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Moda, nostalgia e sustentabilidade nos brechós da República

Brechó DeLuxxe, no segundo andar do prédio – Foto: Jullia Gomes

Já imaginou um prédio com diversos andares repletos de brechós? Pois ele existe e está localizado no centro de São Paulo, no bairro da República. O chamado “brechó vertical” é um coletivo que reúne o vintage, o streetwear e a moda ecológica em um só espaço, atraindo consumidores de diferentes perfis.

O edifício Santa Victoria, localizado na Rua Dom José de Barros, 337, que já foi sede do São Paulo Futebol Clube em 1939, hoje abriga centenas de lojas com os mais diversos estilos.
São seis andares grafitados e pichados que evidenciam a cultura underground de São Paulo. As paredes carregam mais de 40 anos de grafite, com obras de grandes nomes como Walter Nomura, conhecido como Tinho, e Mariana Mats, ambos com artes espalhadas por toda a cidade.

São cerca de 21 lojas por andar, todas independentes entre si. Cada uma delas conta com curadoria, garimpo e cuidado na seleção das peças, para que os consumidores tenham a melhor experiência possível.Mas o prédio vai muito além de roupas. É possível encontrar objetos vintage como discos de vinil, câmeras analógicas, brinquedos dos anos 2000, discman e outros itens que nos transportam ao passado com uma boa dose de nostalgia.

No segundo andar do edifício está o Selva de Pedra, um café aconchegante que esbanja personalidade e estética vintage. A produção artesanal e a vista para o Largo do Paissandú tornam a experiência ainda mais mágica e única.

Karen Magni, 36, sócia do Selva de Pedra, também é dona da primeira loja do edifício: o Brechó Deluxxe, inaugurado em 2020. Foi ela quem abriu caminho para que muitas outras lojas nascessem e formassem o prédio que conhecemos hoje.

“Eu recebi essa oportunidade no final de 2019 para conhecer o prédio e, em 2020, trouxe alguns amigos que também tinham brechós para ocupá-lo. Nós inauguramos nessa data e estou aqui há 5 anos, fui a primeira loja do prédio!”, conta Karen.

A era da fast fashion e a cultura do descarte acelerado têm gerado grande impacto ambiental no Brasil, onde são descartados cerca de 4,6 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano — incluindo roupas e calçados. Isso equivale a 44 kg por residência, segundo pesquisa publicada pela Agência Brasil.

 O modelo atual de consumo segue um padrão catastrófico de descarte em massa de tecidos, enquanto os brechós nascem para quebrar esse ciclo, propondo um caminho diferente: prolongar a vida útil das peças por meio do reuso, reparo, revenda e reciclagem.

Araras de roupas, loja Item Raro – Foto: Jullia Gomes

  “A moda sustentável, além de ajudar o planeta e incentivar uma forma de comprar consciente, também dá às pessoas a oportunidade de adquirir peças de qualidade, únicas e duráveis, que não sejam facilmente descartadas. Quem compra em brechó adota isso como um lifestyle, seja por estilo ou exclusividade”, comenta Karen.

A moda fast fashion tem deixado os consumidores cada vez mais saturados, seja pela padronização ou pela baixa qualidade das peças. Nesse contexto, os brechós entram não só como alternativa de consumo, mas também como movimento cultural e sustentável, que valoriza autenticidade e dá novo significado ao vestir.

“Essas peças, por exemplo, ganham uma nova cara ao serem restauradas. A arte é feita pelo artista Varal, que customiza e dá uma nova vida a elas, ao invés de descartarmos”, explica Karen, ao mostrar uma arara repleta de roupas customizadas.

Paulo Ribeiro, conhecido como Varal, é dono da SP Farpado, uma das lojas do edifício. Seu coletivo de artistas de grafite transforma roupas que seriam descartadas em peças com identidade única.
“As pessoas podem garimpar em várias lojas aqui do prédio e depois trazer as peças para nós customizarmos. Às vezes, a roupa está manchada e a gente restaura, transformando em algo exclusivo”, conta.

Seja customizada ou não, a verdade é que cada peça de um brechó carrega uma história única, agregando valor e contribuindo para a sustentabilidade. Mesmo com a expansão, os brechós ainda enfrentam preconceito, mas deveriam ser reconhecidos como espaços que exalam estilo, autenticidade e consciência.

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