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A fofura que agarra

O crescimento das máquinas de pelúcia como possíveis caça-níqueis 

O vício em jogos de azar tem entrado em pauta com o aumento de plataformas online para apostas, as famosas bets. Segundo estimativa apresentada pelo secretário-executivo do Banco Central, Rogério Lucca, durante depoimento na CPI das Apostas Esportivas, no Senado, os brasileiros destinaram entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês a apostas online nos três primeiros meses de 2025. Apesar dos olhares atenuados para o “jogo do tigrinho” e similares, outros tipos de jogos começam a ser investigados. As máquinas de pelúcias, são um desses. 

Também conhecidas como “garra” ou “gruas”, a princípio são permitidas no Brasil porque são consideradas jogos de habilidade, em que o jogador precisa ter destreza e precisão para tentar pegar o prêmio dentro de um tempo determinado. Mas se torna baseado em sorte, ou seja, podem ser considerados jogos de azar, quando as máquinas são adulteradas para ficar com as garras “fracas”. Basicamente, o equipamento é programado para dar pressão o suficiente para uma garra capturar o brinquedo de pelúcia apenas após a realização de um número pré-estabelecido de tentativa sem sucesso. 

As máquinas, que eram famosas na década de 90, entraram em ascensão novamente em 2025. Caindo no gosto dos consumidores, que atravessam todas as idades, elas se multiplicaram e passaram a ocupar todos os tipos de ambientes, sejam eles mercados, bares, padarias e até mesmo farmácias. Nos shoppings, chega a ser comum ver certa concentração de pessoas ao redor desses equipamentos, seja para assistir a quem tenta uma vitória contra a máquina ou para esperar a vez de jogar.  

A ascensão e influência pelas pelúcias  

O boom desses aparelhos fez com que alguns dos usuários passassem a utilizar as redes sociais para dar dicas de como capturar as pelúcias, é o caso do empresário Felipe Lima, de 38 anos. Ele é um dos muitos influenciadores que ganham milhares de seguidores nas redes sociais por gravar vídeos e fazer lives jogando nas máquinas. Felipe, que apenas em seu perfil no TikTok soma mais de 100 mil seguidores, produz conteúdo dando dicas de como driblar a “trava” das máquinas. “O pessoal ganha bastante dinheiro por TikTok e tudo mais. Eu comecei só a gravar as jogadas e aí os vídeos começaram a viralizar, o perfil começou a crescer. O pessoal começou a pedir pra eu fazer live e aí comecei”, relata ele. 

As transmissões ao vivo feitas na rede social se tornaram o ganha-pão de Felipe. Na rede social, as lives são monetizadas por meio de presentes virtuais enviados pelos espectadores. Os usuários fazem a compra de elementos dentro da plataforma e presenteiam os streamers, que convertem os mimos em dinheiro.  

No caso do empresário, além dos presentes cedidos, os seguidores faziam Pix para que ele jogasse na máquina e apanhasse ursos com aquele valor. Para isso, o influenciador cobrava uma taxa de 20% sobre o dinheiro investido, como forma de comissão.  “Quando você faz live caçando (pelúcias) pra seguidor, eles te dão uma porcentagem pra jogar para eles, normalmente é 20% e aí eu comecei a fazer e deu muito certo, acabou virando minha renda principal”, conta Felipe, que começou a trabalhar exclusivamente com a captura de pelúcias.  

Um vício fofo 

O psiquiatra e terapeuta cognitivo Edgar Oliveira, que atende pessoas viciadas em jogos de azar e apostas, vê no uso de cores vivas e figuras que remetem a desenhos animados uma estratégia de alto estímulo baseadas em cassinos. O influenciador Felipe, conta que já se sentiu viciado jogando nas máquinas de pelúcia. “Às vezes, eu via que eu jogava em algumas (máquinas) que eu falava assim… ‘cara, por que eu tô jogando nessa máquina?’. Eu percebia que não ia sair muita coisa, né? Então, quando eu vi que estava jogando em algumas máquinas que não agregavam nada, eu percebi que poderia sim ser um vício”, conta ele.  

O médico ainda indica que o uso desse tipo de tática com cores e figuras atrativas pode atrair crianças, como é o caso das máquinas de ursos. Neste sentido, o profissional critica ainda a não sinalização de estímulos que provoquem dependência, tal qual avisos de riscos à saúde relacionados ao tabagismo em caixas de cigarros, como agente catalisador na normalização deste tipo de compulsão. “O jogo enviesa a percepção do sujeito de que ele quase ganhou, mas sempre falta alguma coisinha para que ele ganhe. Essa sensação de adrenalina gera na pessoa uma vontade de continuar ganhando, porque isso cria mais sensação de que ela está no caminho certo”, afirma o profissional. 

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Desde 2018, o vício em jogos de azar ou habilidade é reconhecido pela OMS como doença e exige tratamento. A ludopatia é uma condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar ou apostar, ela funciona no mesmo mecanismo que a dependência de álcool ou drogas. Alguns dos principais sinais da doença são: mentir para familiares ou outras pessoas para esconder que joga ou que está com problemas pelo hábito de jogar e sentir a necessidade de postar quantias cada vez maiores de dinheiro para obter a mesma emoção. “O sujeito que está com o problema às vezes não procura ajuda. Quem procura é a família de tanto problema que o jogo ocasionou, dívidas, ameaça de agiota etc. Aí a família não aguenta mais”, conclui o médico especialista. 

Legalidade e contravenção 

Em 2020, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), sediado em São Paulo, classificou as máquinas de pelúcia como uma forma de jogo de azar. Durante uma investigação, o Tribunal apreendeu máquinas de brindes com garras, como as de pelúcias. A alegação era de que os aparatos confiscados tiveram ajustes em suas configurações que os permitiria “superar a habilidade física do usuário”, o que desviaria sua função original como jogo de habilidade. 

Na mesma época, duas empresas produtoras de máquinas de grua e outros brindes foram alvo de investigações e operações de busca e apreensão da Polícia Civil na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Na Operação deflagrada em agosto de 2024, que levou o nome de Mãos Leves, uma perícia feita pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) constatou que o equipamento apreendido foi programado para falhar em sua função de garra entre 80 e 97% das tentativas. 

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O estabelecimento e exploração de jogos de azar em locais públicos é considerado violação legal desde 1941, a partir da Lei das Contravenções Penais. “A contravenção é uma infração penal de menor ofensividade, geralmente a punição é prisão simples e penas de multa (…) o crime é uma infração penal de maior ofensividade, então eles têm sanções mais graves”, explica Emília Malacarne, mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS. 

Quanto a consideração das máquinas de pelúcia serem na verdade caça-níqueis, a advogada discorda. “O que está sendo oferecido ao consumidor não é a sorte de conseguir pegar um bichinho de pelúcia com uma máquina adulterada, na verdade, o que se oferece ao cliente é que a máquina funciona e que basta você ter a habilidade para pegar o bichinho lá dentro”, inicia. “Quando a gente tem, por outro lado, uma máquina adulterada e isso não é informado ao cliente, o que a gente tem é um crime contra as relações de consumo, porque aí (…) a gente está fazendo uma afirmação falsa sobre o que é oferecido e o consumidor está sendo iludido para comprar”, pontua ela. 

As discussões sobre a legalidade das máquinas de pelúcias ainda estão em andamento, já que quando estão em funcionamento normal testam a habilidade do usuário. O problema surge quando são adulteradas, porque, como o TRF-3 assinala, se tornam semelhantes a caça-níqueis.  

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