O Carnaval de rua paulistano, conhecido por sua diversidade e inclusão, está em risco. Com apenas 13% dos blocos recebendo financiamento público, grupos independentes lutam para manter suas tradições vivas. Sem apoio, muitos podem não sair às ruas em 2026. Os blocos que trazem novas propostas e representam diferentes grupos e identidades apresentam dificuldades crescentes para se manterem ativos, uma vez que não recebem o apoio financeiro, público ou privado, necessário para garantir a infraestrutura, visibilidade e a continuidade dessas iniciativas. “Blocos comerciais como os de Pabllo Vittar, Glória Groove, Daniela Mercury e Baixo Augusta recebem patrocínios robustos e não enfrentam dificuldades financeiras”, conta Bárbara Falcão, 44 anos, cofundadora e produtora do Bloco Siriricando, assim como Vanessa Siqueira e Milena Fonseca. Esse cenário não ameaça apenas a permanência desses blocos, mas também coloca em risco a diversidade e a pluralidade que são a essência da data festiva.
Dedicado a mulheres lésbicas e bissexuais, o Bloco Siriricando é um exemplo claro dessa realidade. Idealizado desde 2017, teve sua primeira edição em 2019 e já reuniu mais de 14 mil pessoas no centro de São Paulo em 2024, ano recorde de concentração. Mesmo reunindo milhares de foliões, o bloco enfrenta os mesmos desafios financeiros que impactam grupos de minorias no Carnaval. A dificuldade na arrecadação de verba para o projeto ainda é um empecilho.
Em 2025, a organização do bloquinho decidiu não retornar às ruas, a decisão se deu após não receberem o auxílio do governo, diferente dos anos anteriores. “A gente saiu nestes últimos dois anos por conta do edital”, conta Bárbara. Atualmente, a única fomentação para essa celebração cultural é cedida pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa do Estado, por meio do Edital de Fomento aos Blocos de Carnaval. A ação iniciou em 2020 e, desde então, possui edições divulgadas anualmente, geralmente em dezembro. No documento, há uma lista dos requisitos que devem ser seguidos para concorrer à premiação.






FINANCIAMENTO DESIGUAL
Apesar das tentativas de fomento, o valor destinado ainda é insuficiente para atender à demanda dos blocos de rua na cidade. Com uma verba estimada em 2,5 milhões de reais, o edital seleciona 100 bloquinhos, dos quais participaram da avaliação realizada via inscrição. Para os selecionados, há um prazo de cerca de um mês para elaboração. No entanto, o projeto contempla apenas 13% dos blocos da cidade, dos 767 cadastrados na região. Procurada, a Prefeitura de São Paulo justifica que os projetos foram avaliados com base na tradição e no impacto cultural dos blocos.
A desigualdade entre blocos grandes, que recebem patrocínio, e os menores, que lutam por recursos, cria uma competição injusta. Sem financiamento, muitos grupos independentes ficam em desvantagem, atuando com recursos limitados e muitas vezes tendo que usar o dinheiro do próprio bolso. “Ano passado foi muito difícil e desgastante. Tem a incerteza do prêmio, a demora do pagamento, o carro que eles oferecem não atende à demanda (do público) porque é pequeno. A gente faz vaquinha, a galera contribui, mas não é suficiente”, é o que comenta Milena Fonseca, 38 anos, uma das produtoras do grupo carnavalesco.
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Em nota, a Secretaria de Cultura da capital paulista alega que a diferença entre os blocos inscritos e os que efetivamente desfilarão deve-se, na verdade, a desistências registradas, além de, dificuldades na conciliação das agendas de artistas e a decisão de alguns blocos de manter apenas uma data – inicialmente inscritos para desfiles em mais de um dia.
FUTURO
Sem o suporte necessário, blocos como o Siriricando, entre outros menores, enfrentam a possibilidade de não retornar às ruas em 2026. A situação expõe a urgência de uma revisão nas políticas de fomento e no modelo de apoio do poder público, para garantir que as múltiplas vozes e identidades que compõem o Carnaval paulistano continuem a ter espaço nas celebrações. “É necessário ter um controle dessa política pública e um direcionamento. Não que os blocos grandes não mereçam, mas acredito que os blocos que realmente precisam também deveriam ter essa garantia”, finaliza Bárbara, quando questionada sobre novas diretrizes para o edital.




