Por Samuel Rodrigues Otani e Vitor Kenzo Ribeiro Nishiuchi.
No coração de São Paulo, onde antes ecoavam os apitos dos trens da Sorocabana, hoje ressoam sinfonias. A Sala São Paulo, antiga Estação Júlio Prestes, tornou-se um dos mais importantes centros culturais do Brasil. Mas como esse espaço se transformou ao longo dos anos? Funcionários e frequentadores compartilham suas experiências e percepções sobre essa mudança.
História do Espaço
Antes de ser um espaço de eventos, o local já foi uma estação ferroviária muito importante, principalmente, para o transporte de café. Os barões do café e produtores de algodão, querendo transportar seus produtos até o interior do Estado, decidem criar malhas ferroviárias para realizar esse objetivo.

Em 1925, o arquiteto Christiano Stockler das Neves entrega o projeto da Estação Júlio Prestes e suas obras são iniciadas no ano seguinte. A conclusão do prédio só aconteceria 12 anos depois, devido a mudanças políticas, problemas financeiros ocasionados pela crise de 1929 e brigas do arquiteto, que teve seu projeto inicial alterado, com a administração da ferrovia.
Baques como a crise da Bolsa de Nova York, a Revolução Paulista de 32 e a Segunda Guerra Mundial levaram a Sorocabana a crises financeiras complicadas e, somado à baixa do café, investimento do país em rodovias e menos produtos e pessoas circulando por ferrovias, teve que encerrar suas atividades.
Em 1997, o arquiteto Nelson Dupré foi convidado pela Secretaria de Estado da Cultura a participar da concorrência para a restauração do edifício. O objetivo do projeto era a adequação do espaço para uso da Osesp, com a implantação de uma sala de concertos onde antes ficava o jardim de inverno do imóvel.
“A Osesp surgiu em 1954 e ela, até os anos noventa, nunca teve uma sala de ensaio só dela, então eles tinham o projeto de criar essa sala para a orquestra. Naquela época os músicos sofriam muito por não ter um local próprio, então faziam ensaios em outros lugares e eles precisavam deixar a Osesp como uma orquestra que representasse São Paulo no Brasil.” Explica a professora de história e guia da Sala São Paulo, Luiza de Andrade Nicole Fernandes, 25 anos.
A Sala São Paulo nos dias de hoje.

Maria Jocelma Andre Ribeiro, 55 anos, recepcionista, é uma das funcionárias mais antigas do local e conta como era o começo e o que mudou. “No início, o público ia esporadicamente e só convidados que frequentavam. Depois eles abriram uma ação para ter assinantes, o que contribuiu muito para ter um público cativo”.
Ao longo dos anos o perfil da Sala São Paulo vem passando por transformações, tanto por parte do público quanto por parte da instituição. Um espaço que já foi considerado elitista, hoje busca ficar mais acessível a todos os públicos e estilos. Claudemir Luís Fernando Leite, 68 anos, aposentado e frequentador do espaço, “No passado, o código de vestimenta era rígido. Hoje, o espaço é mais inclusivo e permite que o público vá da forma que se sentir mais confortável.” Quando questionada sobre as mudanças que ocorreram ao decorrer do tempo, Maria conta como o espaço ficou mais liberal e também destaca a questão das vestimentas . “Na Sala São Paulo só houve mudanças. Eu sou de uma geração que na sala de São Paulo não se podia entrar de bermuda nem se podia assistir um concerto de chinelo e, com essa coisa da inclusão, hoje a gente não pode mais barrar o público. As pessoas podem usar chinelo, bermuda, regata. Hoje não tem mais essa exclusão.”
Outros fatores que indicam a mudança da imagem elitista por parte do estabelecimento são os Matinais. “Tem concerto gratuito na sala de São Paulo para público de baixa renda e para o povo que não pode ir à noite. Qualquer pessoa tem acesso, basta somente entrar no site da sala de São Paulo, retirar o ingresso e comparecer.” Explica a recepcionista.
A instituição também conta com programas educacionais que enfatizam sua participação na educação cultural. Os cursos são variados, desde aulas de couro para jovens até um programa de ensino musical voltado a professores e estudantes da Rede de Ensino do Estado de São Paulo.
Atualmente, mais do que um espaço para eventos, a Sala São Paulo é um símbolo de transformação da cidade. O que antes era um ponto importante para os barões do café e que visava beneficiar a elite, hoje é um exemplo de inclusão e formação cultural, pronta para atender qualquer classe social, raça e sexo de forma igualitária. É um lugar histórico, preservando vestígios importantes do passado mas que não deixa de pensar no futuro.
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