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Liberdade sob pressão

O tradicional bairro da Liberdade, conhecido por ser o lar da cultura japonesa em São Paulo, enfrenta um desafio crescente: a disputa por espaço entre camelôs e artistas de rua. O local, famoso por seus eventos culturais e turísticos, agora vive sob a tensão diária de uma batalha entre o comércio informal e a expressão artística. As calçadas estão cada vez mais dominadas por barracas de vendedores ambulantes e mesas que expõem o trabalho feito à mão pelos artistas, o que gera tensão no dia a dia nas ruas da Liberdade.

Jardim Oriental é um pequeno parque no bairro.

Juliano Gomes, 36, mineiro, artesão e viajante, aprendeu suas habilidades com amigos ainda na juventude, e desde então, percorre o Brasil vendendo suas criações. Sua vida é marcada por uma constante troca de experiências e conexões com cada cidade que visita, “desde pequeno já tenho paixão pela arte, fui aprendendo com outros amigos de estrada”, comenta. Juliano costuma passar alguns meses em um lugar e quando percebe que o movimento de vendas já não está tão bom, parte em busca de novos horizontes. Para ele, a arte é uma forma de expressão e de sustento, movida pela paixão de criar algo único.

Contudo, nos últimos tempos, Juliano tem enfrentado além do desafio da disputa pelo espaço nas ruas, ele se depara com a concorrência direta dos camelôs, que, em muitos casos, vendem produtos semelhantes aos seus. O problema se intensifica quando esses produtos são oferecidos a preços bem mais baixos, o que afeta diretamente suas vendas. Enquanto suas peças demandam tempo e dedicação artesanal, os camelôs frequentemente oferecem versões mais simples e baratas, desviando a atenção dos consumidores e impactando o fluxo de vendas.

O caso do artesão Alex Siqueira, 28, que trabalha nas ruas da Liberdade, reforça os desafios enfrentados pelos artistas de rua em relação aos camelôs. Alex aprendeu a fazer suas criações com os pais, também artistas. Para ele, trabalhar na rua é uma escolha de vida e, como Juliano, é a paixão que o move. Seu carro-chefe são as artes feitas de cobre, um metal que ele valoriza não apenas pela beleza, mas também por suas propriedades medicinais. O cobre é um excelente ajudante para a limpeza do sangue, eliminando metais pesados e proteger o corpo da radiação, além de ser um ótimo condutor de energia. Isso faz com que suas peças tenham um apelo especial junto aos compradores que buscam algo mais do que simples decoração.

Alex Siqueira expõe seus produtos na calçada

Entretanto, assim como outros artistas de rua, Alex também enfrenta a competição com os camelôs, que ele considera desleal. Para ele, o problema vai além da disputa por clientes. Os camelôs chegam muito cedo, muitas vezes antes do amanhecer, para garantir os melhores pontos, o que prejudica os artesãos que têm o direito de expor em qualquer lugar, “de final de semana, sábado e domingo, tem uma competição com os camelôs. Eles querem chegar aqui e ficar no lugar dos artesãos que é por direito nosso”, comenta. Esse direito é amparado pela Lei 13.180, que dispõe sobre a profissão e garante o reconhecimento dessa atividade como legítima, com direitos estabelecidos para a comercialização de suas obras em espaços públicos.

A chegada dos camelôs, que às vezes ocupam os espaços usados pelos artesãos, gera atritos e conflitos constantes. Alex descreve um cenário em que os camelôs, sem a mesma regulamentação dos artistas, muitas vezes brigam pelos locais, tornando a convivência nas ruas da Liberdade cada vez mais difícil.

Na visão dos camelôs, a realidade nas ruas da Liberdade também está bem longe de ser fácil. Nayane Silva, 23, Patrícia Alencar, 22, e Revely, 20, contam como o dia a dia sendo vendedoras ambulantes vai muito além da montagem de uma barraca e vender produtos. Elas enfrentam desafios constantes, como a fiscalização, a concorrência com artistas de rua e o tratamento dos clientes. Além de precisarem estar sempre atentas à chegada do “rapa” – veículo da Prefeitura que conduz fiscais e policiais para apreender mercadorias de vendedores ambulantes não licenciados.




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