[metaslider id=”1554″]
Por Heloísa Oliveira, Isabele Marinho, Victória Aguiar e Yeshin Park
O Mercado Municipal de São Paulo, carinhosamente apelidado de Mercadão, é conhecido internacionalmente e considerado um dos pontos turísticos mais atrativos e bem frequentados de São Paulo. Localizado na Rua da Cantareira, 306, o estabelecimento histórico se destaca gastronomicamente pela qualidade de primeira linha de seus produtos importados que atraem aproximadamente 4 mil visitantes diariamente, desde brasileiros até canadenses, australianos e outros turistas de fora do país. O mercado, de entrada gratuita, conta com uma variedade de opções, chegando a 290 boxes com 1,5 mil funcionários. Ao todo, são movimentadas cerca de 350 toneladas de alimentos por dia.
Em meados de 1928, o mercado estava sendo idealizado para ser um entreposto comercial de atacado e varejo, especializado na comercialização de produtos alimentícios, mas principalmente de frutas e verduras. Sua construção levou quatro anos. Entretanto, Jonathan, um funcionário do restaurante Mortadela Brasil que trabalha no Mercadão há 12 anos, explica que o mercado serviu outro propósito antes de se tornar o centro comercial atual: um depósito de armas para as tropas paulistas durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Foi apenas com o fim da Revolução que o mercado pôde assumir suas funções e substituir o Mercado Velho da Rua 25 de Março.
Suas paredes transbordam história e cultura, desde os mínimos detalhes. Projetado pelo mesmo engenheiro do Theatro Municipal e da Pinacoteca, Felisberto Ranzini (do escritório de Ramos Azevedo), há uma influência européia em sua beleza arquitetônica. No seu interior, brilham vitrais góticos feitos pelo artista russo Conrado Sorgenicht Filho, famoso pelo trabalho realizado na Catedral da Sé. De acordo com Jonathan, cada um dos vitrais representa o produto que está sendo vendido e consumido nos corredores abaixo deles. No corredor de carnes, um vitral de gado. No de verduras, uma horta. “Eu gosto de enxergar como se fosse um portal tridimensional: vem de lá para cá e para a sua mesa”, compartilha Jonathan sobre as obras.
Caminhar entre os boxes e barracas é uma explosão de cores e aromas, com os lojistas lutando entre si pela atenção do cliente. Permissionários das barracas de fruta abordam os turistas com um sorriso estampado no rosto, pressionando-os para que experimentem seus produtos exclusivos. São bananas da Nova Zelândia, mel produzido na Espanha, morangos produzidos em Israel e maracujá xangai da Amazônia. É um jogo de lábia, e vence quem for mais receptivo e convincente para o consumidor. Afinal de contas, o maior lucro dos funcionários vem dos turistas. De segunda a sábado das 6h às 18h e domingo das 6h às 16h, eles travam a batalha das vendas.
Elaine, de 56 anos, é administradora de empresas e proprietária do box chamado Reno Empório. Nele, ela vende uma variedade de especiarias como azeites importados, chocolates diferenciados e doces mineiros. Ela explica o quão cansativo é o trabalho de domingo a domingo, mas como considera um prazer poder lidar com atendimento ao cliente.
“Acho que é uma troca. Eu acho que ao trabalhar no comércio, você deve acolher muito bem, independente se vai gerar lucro naquele momento ou não”, diz a proprietária.
Elaine carrega um grande sorriso e se expressa com uma voz serena e gestos delicados. Carrega em seu pescoço uma cruz de prata, e se emociona ao falar sobre a diversidade que o local engloba.
“Aqui é um território onde tudo cabe, né? Aqui passam pessoas do nosso país, passam estrangeiros, passa o mundo”, afirma. “Por aqui passam todos os tipos de sotaques. Uma das coisas que mais me encanta são os sotaques! O Brasil é rico, isso me encanta muito!”
A diversidade é um dos pontos principais do Mercadão. Como um centro histórico que antes carregava a morte e o sofrimento quando era uma base de armas e agora carrega a vida por meio de produtos alimentícios e da cultura, ele une diferentes grupos por meio de experiências gastronômicas e o fascínio pela sua estrutura. Tânia Larissa, enfermeira de 48 anos, veio de Natal do Rio Grande do Norte pela segunda vez e não pôde deixar de desfrutar das variedades oferecidas pelo mercado. Influenciada pelo seu filho, seu restaurante de escolha é o Bar do Mané, o fundador do famoso sanduíche de mortadela. Na sua segunda visita, Tânia provou o renomado pastel de bacalhau do mesmo restaurante, e afirma que voltará mais vezes.
De acordo com Elaine, do Reno Empório, muito do papel do alimento é unir as pessoas, oferecê-las além da saciação física, a emocional: “Em um mundo de hoje, todo industrializado, as pessoas buscam memórias afetivas, e por isso buscam os doces de vó, que fazem com que lembrem da vó, da mãe, da infância.”
Nas mesas, sentam-se os frequentadores em grupos, raramente sozinhos. Um casal de idosos, uma família de três, um grupo de amigos. O local vibra com suas vozes e música vinda de estabelecimentos. Quando a energia acaba, por alguns instantes, todos reagem em conjunto, unidos pela situação. E mesmo com esse obstáculos, os funcionários não param, frenéticos para agradar seus clientes, carregando cardápios nos corredores e levando pratos para as respectivas mesas. O Mercadão, com todo o seu caos paulistano, oferece com autenticidade a experiência do centro.




