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A atual ultrapassada reforma no Vale do Anhangabaú

Inaugurado em 2021, após reforma que custou mais de R$ 100 milhões, o novo Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, pretendia ser um símbolo de revitalização urbana, lazer e convivência. Mas, para quem vive ou circula pela região, a paisagem de concreto e fontes luminosas está longe de representar melhoria: pelo contrário, moradores e trabalhadores apontam que a reforma descaracterizou o espaço, intensificou o calor e afastou a vida cotidiana que ainda resistia no coração da cidade.

“Faltou criatividade nesta reforma”, diz Angel Lima, de 28 anos, moradora do centro. “Gastaram muito para apenas encher de concreto. O centro precisa de mais criatividade e mais flores.” A opinião dela é compartilhada por Daphne Sacramento, de 19 anos: “Essa reforma acabou tirando as árvores que tínhamos, e agora sofremos mais com o sol.” Raul Gomes, 26, que trabalha na região, vai além: “Essa reforma descaracterizou a identidade do centro.”. Os depoimentos dos transeuntes e da moradora refletem a tensão social gerada pelo processo de gestão privatizada e sua operação no Vale. 

A requalificação do Vale começou em 2019, na gestão de Bruno Covas (PSDB), e foi entregue em julho de 2021, já sob a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB). O projeto, assinado pelo escritório SP Urbanismo com consultoria do Jaime Lerner Arquitetos Associados, previu um piso contínuo de granito, chafarizes interativos, iluminação cênica e novos mobiliários urbanos. A obra foi planejada para transformar o local em um polo de lazer e eventos, com programações culturais periódicas.

Para garantir essa “ativação”, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) entregou a gestão do espaço à Concessionária Vale do Anhangabaú S.A., formada pelo grupo GL Events, ao assinar um contrato de dez anos. O que diferencia essa concessão das outras é que ela não tem um Conselho Gestor, como comumente ocorre em parques. Desde então, o Vale passou a depender de uma agenda oficial para atrair visitantes. 

Desde a inauguração em 2021, tem ocorrido uma série de eventos privados, fechados, com ingressos a preços abusivos. Em alguns casos, com até 10 dias antes do evento, grandes porções do espaço público foram fechadas e equipadas com mecanismos de separação: tapumes em chapa metálica vedada, montadas em perímetros diversos, compelindo as pessoas a desvios em seus caminhos rotineiros, expostos ao calor e à sensação de insegurança.

A estratégia de revitalização foi amplamente criticada por arquitetos, urbanistas e movimentos sociais. Um dos principais pontos de questionamento foi o modelo de “urbanismo espetáculo”, que prioriza a estética visual em detrimento das necessidades reais de quem usa o espaço público todos os dias. Daniela Klintowitz, urbanista e coordenadora do Instituto Polis, aponta higienismo: “muito se fala sobre revitalização do centro, mas o termo significa trazer vida novamente[…] é como se as pessoas que lá habitam não tivessem valor”. A retirada de árvores, a ausência de sombra, a eliminação de bancos tradicionais e a uniformização do piso criaram um ambiente inóspito para a permanência.

Fonte: André Biselli Sauaia. Elaboração do autor sobre mapas e plantas históricas da cidade de São Paulo

Outro ponto sensível é a privatização velada do espaço. Com a concessão à iniciativa privada, surgem contradições em relação às restrições previstas no contrato sobre uso espontâneo e à ocupação livre por parte da população. O contrato prevê como infração gravíssima “vedar o acesso público à área de concessão: […] é vedada a cobrança de valores pecuniários para acesso às atividades de interesse coletivo” (São Paulo, Prefeitura, 2021). A quebra de contrato torna-se evidente. Comerciantes ambulantes foram retirados, e o novo Vale passou a funcionar de forma controlada, muitas vezes com acesso limitado durante eventos. Na prática, a reforma dificultou o acesso da população mais pobre e dos trabalhadores informais ao centro da cidade.

O novo desenho urbano ignora também debates atuais sobre mobilidade, sustentabilidade e microclima. A superfície de granito torna o local mais quente em dias de sol e escorregadio em dias de chuva. Observa-se a falta que fazem às últimas configurações do Anhangabaú com laje livre para pedestres,ciclovias, áreas verdes e conectividade com outros espaços do centro que não foram contemplados de forma eficaz, contribuindo para o isolamento do Vale. A predominância do concreto é um dos principais fatores que hoje influenciam a vida dos habitantes: sua alta retenção de calor e impermeabilidade, criam ilhas de calor e favorecem a ocorrência de inundações.

Ao caminhar pelo novo Vale do Anhangabaú, é difícil encontrar sombra, mas é fácil perceber o quanto o projeto se afastou das necessidades reais de quem mora, trabalha ou transita pelo centro. A crítica feita por moradores e especialistas aponta para algo maior: a urgência de repensar o modelo de urbanismo de São Paulo, que segue na contramão dos projetos atuais de grandes metrópoles, insistindo em reproduzir fórmulas ultrapassadas em vez de escutar quem vive a cidade todos os dias.

Confira os depoimentos completos na íntegra: https://youtu.be/jFqhpeYvYw0?si=S00lo8JsEaCggcK7



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