Em meio à atual crise de saúde mental na sociedade, medicinas sagradas surgem como possível auxílio no tratamento de transtornos
“Estava muito estressada, com muitos pensamentos negativos e oscilações de humor por bastante tempo, e isso me incomodava” conta Janaina Sousa, 28 anos. “Depois da minha primeira experiência com cogumelos, minhas crises de ansiedade diminuíram, me senti mais calma e agora consigo focar no meu trabalho. Foi transformador para mim!” termina. O relato de Janaina coincide com uma crescente onda de uso de medicinas alternativas – ou “sagradas” – para ajudar no tratamento de transtornos psicológicos, como ansiedade generalizada e depressão. As opções mais utilizadas são os cogumelos alucinógenos, que contém psilocibina, e a ayahuasca, bebida nativa da América do Sul que contém N-N-dimetiltriptamina (ou DMT). Ambas são substâncias psicodélicas que têm sido creditadas por usuários como benéficas para a mente, e com isso, vêm ganhando atenção nos últimos anos.

A tendência surge diante de um cenário caótico de saúde mental. Segundo o Institute for Health Metrics and Evaluation, 13.9% da população mundial experenciou algum transtorno psicológico em 2021, o que equivale a 1,10 bilhão de indivíduos. No mesmo ano, no Brasil, houve incidência de 18.411 casos por 100 mil habitantes, uma das taxas mais altas no mundo. Só em São Paulo, em 2024, foram concedidos 45.837 benefícios previdenciários associados à saúde mental, de acordo com a Série SmartLab de Trabalho Decente 2025. O tratamento com medicamentos antidepressivos e/ou antipsicóticos é o mais recomendado por órgãos oficiais para lidar com esses transtornos. Porém, a busca por substâncias alternativas tem ganhado espaço, muitas vezes por relatos “extraordinários” – tanto nas redes sociais quanto em círculos de amigos – de melhora rápida e sem efeitos colaterais.
“Comecei a usar devido o relato de um amigo, que disse ser bom para ansiedade” relata Estela Almeida Tonello, 34 anos. Ela afirma ter experimentado ayahuasca anteriormente, mas os efeitos surtiram maior impacto com uso dos cogumelos: “Foram mirações bem fortes. Muitos detalhes e cores. Era tão lindo que às vezes eu chorava e me perguntava como era capaz de ver tantas coisas bonitas. Não parecia ser algo da minha mente”. Tanto os cogumelos quanto à ayahuasca agem no cérebro de forma similar à serotonina, neurotransmissor relacionado ao humor, sono e apetite, dentre outros. Os efeitos geralmente descritos incluem alucinações, euforia, perda da noção do tempo, e por vezes, tristeza, náuseas e vômito.
Pesquisas começaram a ser feitas para entender melhor essas substâncias e seu potencial terapêutico. Em 2006, na Universidade Johns Hopkins, participantes que usaram psilocibina descreveram experiências místicas que causaram alterações positivas em seu comportamento. Estudos posteriores em 2018 mostraram que um grupo de pacientes com depressão profunda tiveram grande alívio dos sintomas após duas sessões. Na Unicamp, o livro Visões Multidisciplinares da Ayahuasca, lançado em 2024 e fruto de um projeto fundado pelo psiquiatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas, Luis Fernando Tófoli, trouxe pesquisas com resultados positivos do consumo da bebida em sintomas de depressão. A tendência é que mais estudos sejam conduzidos no tema.
“Observamos que o DMT e a psilocibina funcionam bem e não causam dependência ou efeitos adversos de antidepressivos clássicos” explica a terapeuta e pesquisadora Tamires Tiemi Kishi, atualmente doutoranda pela UNIFESP na área de saúde mental. Segundo ela, ambas as substâncias têm pesquisas com dados parecidos, indicando que elas aumentam neuroplasticidade e atuam na Rede de Modo Padrão, região no cérebro associada com estresse pós-traumático e depressão. Tamires, entretanto, desencoraja o uso sem supervisão. “Não se deve tomar de qualquer forma. Se a experiência for malconduzida, terá grande risco de agravar um quadro já existente. Para pessoas com histórico de esquizofrenia, borderline etc, não é interessante usar” contrapõe.

No Brasil, a ayahuasca tem uso legalizado no contexto religioso. Os cogumelos também podem ser comercializados legalmente, porém a psilocibina consta na lista F2 de substâncias psicotrópicas, cujo uso está proibido no Brasil. Logo, não pode ser extraída e vendida separadamente.
Diversos locais em São Paulo oferecem terapias com os psicoativos. Em Santana, na zona norte, Pamela Machado e Luana Lopes conduzem cerimônias há quase 10 anos no Instituto Serpente Sagrada, que se tornou referência no assunto e atrai visitantes de diversos perfis e faixas etárias. “Quando iniciamos, o mundo das medicinas era mais “solto”. Víamos que muitos lugares por vezes não tinham regras ou embasamento. Então, entramos nesse cenário tentando trazer seriedade no uso das medicinas, mostrando o propósito ancestral.” explica Luana. Já Pamela destaca os valores pessoais do local, cruciais na condução das terapias: “Prezamos muito pelo acolhimento. Nossa casa é fechada, quentinha, confortável. Nos preocupamos com a forma que a pessoa vai ter essa experiência. Hoje os trabalhos são menores para conseguirmos cuidar individualmente de cada um dos participantes” conta. A equipe do Instituto inclui uma psicóloga, que auxilia nas cerimônias que envolvem a consagração não só da ayahuasca e cogumelos, mas também a do cacau, rapé e sananga. “Trazemos também a palavra dos povos originários, que são os verdadeiros guardiões da maior parte das medicinas que trabalhamos.” conclui. São realizadas em torno de 5 cerimônias por mês, com uma média total de 25 participantes.
Importante: Este artigo não é uma recomendação de tratamento. Procure sempre orientação profissional.
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