Apesar do movimento crescente, a insegurança ainda paira sobre os moradores e comerciantes do local.
Por Samuel Otani e Vitor Nishiuchi

Nos últimos anos, lugares da área central de São Paulo vêm ganhando novos investimentos, como a transição da sede administrativa do estado para o bairro do Campos Elíseos, na tentativa de revitalizar o centro. Segundo o portal Todos Pelo Centro, criado pela prefeitura, a região acumulou, nos últimos quatro anos, um saldo positivo de 64 mil empresas abertas. Ano passado, 25 mil foram abertas, tendo assim um crescimento de 22,3%.
Rafael Silveira, 37 anos, gerente do Mescla, um bar e restaurante localizado em uma parte da Barra Funda mais no centro da cidade. “Meu sócio, seis anos atrás, viu, na Barra Funda, um bairro promissor como se fosse a Vila Madalena nos anos oitenta. Quando chegamos aqui na rua tínhamos a gente e um outro bar de amigos nossos. Hoje em dia tem 12, então, felizmente, ele acertou”.
Outro fator que deve-se levar em conta quando se fala em revitalizar o centro da capital paulista é a segurança. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), o final de 2024 contou com uma diminuição de crimes na região. O site da prefeitura de São Paulo diz que os roubos caíram cerca de 27% enquanto os furtos reduziram aproximadamente 18%. Entretanto, novas estatísticas da SSP-SP apontam que a criminalidade voltou a subir na área nos primeiros meses de 2025. O furto é a ocorrência mais recorrente, neste ano já ocorreram mais de 5 mil casos registrados pelas principais delegacias dos distritos localizados na parte central.
O comércio também contribuiu para a segurança dos bairros. A gerente do bar Chévere, Letícia Monteiro, de 29 anos, conta como isso aconteceu, mas também reforça que existe outro tipo de problema. “O bairro antes era muito mais vazio e os moradores daqui de antigamente falavam que o local era mais perigoso, as ruas eram mais vazias e escuras. Com o comércio isso mudou, mas ao mesmo tempo trouxe outros tipos de assalto, como esses (roubos de dispositivos móveis) porque, como vem muita gente agora na rua por conta dos bares e comércios, atrai essas pessoas que chegam para roubar celular”.
Os criminosos possuem como principal alvo os smartphones e isso tem influência direta com a expansão comercial: “Uma coisa comum que aumentou aqui, devido a quantidade de estabelecimentos, é o furto de celular. Quando chegamos aqui, seis anos atrás, tínhamos somente nós, então não havia tantos furtos desses aparelhos, era outro tipo de problema (…) hoje, se aparece um ciclista na rua as pessoas já ficam com medo. Eu mesmo aconselho a todos os clientes que estão esperando motorista de aplicativo em frente a casa a não ficar com o celular na mão”, explicou Rafael. “Especialmente no bairro e aqui, na rua que fica o Chévere (mesma rua do Mescla), a gente tem sofrido muito com assaltos. Temos cadeiras e mesas na rua, o que torna fácil para os ladrões, conduzindo moto ou bicicleta, roubarem os aparelhos. Isso tem incomodado o público, que acaba diminuindo por causa dessa falta de segurança”, conclui Letícia.

Um ponto positivo que os comércios possuem é trazer pessoas para as ruas, o que gera alívio para moradores e frequentadores. “Acredito que ocupar o centro é muito importante. Eu moro na Santa Ifigênia e lá é onde está localizada a Cracolândia. Quando os comércios estão abertos tem mais segurança, a partir das cinco da tarde, que é o horário em que todos os comércios fecham, já é outra coisa. O conceito de segurança acaba”, alerta Rafael.
Gabriel Araújo, 22 anos, analista júnior em uma empresa de T.I, mora em Campos Elíseos desde que nasceu e relata como é o convívio no bairro, na visão de um morador. Ele é mais um que coloca a segurança como algo a ser revisado . “(Morar aqui) é excelente (…), porém, há um tempo atrás, as principais coisas que estão dificultando minha convivência aqui são o encarecimento do aluguel que vem aumentando bastante, e a segurança porque recentemente, aqui tem estado bem perigoso. Atualmente não me sinto tão confortável em sair a noite, devido à grande quantidade de roubos de celular”, afirma. Apesar disso, ele enxerga a chegada de novos empreendimentos como algo positivo para tornar o lugar que mora, mesmo que um pouco, em um ambiente mais seguro. “Notei que alguns bares foram abertos principalmente na região do Minhocão. Quando não havia nenhum comércio lá era um pouco esquisito de andar, agora que está mais movimentado passa uma sensação de segurança, todavia acho que ainda não é o bastante para fazer com que o povo se sinta seguro aqui”, conclui Araújo.
O centro de São Paulo vive uma reconstrução contraditória. De um lado, bares, baladas, restaurantes e outros negócios desenvolvem a vida nas ruas, com mesas nas calçadas e luzes acesas, trazendo pessoas para conviverem e revigorar o espaço urbano. De outro, a insegurança e o medo pairam sobre esse movimento mostrando que a revitalização não é feita somente pelo empreendedor e frequentador, mas também dos políticos que devem trabalhar para garantir o bem-estar da população.



