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P0r Heloísa Oliveira, Isabele Marinho, Victória Aguiar e Yeshin Park
Em um dia caracteristicamente nublado na cidade de São Paulo, a Feira do Bom Retiro oferece uma explosão de cores, aromas e sabores, com a multiculturalidade característica do bairro do Bom Retiro, que atrai visitantes de todo o Brasil. Todos os sábados, na entrada da Rua Cônego Martins, já é possível escutar a movimentação para a abertura, às 10h, com entrada gratuita. As barracas são organizadas, as comidas temperadas e, em caso de apresentações, o palco é montado. Com as preparações iniciais finalizadas, não demora muito para que a rua seja rapidamente tomada por turistas entusiasmados, em sua grande maioria acompanhados de parentes ou amigos, buscando novas experiências e uma boa tarde de lazer.
No dia 12 de fevereiro deste ano, a feira completou dois anos desde a sua inauguração. Sua chegada revitalizou o bairro, que, devido à escassez comercial promovida pela pandemia, perdeu cerca de 50 mil moradores, obrigados a se mudar após as lojas, suas fontes de sustento, fecharem.
“Aproveitamos a característica multicultural do bairro para fazer uma feira multicultural”, afirma Milena Yoo, diretora da feira. Nascida na Coreia do Sul e vivendo no Brasil desde os 15 anos de idade, Milena valoriza a influência das diferentes culturas dos imigrantes do bairro, buscando dar voz a todos os moradores por meio desse ponto turístico, apesar da feira ser popularmente conhecida como uma “feira coreana”. A diretora explica que essa falsa concepção se deve ao fato da cultura coreana estar em alta, resultando na predominância de barracas de cultura e culinária coreana.
Sejam pratos como o kimchi, mandu, tteokbokki ou doramas, k-pop e moda, a cultura coreana se estabeleceu com força no Brasil. Por essa razão, a admiração é incentivada e explorada a fim de trazer reconhecimento ao bairro, que hoje em dia apresenta um grande fluxo migratório de coreanos. Logo na praça do bairro, esbanjando a bandeira da Coreia do Sul e do Brasil, está o Monumento Uri, que simboliza a comunidade coreana andando lado a lado com os brasileiros, por meio de totens da antiga cultura popular coreana. Essa união e admiração pela cultura foi o que proporcionou o rápido crescimento da feira.
De acordo com Minki Kim, gerente geral da franquia de frango frito Waker Chicken – que possui uma barraca na feira, além de um restaurante –, a cultura coreana está crescendo bastante pelo mundo e se tornando uma sensação. “As pessoas vêm mais pela tradição e pelo palco, e acabam visitando a feira”. O palco mencionado é utilizado para diversas atrações, entre elas danças de k-pop, danças tradicionais coreanas com instrumentos (gukak) e danças com leques. “Em outubro, quando não tinha esse palco, vieram menos pessoas”.
Basta caminhar entre as barracas coloridas de pôsteres em referência à cultura pop coreana e conversar com alguns dos visitantes para compreender a dimensão da influência coreana no Brasil. “A feira, aqui, lota. Vêm várias pessoas, muitas delas influencers por conta das séries e da música coreanas, muita gente de todas as idades”, explica Maria Eduarda Lopes da Silva, assistente de importação e exportação da barraca e restaurante Bu tu mak, especializado em comida coreana. Em média, a feira atinge 20 mil visitantes em dias de eventos ou atrações que envolvam a cultura coreana. O carinho e admiração por ela está em ascensão. “Os brasileiros aceitaram muito bem a cultura coreana, comparada a outras culturas que têm muito preconceito.”
Na feira, esse carinho é recíproco, desde sua abertura, às 10h da manhã, até seu fim, às 17h. Apesar de muitos dos feirantes coreanos mais velhos não dominarem a língua portuguesa, eles ainda encontram uma maneira de fazer com que os turistas se sintam bem acomodados. Para eles, é um prazer compartilhar um pedaço de sua cultura com os brasileiros. O Festival de Cultura Coreana, ocorrido em agosto e com a participação da administração da Feira do Bom Retiro, chegou a um total de 100 mil pessoas, oferecendo espetáculos tradicionais coreanos, que, além do entretenimento, também educavam. Esse é o caso da atração especial do dia 12 de outubro, com uma barraca de caligrafia tradicional coreana. Todos os caligrafistas são profissionais coreanos e escrevem há vinte anos, com certificados da Coréia do Sul. Eles concedem caligrafias gratuitamente, além de aulas de escrita no Oswaldo de Andrade no Bom Retiro, contentes em repartir parte de sua história e tradição. A intenção do projeto é espalhar o hangul (alfabeto coreano) pelo mundo.
Essa troca de valores sempre fez parte da história do Bom Retiro: o bairro tem como base essa colaboração e união entre diferentes etnias, que é o sangue que bombeia o comércio local e o torna tão atrativo. Esse seu fator de destaque entre os demais bairros do centro foi o que o concedeu o título de um dos bairros mais descolados de São Paulo, de acordo com a revista “Time Out”.




