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Como a Avenida Paulista se tornou um polo acessível de arte e lazer​

 

Vista da Av. Paulista no mirante do Instituto Moreira Salles

Avenida Paulista: um corredor cultural acessível

Muito além dos arranha-céus e do frenesi financeiro, a Avenida Paulista se consolidou como um dos principais polos culturais de São Paulo. Com museus gratuitos, cinemas independentes e exposições acessíveis, o local atrai tanto moradores quanto turistas em busca de arte e lazer sem pesar no bolso. Com um olhar mais atento e um pouco de disponibilidade, é possível perceber como São Paulo transborda o que é rico, único e desconhecido, oferecendo opções que têm preços e programações variadas, agradando diferentes públicos.

Entre o Paraíso e a Consolação, não faltam opções culturais acessíveis — algumas, inclusive, gratuitas. Ao longo da Avenida Paulista, é possível encontrar museus, exposições, lojas dos mais variados segmentos; isso sem contar com o entretenimento que está nas ruas, onde músicos e outros artistas apresentam suas obras para quem quiser parar e apreciar. Com uma extensão de 2,7 quilômetros, é o maior corredor cultural da cidade.

Sob esse título, a Avenida é um dos principais pontos turísticos da capital. Desde 2018, para promover seus principais espaços culturais, a plataforma Paulista Cultural divulga informações sobre atrações, exposições e horários de funcionamento. No site, ainda é possível conseguir ingressos antecipados ou agendar as visitas. Passeando pela avenida, não é difícil se deparar com diferentes realidades e interesses.

 

Itaú Cultural: arte e história ao alcance de todos

Luciene Silva na exposição Ocupação Leda Maria Martins

A jornalista Sofia Augusto é mexicana e veio para São Paulo a trabalho, mas não deixou de conhecer o Itaú Cultural. Visitou a exposição atual do programa Ocupação, uma homenagem à poeta, dramaturga e professora Leda Maria Martins, que está disponível até 30 de março. Apesar de não falar português com perfeição, Sofia conta que adora visitar exposições gratuitas, e que esse fator influencia muito na decisão de comparecer a esses locais. “Ser de baixo custo ou gratuito faz com que eu possa vir a qualquer dia sem problema a essas exposições”.

A mexicana explica que essas iniciativas permitem conhecer diversos aspectos da cultura brasileira, o que a motiva a frequentar esses espaços. “Isso é o máximo. Também no Ibirapuera e em outros espaços, não somente aqui na Paulista, eu consigo descobrir outras coisas da cultura do país”.

O Instituto Itaú Cultural, localizado no Bela Vista, foi fundado em 1987 pelo ex-prefeito da capital paulista Olavo Setúbal e tem por objetivo o mapeamento de manifestações artísticas e o incentivo a pesquisa e a produção artísticas e teóricas relacionadas aos mais diversos segmentos culturais. O espaço conta com quatro andares e três exposições permanentes — Espaço Olavo Setúbal, uma homenagem ao fundador e ex-presidente do Itaú Cultural; Coleção brasiliana Itaú, em que conta a história do Brasil apresentando diversas obras da época como pinturas, gravuras, esculturas, livros etc; Espaço Herculano Pires, que, através de cédulas e moedas preservadas, mostra a história do Brasil desde o início de sua colonização até a atualidade — além de ter um auditório, onde acontecem peças de teatro, shows e debates, e uma cafeteria.

Luciene Silva visitou o Itaú Cultural para apresentá-lo à sobrinha, que veio do Pará visitá-la. Curiosa e com gosto pela leitura, ela conta que tem bastante interesse por programações mais culturais. Considera iniciativas como a do Instituto importantíssimas, principalmente por aumentar o alcance e permitir que mais pessoas tenham acesso à educação. “Quando o lugar é pago muitas vezes você não tem condição de entrar, então o acesso livre produz mais conhecimento”.

Cinema acessível e desigualdade no acesso à cultura

Para os amantes da sétima arte, na cidade também é possível encontrar opções acessíveis em cinemas independentes. Um deles é o Reserva Cultural, espaço que além do cinema também apresenta uma livraria e proporciona opções gastronômicas. Lá os ingressos ficam entre R$17 e R$34 durante a semana, e entre R$22 e R$44 aos finais de semana. A experiência de ir em cinemas como o Reserva é bem diferente de visitar cinemas de grandes redes, normalmente localizados em shoppings. A diversidade de filmes em cartaz costuma ser maior, por exibirem também produções menores e independentes, mas de altíssima qualidade, possibilitando que o público conheça novas histórias.

Maria Miranda, 69, e sua amiga Lúcia, 61, são frequentadoras do cinema do Reserva e contam que adoram visitar diversas programações culturais pela região da Paulista e no centro da cidade de São Paulo como o parque Ibirapuera, a Casa das Rosas, museu também localizado na Avenida Paulista, e a Sala São Paulo, onde ocorrem diversas apresentações sinfônicas.

Maria Miranda, 69, e sua amiga Lúcia Mandel, 61, no Reserva Cultural

Embora costumem realizar esse tipo de programação com frequência, ressaltam que a vantagem de ter a meia entrada, benefício disponível para estudantes, idosos e jovens de baixa renda, facilita o acesso a locais com programações culturais que requerem a compra de ingressos. “A gente se vale muito da meia entrada, por conta da idade, e frequentamos mais esse tipo de local porque temos uma entrada facilitada. Eu tenho a credencial plena do Sesc, então tem lugares que eu não iria por um preço normal, mas que com a credencial eu pago um terço do valor”, conta Lúcia, atualmente aposentada. “Não é uma questão de facilidade, mas esse tipo de iniciativa estimula o acesso, principalmente agora que vivo da aposentadoria, quando o nível salarial diminui muito. Além da facilidade com a questão do transporte, já que não pago mais a passagem”, conta a educadora.

Lucia complementa ressaltando a desigualdade presente na nossa sociedade, defendendo que a diminuição do preço é benéfico tanto para idosos, que encontram mais estímulo para sair de casa, quanto para quem não tem acesso. “Vivemos num país de grandes desigualdades. Lembro de quando havia concertos no Ibirapuera e na Praça da Sé, tinha gente que nunca ia para lugar nenhum. O mesmo acontece com os CEUs (Centro Educacional Unificado), na periferia, eles levam cultura para pessoas que nem saem do bairro”.

“A gente tá numa região nobre, o acesso à transporte coletivo que tem aqui não chega na periferia, então como que leva essas atividades para a periferia fora o CEU e o Sesc?” concorda Maria. “Faltam políticas públicas”.

Segundo o Mapa da Desigualdade de 2024, publicado pela Nossa São Paulo, a República é o distrito com maior proporção de equipamentos públicos de cultura, apresentando 25%. Em contrapartida, 24 distritos não têm nenhum equipamento público de cultura municipal. Entre eles, estão: Jardim Paulista, Marsilac, Vila Sônia e Jaguaré.

Evidenciado pelo relatório, é possível perceber a discrepância ao acesso da cultura gratuita ou de baixo custo, como no caso da Penha, que não tem nenhum museu, e uma proporção de 0,08 centros culturais por 10 mil habitantes.

Exposição de Thomaz Farkas, todomundo, no Instituto Moreira Salles

Instituto Moreira Salles e Japan House conectam novas culturas

Sofia Milman, 21, estudante de Artes Visuais, mora no Rio de Janeiro e costuma frequentar o Instituto Moreira Salles durante suas visitas a São Paulo. Sofia acredita que as exposições gratuitas estimulam as próprias visitas e a democratização da cultura do público geral.

A exposição em cartaz, Zanele Muholi, a atraiu por trazer a perspectiva da comunidade negra LGBTQIA+ pelo mundo — na sua opinião, dois assuntos importantes de conhecer. “Eu sempre conheço muitos artistas quando visito o Moreira Salles. É sempre uma experiência legal de vir”.

O Instituto Moreira Salles foi inaugurado em 2017 e tem nove andares, com uma área de mais de 1200 metros quadrados para exposições. Abriga galerias, cineteatro, salas de aulas, café e restaurante, livraria e biblioteca. Como um atrativo, o IMS Paulista também tem um mirante, não muito alto, mas que possibilita um belo ângulo da Avenida Paulista.

Além disso, ela costuma frequentar o Centro Cultural São Paulo, mais conhecido como CCSP, localizado na Rua Vergueiro.

Giovani Medeiros, líder do Atendimento ao Público do IMS, explica que o público é diversificado, principalmente depois da exposição Carolina Maria de Jesus. Recebem alunos de escola pública e pessoas da periferia que moram em regiões mais afastadas, não somente pessoas ligadas ao centro cultural da cidade. “Exposições como a de Zanele e do Thomaz Farkas acabam atraindo esse público curioso, dos passeios na Paulista de final de semana”.

 

“A gente tem eventos muito diferentes. Alguns acontecem na sala de cinema: as conversas, algumas apresentações musicais e sessões de cinema gratuitas. Tem eventos que acontecem no térreo, que são geralmente shows e performances ou instalações”. Ele conta que o Instituto abriga eventos que exploram o espaço. “Alguns eventos acontecem na praça e nas galerias, como visitas guiadas, eventos com música que envolvem essa caminhada e exploração do do que é o Instituto Moreira Salles e da própria arquitetura do prédio”.

Japan House tem uma fachada atrativa: feita com hinoki, cipreste japonês de mais de 70 anos, com painéis cobertos de papel japonês artesanal. Inaugurou em 2017 e conta com a exposição atual “Princípios japoneses”. O casal Camila Castro, 27, psicóloga, Lucas Boreon, 27, engenheiro mecânico, visitam o local pela primeira vez. Lucas diz que um atrativo são as diferenças culturais, para fotografarem e conhecerem outras culturas.

Sobre a gratuidade dos espaços culturais da Paulista, Camila afirma que é um fator decisivo. “A gente é de fora e tem o gasto com transporte, alimentação, e acaba ficando um pouco caro, porque aqui as coisas são um pouquinho mais caras. Então, quando a gente sabe de lugares que são gratuitos, ou tem dias gratuitos também, a gente acaba preferindo. E aí a gente até consegue em alguns que são pagos, mas a gente dá mais preferência para os que são gratuitos mesmo”. Ou seja, é um atrativo que movimenta a cultura dentro da cidade, mesmo com as desigualdades e dificuldades de quem mora em São Paulo.

O casal, de Ituverava, colocou na lista para conhecer MASP, FIESP e Itaú Cultural e visitaram o Parque Ibirapuera. Lá, conheceram o Pavilhão Japonês. Sobre a visita, Camila contou que achou interessante saber a história de como foi construído e que foram pela arquitetura diferenciada. Lucas afirmou que “a própria arquitetura do local é muito impressionante”, e Camila acrescentou que é diferente do que conhecem em Ituverava.

“Hoje eu já vi algumas coisas diferentes”, Camila afirma sobre a exposição da Japan House. “Os materiais para fazerem e a técnica de fazer peças de roupa”. Sobre outras visitas na Paulista, adiciona: “A gente foi ali no Sesc e tem a exposição Espelho do Poder. É uma brasileira que fez junto com um irlândes, e aí são várias curtas metragens para representar a cultura de cada país pensando sobre essa ótica de poder, de acordo com a política. Porque tem coisas aqui do Brasil, tem coisa da Irlanda e de outros lugares”.

Apesar de existir maior concentração de espaços culturais no centro expandido da cidade e não na periferia, a locomoção ainda é acessível se comparada a outros bairros. Vale a pena visitar para explorar toda a riqueza cultural que a Avenida Paulista oferece.

  • Japan House – Av. Paulista, 52 – Bela Vista

Terça à sexta – 10h às 18h

Sexta a domingo – 10h às 19h

Entrada gratuita

  • Instituto Moreira Salles – Av. Paulista, 2424 – Bela Vista

Terça à domingo – das 10h às 20h

Entrada gratuita

  • Itaú cultural – Av. Paulista, 149 – Bela Vista

Terça à sábado – 11h às 20h

Domingo – 11h às 19h

Entrada gratuita

  • Reserva Cultural – Av. Paulista, 900 – Bela Vista

Consultar sessões no site: www.reservacultural.com.br

 

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