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As dificuldades do futebol feminino começam cedo

As meninas que sonham em jogar futebol no Brasil começam a enfrentar dificuldades logo nos primeiros passos dentro do esporte. Enquanto os meninos contam com categorias de base estruturadas, calendário fixo e treinos regulares, muitas equipes femininas ainda lidam com falta de campeonatos, distância da família e a necessidade de se adaptar rapidamente à rotina de uma atleta.

Em muitos clubes pelo país, a realidade da base ainda é marcada por limitações: períodos longos sem competição, torneios concentrados em poucos meses e categorias que só funcionam de forma esporádica, como Sub-12, Sub-13 e Sub-14.

Infográfico das atletas de futebol feminino no Brasil.

Mas há exceções, e uma delas é o Corinthians, que se tornou referência não só no profissional, mas também na formação de jogadores.

“A base ainda tem um viés de custo, mas o cenário está mudando”, diz Tati, preparadora física do Sub-15 do Corinthians

Tatiana Daniballe, 48 anos, preparadora física do Sub-15, explica que o clube evoluiu muito, embora enfrente desafios presentes em quase todas as categorias de base femininas.

“A categoria de base ainda tem um viés… As pessoas pensam mais em custo do que em investimento. Mas aos pouquinhos esse panorama está mudando”, disse Tati.

Ela destaca que as atletas encontram no Parque São Jorge uma estrutura rara no país:

“A gente treina num gramado sintético. As meninas têm DM, nutricionista, psicólogo, bolsa escolar integral, transporte, alimentação, uniforme. Elas têm um projeto para se espelhar. Saber que existe um profissional forte faz com que acreditem no nosso sonho e se dediquem.”

Mesmo com bons recursos, Tati lembra que nem tudo depende do clube e algumas das maiores dores vêm de fora do campo.

A falta da família

No dia a dia, a ausência da família aparece como o maior desafio. O Sub-15 não pode viver em alojamento. Por isso, meninas de fora de São Paulo só conseguem seguir no futebol se a família topar mudar de cidade. Entretanto, muitas não podem.

Paula Morais, mãe de uma jogadora do Sub-15 conta que, apesar do orgulho, a adaptação da filha ao futebol ainda traz desafios bem reais e humanos.

“A gente vê a vontade dela, o brilho nos olhos, mas também vê como tudo é novidade. Ela sente falta de casa, das amigas, da escola antiga. É tudo muito rápido. Às vezes, ela me liga só para contar que o treino foi pesado ou que ficou insegura em uma atividade nova.”

Segundo ela, a maior dificuldade não é dentro de campo e, sim sentir pronta para tudo tão cedo:

“É um mundo novo, né? Ela tá aprendendo a lidar com pressão, com responsabilidade, com saudade. A gente vai conversando, mostrando que ela não precisa acertar tudo de primeira.”

Calendário curto e concentrado prejudica o desenvolvimento

Outro ponto crítico é o calendário. A maior parte das competições Sub-15 acontece no primeiro semestre.

“A gente jogou quase tudo até agosto: Liga de Desenvolvimento, Copa Nike e Paulista. Se uma menina se machuca em março, perde quase todo o calendário”, explica Tati.

Infográfico de categorias e calendário do futebol feminino.

As categorias Sub-12, Sub-13 e Sub-14 seguem um modelo de torneios pontuais, geralmente festivais de fim de semana o que limita o tempo de jogo e a evolução técnica.

Kalena Attis, 16 anos, falou sobre o calendário do futebol feminino.

“Me sinto privilegiada por conseguir participar da maioria das competições, como o Paulista e o Brasileiro, a Copinha ainda não, pois somente o time sub-20 joga. Jogo também alguns campeonatos pela seleção brasileira.”

Mais do que futebol: é sobre manter um sonho vivo

As dificuldades mostram que a desvalorização da base feminina não está apenas na falta de estrutura. Ela passa pela vida emocional das atletas, pelas famílias que se dividem, pela rotina que exige maturidade antes do tempo e por um sistema que ainda oferece pouco para quem quer tanto.

Mesmo assim, as meninas seguem insistindo, treinando, acreditando.

E profissionais como Tati, junto de mães que apostam na coragem das filhas, ajudam a manter vivo o sonho que o futebol feminino ainda está aprendendo a proteger.

 

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