Vicky Ibañez, comerciante na Avenida Paulista.
Aos domingos, a Avenida Paulista acorda diferente. O uso dos carros cede espaço para o uso de bicicletas e patinetes, ao som de risadas, violões e conversas. O asfalto, que durante a semana pertence aos carros, se transforma em um mundo de histórias, de gente simples, criativa e trabalhadora que faz a avenida pulsar.
Logo cedo, ainda com o sol tímido, as barracas de roupas, acessórios e artesanatos começam a surgir. De um lado, o cheiro de pastel e caldo de cana anuncia que o café da manhã está começando. O vai e vem de pessoas dita o ritmo
do dia: famílias inteiras, turistas curiosos, artistas e trabalhadores que transformam a avenida em uma feira viva de cores e sons.
Entre as centenas de vendedores, está Vicky Ibañez, 45 anos. O sorriso cansado, mas firme, denuncia a rotina de quem vive da própria arte.
“Vendo nesse ponto da Avenida há 4 anos, mas faço artesanato e vendo na rua há 30 anos. Isso sempre fiz”, conta ela, ajeitando as pulseiras que brilham sob o sol.
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As famílias caminham entre as barracas. Crianças andam de bicicleta, casais dividem água de coco, e turistas registram os momentos. A avenida, que já foi símbolo da elite financeira paulistana, vira palco de encontros populares.
A comerciante Vicky conta que o ponto onde trabalha não foi escolhido por seu desejo e sim sua necessidade.
“Nesse lugar em específico, era um lugar que estava disponível, né? Porque tem essa concorrência, mas depois a gente faz amizade e aí vira uma grande família”, explica.
Criado em 2015, o programa “Paulista Aberta” transformou a via em uma grande área de lazer e convivência. Segundo a Prefeitura de São Paulo, entre 30 e 50 mil pessoas passam pela avenida a cada domingo, número suficiente para lotar estádios de futebol.
Pesquisas apontam que metade dos comerciantes da região aprova o fechamento das ruas aos carros, e 46% relatam aumento nas vendas durante o domingo de lazer.
Para muitos trabalhadores, é o único dia em que o dinheiro entra e seu trabalho é reconhecido.
Histórias que sustentam a cidade
Quem também vive essa rotina é Devarley dos Santos, 62 anos. Ele carrega o olhar de quem já viu a cidade mudar, mas continua firme na calçada.
“Tô aqui na Paulista vendendo tem uns 6 anos, por aí. Já trabalhei integralmente, de segunda a segunda, mas hoje, trabalho apenas aos sábados e domingos”, diz, enquanto organiza as últimas peças do dia.
A cada domingo, milhares de pessoas passam por ele, algumas compram, outras só olham, mas todas, de alguma forma, fazem parte dessa rede invisível que mantém a Paulista viva. O trabalho de cada vendedor é o motor silencioso que movimenta a economia informal e sustenta famílias inteiras.

Quando o sol começa a se pôr, o ritmo desacelera. As barracas são desmontadas, os músicos guardam seus instrumentos, os vendedores recolhem o que restou do dia, e assim, a avenida, aos poucos, volta a ser a mesma de sempre, barulhenta e apressada.
E é assim que, entre barracas, risadas e canções, a Paulista acontece, não só pelos prédios, mas pelas pessoas que a ocupam, reinventam e fazem dela o retrato mais humano de São Paulo.





