
Desde de crianças a sociedade determina com o que meninas devem brincar, como devem se vestir e se comportar. Seus desejos são privados e tudo que fuja desse padrão é julgado e repreendido. Jogar futebol, por exemplo, sempre foi fora de cogitação para muitas mulheres, seja pelo julgamento ou falta de oportunidade, e é a partir desse contexto que surge um lugar onde elas podem jogar sem medo.
O Nossa Arena, localizado na região da Barra Funda, Rua Nicolas Boer, 200, surgiu do desejo de criar um espaço seguro e acolhedor para quem sempre amou o futebol, mas nem sempre se sentiu bem-vinda. “A vontade era ter um lugar em que as mulheres pudessem jogar sem medo, um espaço que fosse delas”, conta Fernanda Luiz, 41 anos, uma das sócias-fundadoras do complexo.
O projeto começou com o futebol feminino, ainda subrepresentado no país, e hoje se transformou em um centro multiesportivo que recebe eventos culturais, feiras e rodas de conversa. “A gente quebra o padrão de que esporte é só pra meninos. Muitas meninas querem praticar, mas falta incentivo, e é isso que tentamos mudar”, completa Fernanda.
O complexo é composto por quatro quadras de areia, três quadras de Society para locação, além de oferecer treinos de beach tennis, vôlei de praia, futevôlei e futebol, e possui uma área de lazer com sinuca, bar, churrasqueira e TV para assistir os grandes jogos.
Segundo o IBGE, apenas 17% das mulheres brasileiras com 15 anos ou mais praticam esportes regularmente, enquanto entre os homens o índice é de 30,7%. Muitas desistem ainda na adolescência, por falta de incentivo, segurança ou estrutura adequada. É nesse cenário que a Nossa Arena se destaca, abrindo espaço não só para o corpo, mas também para a expressão e a liberdade.
Entre as pessoas que dão vida ao local está Dayana Dias, 39, treinadora da arena. Para ela, trabalhar ali é motivo de orgulho. “Sinto-me lisonjeada em estar em um lugar como esse, que acolhe as meninas. É um sentimento diferente dar aula para elas, se sentem à vontade, fazem o que gostam, sem julgamentos nem preconceitos”, afirma. “Agora estamos chegando onde sempre quisemos, buscando o nosso espaço”, diz Dayana.
Mas a transformação não acontece apenas em quem ensina. Para Carol, 31 anos, jogadora da Nossa Arena desde 2021, o local representa segurança e liberdade. “Me sinto muito mais segura aqui, é uma energia diferente. Em outras quadras, a maioria é de homens, até os olhares são diferentes”, conta. Ela lembra que já precisou se trocar dentro do carro para poder jogar, por falta de vestiário feminino. “Aqui tudo é pensado pra gente. O esporte faz bem pra mente e pro corpo, e a arena acaba sendo um pretexto pra se encontrar e viver experiências como esse evento de hoje”, afirma.
Enquanto a bola rolava nas quadras, o som do forró tomava conta do espaço. Nas barracas ao redor, empreendedoras vendiam roupas, acessórios e produtos artesanais, enquanto uma taróloga conversava com o público sobre o futuro. O evento, voltado para celebrar o protagonismo feminino, reuniu esporte, arte e empreendedorismo em um mesmo espaço, mostrando que o Nossa Arena vai muito além das quadras, é também um ponto de encontro e fortalecimento entre mulheres.
Proibido por lei até a década de 1980, o futebol feminino ganhou novas jogadoras, técnicos e torcedoras. Nossa Arena representa o avanço de mulheres que hoje ocupam os campos, as quadras e os espaços que antes lhes foram negados.
Confira abaixo o material em vídeo:
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