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A vida que (não) acontece entre os trânsitos e as baldeações da Grande São Paulo

Como o transporte público dita a rotina dos moradores de regiões e cidades afastadas dos centros comerciais de São Paulo

Moradores da Grande São Paulo, em cidades como São Bernardo do Campo e Franco da Rocha, ou de bairros como Jabaquara, na zona sul da cidade de São Paulo, e Arthur Alvim, na zona leste, são impactados diariamente pela necessidade de locomoção até seus locais de trabalho ou estudo, atravessando quilômetros para chegar em polos comerciais como a Faria Lima e Avenida Paulista e entregando horas do seu dia dentro de carros, ônibus ou metrôs. O Dia do Trabalhador, comemorado em 1º de maio, aparece anualmente para repensar sobre as experiências diárias dos trabalhadores, levando em consideração temas como saúde mental, e refletir especialmente sobre a qualidade de vida de quem reside em cidades vizinhas ou bairros distantes do centro de São Paulo.

Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicada em 2023, relata que 36% dos trabalhadores gastam mais de 1 hora no trânsito. Dos entrevistados, 51% relatam que a produtividade é impactada negativamente por conta do tempo de deslocamento. A pesquisa Viver em SP 2024: Mobilidade Urbana, lançada em 2024 pela Rede Nossa São Paulo em parceria com a Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), revelou que o tempo médio de deslocamento dos moradores de São Paulo para todas as atividades diárias é de 2h25. Para quem utiliza transporte público, esse tempo aumenta para 2h47.

Clarice Gomes, 40, reside em Santo André, no ABC Paulista, e trabalha em um dos principais centros financeiros e empresariais do Brasil: a Avenida Faria Lima. A analista de Recursos Humanos conta que leva em torno de 1h30 para chegar ao local de trabalho e 2 horas para a volta, utilizando trem e metrô como meio de transporte, isso quando não há nenhum tipo de imprevisto, como chuvas ou problemas técnicos nas linhas. “O tempo ‘perdido’ nos deslocamentos afeta diretamente meu rendimento e disposição. Além do desperdício de tempo, o transporte geralmente está lotado, o que também afeta meu psicológico. Chego ao trabalho cansada, as vezes esgotada.”, conta.

E a rotina que leva em conta o deslocamento não afeta somente o rendimento no trabalho. Em entrevista ao portal Rampas sobre os malefícios do tempo gasto em transporte público para a saúde mental, a psicóloga Alessandra Terra, especialista em psicologia clínica, conta que engarrafamentos causam um alto nível de estresse e ansiedade, pela probabilidade do atraso para compromissos pessoais ou profissionais. “Com isso, podem diminuir a produtividade do trabalhador, pois ele já chega no trabalho estressado e cansado”, conta a especialista. Clarice conta que sente dificuldades em conciliar tarefas pessoais já que, além de passar boa parte do seu dia no trabalho, o transporte também toma muito do seu tempo. “A sensação de incompetência é negligência com as rotinas da casa e filhos me consome, além da negligência com a minha própria saúde. As consultas médicas, dentistas, exames, não são cumpridos, mas o trabalho está sempre em dia. A negligência geralmente acontece com os cuidados com a família e com nós mesmos.”

Maricel é estudante de arquitetura e mora na zona sul da cidade de São Paulo, no bairro do Jabaquara. A jovem de 22 anos conta que usa metrô para os deslocamentos e leva por volta de 1h20 todas as manhãs para chegar ao Morumbi, bairro nobre da zona sul de São Paulo, onde trabalha como estagiária. Logo após o estágio ela leva mais 1 hora para chegar em Higienópolis, onde realiza a graduação, e depois mais 40 minutos para chegar em casa à noite. Somando, Maricel fica 3 horas no metrô todos os dias. “Afeta muito meu rendimento. Eu já chego cansada no estágio”, conta a estudante. “Gostaria de ir para a academia no meu tempo livre, mas para isso eu teria que acordar mais cedo, então não sei se valeria à pena.”

A vontade de ter mais tempo livre para fazer atividades prazerosas em uma parte do dia ou da semana não é um desejo incomum de quem passa o dia fora de casa e acumula horas, quase sempre ociosas, no transporte público. Clarice conta que opta por ler livros durante o caminho para o trabalho, mas que poderia aproveitar muito mais seu tempo livre com a família se não passasse tanto tempo para ir e voltar para casa. “Gostaria de praticar exercícios em um horário digno, para isso preciso acordar às 04h30. Também gostaria de ajudar meus filhos com as atividades escolares, buscá-los na escola e até em dias quentes ter mais energia e ânimo para levá-los ao parque. Também sinto falta de ter uma vida social durante a semana.”, relata.

 

 

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Gisele Oliveira