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Parte do Centro: Subcomunidades culturais

Por Gabriela Silva e Julia Figueiredo 

 

O centro de São Paulo é tecido pelas diferentes e mais diversas vozes. São as histórias das pessoas que moram, passeiam e circulam pela região que fazem dele um centro não somente histórico, mas um centro cultural. E é na singularidade de cada um que se encontram os grupos aos quais pertencem. Essas turmas são formadas pelas particularidades em comum de seus membros, e quando cultivadas, tornam-se verdadeiras comunidades, movimentando a região conforme suas personalidades e costumes. 

Entretanto, gostos compartilhados não bastam. As comunidades são intrínsecas ao local onde se estabelecem. Para o antropólogo José Guilherme Magnani, especialista em antropologia urbana, “um espaço pode não ser perfeitamente adequado desde o começo, mas ele se torna adequado quando as pessoas se apropriam dele”. Além disso, “a vasta presença das comunidades em São Paulo está dada pela sua evolução histórica, pelos elementos arquitetônicos e sociais que ela oferece”, explica Magnani. 

A diversidade das construções da cidade é favorável para grupos que se encontram presencialmente e precisam de um local para exercerem sua sociabilidade. Dessa forma, conheça quatro subcomunidades que se apropriam de espaços centrais de São Paulo e moldam-os com sua presença, transformando ou conservando tradições já estabelecidas.

 

O mágico basquete das minas no centro 

 

“Dum-dum-dum!” Uma segunda-feira fria com garoa perto das 22h, a bola atravessa a quadra enquanto um grupo de mulheres com coletes amarelos e vermelhos corre em direção à tabela, na ponta esquerda. “Pá!” A bola bate na tabela e cai direto na cesta, garantindo o ponto para o time amarelo. Um coro de comemoração feminina ecoa pelo espaço.

A praça Rotary, na Vila Buarque, se abre logo no cruzamento da Rua Major Sertório com a Dr. Vila Nova. À direita, aparece um parquinho de madeira e metal, com escorregador, balanços e labirintos. À esquerda, uma área circular de areia. Seguindo pelo caminho de pedras, lá adiante, a quadra surge ampla à esquerda, enquanto a marquise à direita conduz até a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato.

Iluminada pelos holofotes, a quadra ainda preserva as cores das Magic Minas: o roxo e o amarelo pintados nas bordas, logo abaixo do gradil verde, fruto da ação feita pela Nike em parceria com a comunidade em 2017. De longe, o colorido chama atenção e dá personalidade ao espaço. De perto, porém, revela marcas do tempo. 

Magic Minas? É uma comunidade de mulheres, de todas as idades, cores, profissões que se reúnem em quadras esportivas para jogarem basquete. Um time diversificado de mágicas jogadoras com histórias únicas, com somente uma questão de semelhança entre si: o amor pelo basquete e pela coletividade feminina do grupo.  

Jogo semanal do coletivo Magic Minas, às segundas-feiras, na praça Rotary. Foto: Julia Figueiredo

Ivana Roque, 37 anos, uma mulher negra que impõe autoridade e respeito ao mesmo tempo que mostra doçura em sua fala, é uma das professoras do grupo e sorri radiante satisfeita com a partida. “É um amor que eu cultivo a cada dia, dando treino, ensinando as meninas a jogar, a se apaixonar pelo basquete como um dia eu me apaixonei”, comenta.

Esse amor vem de longe. Ela tinha apenas quatro anos quando viu Hortência e Magic Paula na televisão e decidiu que queria aquilo para si. No Natal, pediu à mãe uma bola e uma tabela. Mas sua trajetória nas quadras só começaria aos dez, quando entrou para os treinos do Centro Olímpico. Aos dezessete, fez uma pausa para cursar Educação Física. Hoje, de volta às quadras, sente que reencontrou não só o esporte, mas uma parte de si mesma, algo que revive a cada treino.

Ivana conheceu o grupo Magic Minas por volta de 2017, quando viu nas redes sociais que existia um grupo de meninas que queriam jogar basquete, mas não podiam, porque elas tinham dificuldade em ocupar as quadras quando os meninos não deixavam. Começou a frequentar alguns treinos e quando teve a oportunidade, se tornou uma das professoras do grupo.

Hoje, há 7 anos sendo uma Magic, a professora afirma a importância desse coletivo: 

“Eu acho que é fortalecer o papel da mulher no esporte e mostrar que ela tem direito de jogar em qualquer espaço. Que não é só para os homens, que não é só os homens que podem ocupar as quadras. E que independente dela nunca ter jogado, dela já ter jogado em algum momento da vida delas, delas ouvirem falar de basquete, aqui é um lugar que elas têm, um lugar seguro, porque vão ter outras mulheres para elas conseguirem ocupar e sentir prazer na atividade do basquete.”

Ivana apita, e as meninas trocam o lado da quadra. Anelise, uma das mais altas do time vermelho, é a escolhida para saltar no início da partida. Uma sorridente mulher, de longos cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto e de uma presença notável à sua simpatia, Anelise Nobre, 37 anos, de Teresina para cá, começou a frequentar o grupo recentemente, em 2023, quando se mudou para a região central da cidade e a Praça Rotary se tornou mais acessível. Não se sabe quando o seu amor por esportes começou, mas especificamente o basquete foi há três anos quando decidiu experimentar pela primeira vez e desde então não parou por ter se apaixonado perdidamente.  

Mas, para além das jogadas e treinos, há algo que sustenta o grupo de um jeito mais profundo. Como conta a jogadora Anelise, o Magic Minas tem um valor que se revela no acolhimento entre as mulheres que ali se encontram. São jogadoras de todas as idades,  dos 19 aos 57 anos, com profissões que vão de um extremo ao outro, sotaques de diferentes nacionalidades e trajetos vindos dos mais diversos cantos da cidade.

E talvez seja justamente por isso que a Praça Rotary, plantada no coração de São Paulo, se torne tão significativa: sua localização central funciona como um ponto de convergência, um lugar onde tantas vidas distintas conseguem se cruzar e se reconhecer.

Foto: Julia Figueiredo

Outra integrante do Magic que se identifica com a Anelise é a Katia Damasceno, sua colega de equipe nesta partida. Uma mulher de 57 anos que não deve ser subestimada em quadra. Pequena, com pele e cabelos morenos, que refletem dourado sob a luz, é a atração quando chega atrasada, sempre com brincadeirinhas e interações com as meninas. Sua história com o Magic Minas teve início também em 2017, quando seus filhos estavam saindo de casa e ela estava começando a se sentir sozinha. Em quadra com as meninas, a solidão vai embora, porque do mesmo jeito que hoje em dia ela acolhe outras meninas, é assim que ela foi recebida pela Comunidade.

“Então, elas são mega, hiper mais jovens do que eu, né? Então eu considero todas minhas filhas. É muito interessante, que a gente não se fala. A gente só chega e joga.

Então quando tem menos pessoas e a gente fica batendo uma ‘bolinha’, aí a gente vai saber o que a outra faz, de onde ela veio. E aí, a partir daí, a gente vai desenvolver uma segunda amizade”, disse Katia. 

Em um movimento rápido, Katia passa a bola para sua colega de time, mas Cristiana Tada intercepta a jogada e, com total segurança em seus movimentos, avança em direção à tabela para marcar mais um ponto para o seu time.

Uma mulher de presença marcante, com 42 anos, Cristiana apresenta cabelos grisalhos que moldam o rosto com naturalidade, corpo forte e definido pelo esporte, e traços delicados que indicam uma ascendência asiática, revela que o basquete tem diversos significados na sua vida. Ela conta que começou a jogar entre seus 15 e 16 anos, durante o ensino médio, mas que quando entrou na faculdade, ela cortou o contato com o basquete e manteve apenas as boas memórias de seus jogos. 

E em 2019 ela conheceu o coletivo, porque estava à procura de uma atividade física e quis retornar ao basquete, então foi às redes sociais à procura de um coletivo feminino, quando encontrou o Magic Minas. Ela se relembra nostálgica de ter conhecido o grupo na Aclimação, e como foi bem recebida pelas meninas, motivo esse que a fez continuar até os dias atuais. 

Mas há dois anos atrás, Cristiana teve uma hérnia cervical que a deixou nove meses parada sem praticar atividades físicas e abalou o seu emocional. Ela relata que depois dessa experiência ela tem cuidado mais de sua saúde física praticando outros esportes e que, depois de tudo isso, o basquete ganhou um significado ainda maior para sua vida.

A emblemática cesta marcada pela Cristiana finaliza a partida garantindo a vitória para a equipe amarela, e apesar da vitória do time amarelo, as meninas reconhecem que a verdadeira vitória desta partida foi aproveitar a companhia uma da outra enquanto se divertiam juntas.

 

A Liberdade para os Cosplayers 

 

A Rua Galvão Bueno, acima do viaduto, abriga uma pequena feira de brinquedos, bijuterias, itens geeks e alimentos, estendendo-se sob a ponte. Nos finais de semana torna-se difícil caminhar pela rua, mas de segunda a sexta é acessível.

Essa rua é uma das mais emblemáticas da Liberdade, pois além da feira, pela rua se encontram restaurantes e lojas diversas, galerias com os mais diferenciados comércios e os icônicos personagens andando e interagindo com as pessoas. 

Localizada no Bairro da Liberdade, região central da cidade de São Paulo e reconhecida atualmente por abrigar as mais diversas culturas orientais, o local tornou-se um marco simbólico para a comunidade de Cosplayers. 

Cosplayer é a prática e forma de expressão artística de representar um personagem, seja de jogo, de videogame, série, filme, mangá ou livro, o máximo possível. Como Erika Halbe, 22 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo, que mesmo andando bonita e arrumada pela faculdade não é explícito visualmente o seu hobby. Seu início na Comunidade nasceu do simples desejo de se vestir como os personagens de animes que assistia aos 14 anos. 

Hoje, há oito anos sendo Cosplayer, seus principais personagens são a Kai’sa do jogo LoL, o Naruto e a Yor do anime spy x family. Erika admite que a sua maior motivação para continuar na comunidade vem da sua gratificação ao receber elogios das pessoas quando está caracterizada.

Enrico Leonardi também é um Cosplayer. O estudante de engenharia mecatrônica, de 20 anos, trabalha vestido do personagem Kamisato Ayato, personagem do jogo Genshin Impact, interagindo com as pessoas na rua e as convidando para conhecer a sua loja dentro da galeria Shopping Lotte. 

Seu traje é um quimono moderno em branco, azul e roxo-lavanda, com detalhes dourados e padrões de ondas. Ele usa uma capa leve que dá movimento à silhueta, além de luvas e acessórios aristocráticos. O visual se completa com o cabelo azul-claro longo preso para trás.

Ele conta que o seu primeiro contato com a comunidade Cosplayer foi em 2018 no Anime Friends, quando ele viu várias pessoas fantasiadas e pensou “Pô, cara, quero fazer isso também” e, logo começou a ir atrás para produzir o seu primeiro papel, inspirado no personagem Todoroki.

Enrico se recorda do seu segundo contato. “Foi incrível!”. Animado, o jovem conta como se divertiu e tirou um monte de fotos. E foi a partir daí, com 12 anos de idade, que ele começou a fazer parte dessa comunidade.

Durante a conversa no meio da calçada barulhenta e movimentada, o Cosplayer apresentou a sua namorada, Katia Fukasawa, 24, responsável pelas suas produções de cosplay. Com uma tiara criativa na cabeça de um ratinho segurando pequenas mechas de seu cabelo para cima em presilhas, a moça sorria simpática ao se virar para mostrar a sua mochila exclusiva de um fofo bichinho verde, que no centro estavam grudados diversos broches do jogo Genshin Impact, já dando indícios da sua personalidade autêntica. 

Enrico de Martins, cosplayer, e Kathy Fukasawa, cosmaker. Foto: Julia Figueiredo

A galeria Shopping Lotte, onde estavam trabalhando era pequena, em formato de U. Bastava dar uma volta para percorrê-la inteira. Ao andar por ela, é possível observar as lojas de eletrônicos e bonecos ao redor.

Ao fim dela, está a maior loja, que ocupa todo o fim da galeria. Uma loja de fantasias, wigs (perucas) e acessórios de animes, mangás, entre outros itens da cultura asiática. De fundo fundo, tocam músicas de k-pop e pop enquanto clientes de todas as idades visitavam a loja. 

Katia conta nostálgica deu início a sua carreira como Cosmaker (criadora de fantasias de cosplay) produzindo as suas próprias fantasias. Desde os seus 14 anos, ela já procurava se vestir como os personagens do jogos que gostava, só que ela só levou o seu hobby mais a sério a partir dos 18 anos. E há quatro anos, ela produz fantasias e wigs para usar em eventos como BGS, Gamescom, Enemy Friends e, claro, ela também usa o seu namorado, Enrico, como cobaia de seus trabalhos.

Mas apesar de todas as partes divertidas de fazer parte da Comunidade Cosplayer, como o processo desde a ideia do Cosplay, passando pela criação que exige criatividade, até o seu uso e em seguida as interações caracterizado como o personagem que deseja, o casal alerta como essa comunidade pode ser tóxica em alguns momentos dependendo de com quem você se relaciona. Como ela é muito ampla e abrangente, infelizmente há casos de preconceitos e pessoas soberbas e ignorantes que tratam mal os outros sem necessidade.

Mas no geral, tanto a Katia quanto o Enrico contam que suas experiências como Cosplayers ajudou no quesito social. Fizeram amigos enquanto aprendiam a lidar com a timidez e até mesmo começaram o relacionamento por terem se conhecido em um desses eventos. 

Quando estão caracterizados, dizem que deixam de ser pessoas comuns e começam a agir interpretando o personagem. “Aí, quando a gente entra no personagem, a gente zoa, zoa as pessoas em volta, e a gente tem um pouquinho mais de liberdade, né, aquela coisa de máscara social cai, porque a gente não tem mais vergonha quando a gente tá de cosplay. Então, o cosplay também ajuda nisso, a você se soltar, mesmo que você não esteja com o cosplay.“

Mesmo as pessoas que não são Cosplayers sabem que o bairro da Liberdade tem um grande significado para a Comunidade. E isso se deve a diversos fatores, sendo um deles a facilidade para encontrar lojas para produção de fantasias ou para coleções pessoais relacionadas à cultura geek. Mas também, a arquitetura do bairro com suas pontes, luminárias vermelhas, dentre outras decorações, serve como um autêntico e deslumbrante cenário para fotos e filmagens, tanto para turistas quanto especialmente para Cosplayers. E por fim, o bairro oferece regularmente eventos que reunem diversos Cosplayers e dessa forma validam a prática da Comunidade.

Além disso tudo, o principal ponto que atrai a Comunidade Cosplayer para a Liberdade. Simplesmente a Liberdade. Não somente o bairro em si, mas a liberdade que os Cosplayers têm para se expressarem de forma artística livremente na região, sem se sentirem julgados ou intimidados. Pelo contrário, eles se sentem agraciados com a admiração das pessoas sobre a sua fantasia, principalmente das crianças que têm a inocência de acreditarem que de fato é o personagem andando pela rua e correm para os seus braços.

Mas essa comunidade não seria possível a princípio sem as costureiras, que assim como a Katia, trazem vida aos personagens. E um exemplo disso, é a pioneira nisso no Bairro da Liberdade, Dona Nilza Maria. A senhora de 64, tem o seu quiosque de costuras de cosplay desde junho de 2001, na maior galeria da região, Sogo Plaza Shopping. Sua loja tem fantasias espalhadas por todo canto, nos cabides ao chão, sob as paredes, nas mesas com as máquinas de costura e até no balcão. Além das roupas, também há fotos de inspiração de fantasias Cosplays pelas paredes. O que pode parecer uma bagunça para alguns, outros reconhecem como arte, e Dona Nilza vê como o sucesso do seu trabalho. Ela conta que se tornou especialista no assunto por estratégia, visto que nessa época a demanda por costuras de Cosplay crescia cada vez mais e ela precisava manter o seu sustento. O que mais lhe fascina é o desafio constante de sempre ter uma demanda inovadora e diferente, chegando a produzir até 10 fantasias por dia.

Sendo a maior galeria da Liberdade com quatro andares de lojas das mais variadas, indo desde chaveiros, bijuterias, quadros, roupas, bonecos, entre outros, sendo todos relacionados a cultura geek, mas que apesar de ser bem visitada, muitos que a frequentam não sabem que ela tem 27 anos. Sua relevância para a região está no fato de que sua diversidade em lojas é de grande utilidade para a Comunidade tanto para a produção de seus Cosplayers quanto para suas coleções pessoais. Mais do que um centro comercial, ela funciona como um verdadeiro ponto de encontro, onde colecionadores e Cosplayers não apenas fazem compras, mas também trocam informações, dicas de produção e validam suas paixões.

 

Xeque-Mate! Na República

 

Um único prédio na Rua Araújo, número 154, na República, abriga uma academia de esgrima, uma galeria de arte, uma agência de publicidade e uma loja de artefatos maçons. Além do clube de xadrez do século XX, em seu 3° andar. Entrando ali, xadrez, xadrez e mais xadrez é o que importa. Paulo Gaeta, um senhor ex-delegado de aparência jovem, conta que é estritamente para isso que estão ali. Em anos de convivência na comunidade, nunca saiu para tomar um suco com um dos seus colegas nas lojas ao redor do clube.

A conversa aqui é xadrez. Paulo também não sabe muito sobre a vida pessoal de cada um, mas sabe da relação de cada um com o jogo. E isso basta. Diz que os que vão todo sábado são viciados na prática e começa a apontar. O de chapéu, vem todo sábado. Aquele de costas ali, todo sábado. Esses dois irmãos, sábado.

Nas mesas separadas a aproximadamente dois metros de distância cada, partidas distintas acontecem. Em uma mesa, um trio jogando o jogo e jogando conversa fora. Em outra, mais ação: mãos sobre a cabeça e cenho franzido, raciocínios fisicamente explícitos, o adversário movendo as peças mais rápido que seu oponente. Dois observando em silêncio e em precisão.

Jogadores em partida cronometrada, no aquário do Clube. Foto: Julia Figueiredo

Mas a cisão do jogo sério e do passatempo se dá em outro lugar. Um dos cantos do salão é separado por uma janela de vidro de cima a baixo. Ali, as mesas são enfileiradas, as duplas ficam mais próximas umas das outras, o árbitro vai e vem durante o jogo, a porta é fechada e os celulares são desligados. É ali, no chamado aquário, que as coisas acontecem para valer. 

O motivo de ficar mais sério não é porque envolve dinheiro. Envolve compromisso e disciplina. Ali é o lugar onde a aprendida disciplina é exercida mutuamente pelos adversários. As regras não podem ser burladas. Não se pode temperar a partida com o jeitinho brasileiro. Dentro do aquário, é o que é. 

Os jogos podem variar em seu tempo de duração. Três, dez, quinze minutos. O de três é adrenalina pura, dentro e fora do aquário. Os jogadores entram, agilizam seus processos mentais e físicos para moverem as peças e apertarem o relógio que cronometra a partida o mais rápido possível. Os jogadores saem e a tensão fica no tapete do aquário. Quando pisam fora dele, conversam despretensiosamente sobre a partida que acabaram de realizar. 

O que os espera do lado de fora é a televisão com o placar, o chamado rating. É ela que diz quem ganhou, com quantos pontos, e quem joga com quem a partir disso. Na verdade, não é a TV que diz, é o árbitro, o qual coordena, impõe regras, conta pontos e percorre a sala incansavelmente durante os minutos de jogo. O crédito é de Anderson Amaro. 

Anderson presta a atenção em cada um dos 15 jogos simultâneos. Vê as movimentações, anota pontos, apazigua discussões e, de três em três minutos, nesse caso, conta e libera os pontos para quem aguarda do lado de fora. Ao receberem as informações, uma nova leva entra. E assim se sucede por horas.

Se é isso que acontece no aquário, no lado de fora as coisas continuam amistosas. Estrangeiros, imigrantes, aposentados, quem saiu do expediente de trabalho, quem está de folga. Todos jogando para acalento e desafio. Mas se digo todas essas ocupações no masculino, não seria justo não fazer menção à advogada e à jornalista, no feminino, que ali percorrem. 

Em meio aos idosos, adultos e jovens adultos, Manuela Torres se destaca em seu vestido azul, de leveza ímpar à monotonia das paletas de cores cinzentas dos demais. Manuela joga por hobbie. Seu TCC na faculdade foi sobre o jogo e, após anos, retorna ao clube pela segunda vez, não como pesquisadora, mas agora, como enxadrista. 

Luciana Maria dos Santos, por outro lado, está ali sempre. É sócia e faz jus ao título, visto sua presença semanal. E que presença! Ao chegar, cumprimenta todos com sua voz doce e calma, e inicia seus jogos. Sua mansidão não contradiz sua incisividade, porém. Conversa com quem pode durante seus intervalos e volta para o espírito competitivo, para o foco imprescindível, em segundos. É o que seu ofício em advocacia exige de si, e é o que transmite em cada partida. Calma e rigor. 

Ponto para as mulheres! É assim que o dia finaliza. Repetindo uma cena de anos atrás, quando Manuela era estudante, sua última partida é com Luciana. E o jogo acaba da mesma maneira: sem o xeque-mate. O dia termina com ponto para as mulheres. O que já é o bastante.

O tempo passa. Fim das partidas, dos torneios, das conversas e da rapidez exigida. Os enxadristas voltam para suas casas. Calmos por terem passado a noite fazendo o que gostam, e aguçados por todos os sentidos despertados pelo jogo. O xadrez, entretanto, não se limita àquele espaço. Saem de lá com a bagagem da atenção, da calma, da lógica e dos valores incitados naquele 3° andar.

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