Gaterias e parcerias criativas têm incentivado a adoção de animais, criando alternativas para conectar pets e tutores
A adoção de animais ganhou novos contornos, com iniciativas que estão transformando a forma como as pessoas se conectam com os animais desamparados. Projetos como as gaterias ou cat cafés (cafeterias que somam a experiência gastronômica com a adoção de gatos) e exposições de arte que buscam trazer a história destes animais são alternativas para fomentar a adoção. A processo é comum entre brasileiros, de acordo com pesquisa da GoldeN/Opinion Box, que diz que 80% dos animais domésticos do País são frutos da adoção.
As chamadas gaterias são uma nova tendência de mercado que tem se popularizado no Brasil e no mundo e podem transformar esse cenário. Com o exemplo de Nova York e Tóquio, que abrigam diversos estabelecimentos neste estilo. Conforme apuração realizada pela revista Elle, a situação nestes países é de pouco espaço e tempo para o cuidado com os animais de estimação, o que motiva a população a procurar oportunidades de interação sem a necessidade de arcar com as responsabilidades.
MATCH PERFEITO
Os animais atraem o público oferecendo a oportunidade da criação de laços antes do processo adotivo. Estes momentos ajudam os tutores a realizarem uma escolha personalizada, tomando como ponto de partida a personalidade de cada um, e oferecem aos animais momentos de socialização e carinho – muitas vezes escasso em abrigos com alta demanda.

Embora a ideia seja cativante e tenha se mostrado uma forma divertida de atrair pessoas, ela também levanta algumas questões sobre o impacto no bem-estar dos felinos. Em entrevista exclusiva ao Conexão Centro, a veterinária Giovanna Thomazini Nape, 25 anos, detalhou que esses ambientes, apesar do benefício da socialização, trazem desafios. Segundo Giovanna, o ideal é que as gaterias realizem as interações em uma sala adaptada para a espécie, que seja ampla, arejada e com gatificacão – espaço que possibilita que o animal se esconda quando não quiser interação. “O ambiente também deve ter água e alimento disponível e ser o mais silencioso possível”, completa a profissional. As gateiras analisadas para a produção desta reportagem atendem às recomendações propostas pela profissional, além de que o perfil dos gatos disponíveis é detalhado, eles precisam ser adultos – considerando que estes possuem mais dificuldade para encontrarem lares, são castrados, vacinados e dóceis.
Bruno Barbosa, 35 anos, é o responsável pelo cuidado e visita aos gatinhos na Gateria Gato Pingado, localizada em Pinheiros – região nobre de São Paulo. Segundo ele, os gatos levam em média três meses até serem adotados. Além disso, até o momento, mais de 200 famílias já encontraram seus novos gatinhos por meio de visitas realizadas no estabelecimento.
Os felinos têm uma área exclusiva na Gateria e os interessados pagam por volta de R$ 12,00 para passar um tempo por ali.
ATO DE AMOR
Além das novas formas de adoção, os modelos tradicionais como entidades ligadas a abrigos também têm inovado nas ideias para cativar o coração do público, como a exposição fotográfica “CÃOVIVENDO COM ELES – Adoção é de CORAÇÃO”, realizada no espaço Caminhos da Arte do shopping Center 3, na Avenida Paulista, em São Paulo. Cleuza Casagrande, 59 anos, voluntária do projeto Afilhados Pets conta como a parceria com o shopping tem ajudado a aproximar pessoas dos animais resgatados, principalmente em relação aos adultos e de grande porte. “Apresentar a história de superação destes animais faz toda a diferença. Já fomos em diversas feiras e voltamos com todos os cachorros, porque as pessoas preferem os filhotes”, relata.

A proposta da exposição foi iniciativa do projeto, que buscava formas de incentivar a adoção dos cães mais velhos do abrigo Paraíso dos Cães. O resultado foram fotos profissionais expostas nos corredores do estabelecimento com um Qr Code que direciona para o site do processo adotivo e outro que apresenta um áudio com a história dos bichos.
Um exemplo prático é o da estudante de psicologia, Lizandra Perucci, 20 anos, que compartilhou sua experiência em relação a esse modo comovente de apresentação dos animais. “Encontrei um post no Facebook que contava a história de resgate das minhas duas cachorrinhas. Toda minha família ficou sentida e fomos buscá-las no dia seguinte”, diz.
Cleuza compartilha, ainda, a felicidade com o sucesso das adoções. “Até o momento 3 já encontraram novos lares e a expectativa é que mais deles sejam escolhidos na feira de adoção que acontecerá como finalização da parceria”, explica. A feira em questão acontece no próximo domingo (13), das 11h às 15h, no Shopping Center 3 e faz jus ao movimento “Abril Laranja”, marcado pelo Dia Mundial dos Animais de Rua, comemorado no dia 4 do mês.
EXIGÊNCIAS
Ao pensar em adoção, é fundamental que os tutores estejam cientes dos desafios da adaptação, especialmente para aqueles resgatados de situações difíceis.
A Veterinária Giovanna Thomazini reforça as preparações necessárias para lidar com um novo integrante. “Um animal recém adotado precisa acima de qualquer coisa da atenção e paciência dos novos adotantes”, conta. A profissional alerta que para uma boa adaptação é preciso o básico: água e alimento fresco disponível e um local distante da comida para suas necessidades fisiológicas. Além disso, é preferível que tenha disponível um ambiente com pouco barulho e acesso a luz natural, com a também possibilidade de sombra.
Para garantir a qualidade dos lares finais, o Afilhados Pets faz uma checagem rigorosa com videochamadas, verificação de antecedentes criminais e acompanhamento pós-doação.

Durante a realização da matéria nenhuma das tentativas de contato com a Prefeitura de São Paulo, a fim de coletar dados sobre a quantidade de animais de rua no município e práticas para diminuição dos números foram atendidas. Contudo, uma pesquisa realizada pelo Instituto Pet Brasil afirma que quase 5 milhões de gatos se encontram em vulnerabilidade no País.
EM NOTA
A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou, por meio da Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap), que vem desenvolvendo uma série de ações para fomentar a guarda responsável e a adoção de animais na capital. Entre as iniciativas, destaca-se o Programa Permanente de Controle Reprodutivo de Cães e Gatos (PPCRCG), que desde sua criação já promoveu mais de 1,6 milhão de castrações gratuitas. Somente em 2024, foram realizadas 120.368 esterilizações. Todos os animais atendidos são também vacinados, microchipados e recebem o Registro Geral do Animal (RGA), documento obrigatório no município para cães e gatos com mais de três meses de idade.
Sobre a adoção, a pasta informou que o Centro Municipal de Adoção de Cães e Gatos (CMACG) registra, em média, 300 adoções por ano — em 2024, foram adotados 278 animais. A SMS destaca que há maior procura por filhotes e cães de pequeno porte ou de raça, e que campanhas específicas, como a “Adote um Velhinho”, têm sido realizadas para incentivar a adoção de animais idosos ou de maior porte. Todos os animais disponibilizados para adoção passam por processo de entrevista com os tutores, são castrados, registrados e acompanhados após a adoção.

Sobre os estabelecimentos voltados ao acolhimento de felinos, como as gaterias, a SMS informou que a fiscalização desses locais é de responsabilidade das Unidades de Vigilância em Saúde (Uvis), sob coordenação da Covisa. Já o recolhimento de animais de rua, segundo a Divisão de Vigilância de Zoonoses (DVZ), ocorre apenas em situações específicas, como agressões, risco à saúde pública ou casos de sofrimento animal.
A prefeitura também destacou que o município conta atualmente com quatro hospitais veterinários públicos, distribuídos pelas zonas leste, norte, sul e oeste da cidade. A quinta unidade, em construção na zona leste (São Miguel Paulista), tem entrega prevista ainda para este ano. O atendimento é gratuito e voltado à população de baixa renda residente em São Paulo.
Por fim, a SMS reforçou que o abandono de animais é crime e que cabe aos órgãos de segurança pública investigar e atuar nesses casos.


