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Entre Lápides e legados: o Cemitério da Colônia mantém viva a história dos imigrantes alemães em São Paulo

Tombado como patrimônio histórico, o cemitério protestante fundado no século XIX é um museu a céu aberto que preserva as raízes germânicas na cidade

 

Alguns estudiosos da literatura argumentam que existe uma linha tênue entre o fascínio e o medo. Entre os assuntos que podem gerar tais sentimentos está, sem dúvida, talvez o principal objeto de medo de muitas pessoas: a morte. Os calafrios e os ombros pesados ao passar por um cemitério também trazem consigo olhares curiosos.

Enterrar aqueles que morreram sempre foi uma questão de necessidade na sociedade, uma vez que os cadáveres, se não forem bem cuidados, podem até mesmo transmitir doenças. Até o final do século XIX, era costume enterrar os corpos daqueles que eram católicos dentro das igrejas. Quanto mais a pessoa contribuísse financeiramente, mais perto do altar ela seria enterrada. Isso ocorria porque naquela época se acreditava que quem era sepultado na igreja tinha a sua alma protegida pelos anjos, pelos santos e, é claro, por Deus.

No século XIX, um decreto imperial determinou que uma parte de Santo Amaro fosse destinada a imigrantes alemães: assim surgiu o bairro da Colônia. Apesar do Brasil ser em sua maioria católico naquela época, os imigrantes alemães do bairro eram protestantes. Foi o próprio D. Pedro I que doou um terreno em uma de suas passagens pela região para que fosse construído um cemitério. Então, em 1829, os colonos fundaram o Cemitério da Colônia, a primeira necrópole protestante do Brasil, tombada como patrimônio histórico.

Zona tombada do cemitério da Colônia – Foto: Bárbara Mendes

No começo dos anos 2000, a Associação Cemitério dos Protestantes (Acempro) conduziu a revitalização do Cemitério de Colônia. Durante esse processo, foi erguido um monumento em homenagem à imigração, houve a atualização da estrutura física e a entidade assumiu a gestão do espaço. As atividades no cemitério foram oficialmente retomadas em 18 de novembro daquele mesmo ano, e sua reinauguração foi realizada em 27 de outubro de 2001. “Conta-se que aquela parte onde tem os túmulos antigos, iam construir prédios e acabar com tudo. Ainda bem que os descendentes viram essa importância de preservação. Como as pessoas que vêm agora de uma nova geração, vão saber dos seus antepassados?” Conta André Barbosa, 59 anos, administrador do Cemitério da Colônia.

 

Barbosa nasceu no Rio de Janeiro, mas veio para a região sul de São Paulo nos anos 80 e se encantou com a história do bairro e a cultura alemã trazida pelos imigrantes. Interessado pela história da Colônia, estudou alemão na USP e foi um dos entusiastas que incentivou o movimento de tombamento do cemitério como patrimônio histórico da cidade. “A parte tombada foi em 2004, pelo Comprespe (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo) que fez esse procedimento. Tem que vir um historiador, um geólogo, técnicos dentro da área, preparado para ver se realmente o processo será válido”, complementa André. No vídeo captado pela reportagem, é possível notar a divisão entre a zona histórica tombada e a zona que é usada para os sepultamentos atuais.

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Vanessa Bortulucce, 50, é historiadora formada pela Universidade Estadual de Campinas, estuda e leciona sobre arte tumular e suas simbologias no Museu de Arte Sacra de São Paulo, defendendo a ideia da preservação dos cemitérios como um compromisso com a memória coletiva: “Os cemitérios contam a história da cidade onde eles estão, a história das pessoas, contam a história dos status dessas classes, da materialidade dessa cidade, e da sua expansão. Então, eu costumo dizer que tudo que está do lado de dentro do cemitério é fundamental para você compreender o que está do lado de fora dele”, diz Bortulucce. Vanessa explica que o auge da arte tumular aconteceu no século XIX, justamente quando o cemitério da Colônia foi fundado. “A simbologia tumular envolve um jogo de sensibilidades. E a nossa cultura de Ocidente, que vê significado no acúmulo de materialidade, às vezes não consegue identificar simbologias quando estamos diante de túmulos sem ornamentos. Hoje, os cemitérios-jardins e verticais, são momentos contemporâneos da história dos cemitérios, e eles também possuem simbologias”, complementa.

Professora historiadora Vanessa Bortulucce – Foto: disponibilizada de seu arquivo pessoal

Além do valor histórico, o espaço também desperta o interesse de curiosos, turistas e até criadores de conteúdo sobre mistérios e lendas urbanas. Thiago de Souza, 46, é criador do canal e iniciativa “O Que Te Assombra”, onde fez uma visita a necrópole da Colônia para desvendar um pouco mais de sua história, encontrando importantes elementos visuais da arquitetura protestante: “a gente tem a tradução disso na estética mais discreta, não relacionada à Santos de Devoção. E, lá no cemitério da Colônia, a gente ainda tem uma coleção plural e organizada de cruzes, que chamamos de Cruz de Ipanema. Essas cruzes também contam um pouco da história do desenvolvimento industrial do Brasil, porque elas são feitas na Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, que foi a primeira fundição brasileira organizada por Dom João VI”. Nas fotos captadas pela reportagem, podemos observar as famosas cruzes fixadas nas paredes na parte tombada da necrópole, contando com nomes como o de Anna Isabel Helfenstein, que nasceu em primeiro de janeiro de 1806 e faleceu em julho de 1891. Outros nomes também são vistos, o de Maria Catherina Zilig (1819-1890) e Pedro Reimberger (1811-1887).

Cruzes de Ipanema fixadas na parede da zona tombada do cemitério – Foto: Bárbara Mendes

Engana-se quem pensa que o contrário da morte é vida. O oposto de morte é o nascimento, a vida é aquilo que acontece entre essas duas coisas. O cemitério da Colônia não é apenas um espaço de morte, mas sim de memória, onde o passado repousa, mas também fala sobre a história de quem já se foi, mantendo vivo o legado, tradições e cultura de imigrantes alemães que ajudaram a construir a identidade de São Paulo, uma cidade fundada por migrantes de outros estados e povos de todo o mundo, fazendo jus a sua fama de metrópole mais cosmopolita e diversa do Brasil.

 

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