emocionava, por felicidade, mas parte também desse público que não se sentia muito à vontade com esse espaço, então acolher, levar para um outro, tentar tornar aquela experiência um pouco mais leve.”



Para além de um espaço de resiliência e memória, o Museu da Imigração também representa um espaço de identificação. No entanto, trazê-la nem sempre é algo fácil, como comenta Raquel Freitas, 38 anos, também supervisora do setor educativo do Museu. Ela comenta sobre como o Museu costumava abordar processos migratórios específicos e, com o passar do tempo, o Museu foi se dando conta de que trazer o processo migratório de algumas nacionalidades talvez não fosse o suficiente para descrever ele como um todo. “Então a proposta, a partir de 2014, quando a gente retoma as atividades do Museu da Imigração, não mais como Memorial, é pensar na perspectiva migratória um pouco mais expandida, ao invés de trabalhar com nacionalidades específicas”, explica.
E apesar do processo migratório estar ligado com a ancestralidade, o Museu também têm o desafio de manter aberto o diálogo sobre esse processo, que foi muito importante para a construção da sociedade que temos hoje no Brasil, mas que também ocorre até os dias atuais. “A gente está falando de um museu que fala de um fenômeno humano, então, enquanto existirem pessoas, vai haver migração – e se manter atualizado sobre esse assunto, falar dele de uma forma respeitosa, entendendo que a gente mexe com memória familiar também das pessoas”, comenta Gabriela.




