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Cinemas de rua mantém viva a magia de São Paulo

 

Mesmo diante do avanço dos multiplexes e do streaming, salas de cinema seguem como pontos de encontro e resistência cultural na capital.

Em São Paulo, onde a pressa dita o ritmo e a cidade se reinventa a cada esquina, há espaços que parecem parar o tempo. São os cinemas de rua, que resistem em meio à era dos multiplexes e dos streamings. Em uma cidade onde a vida cultural se espalhou por centros comerciais e plataformas digitais, essas salas ainda mantém vivas o charme de uma experiência que começa muito antes da

Salas de cinema do REAG Belas Artes
Foto por: Laura Moraes

tela se acender. Ela começa no caminho até o cinema, na caminhada pelas ruas, na observação dos prédios históricos e no encontro com outras pessoas que compartilham do mesmo ritual.

Para o crítico, professor e pesquisador Donny Correia, 45 anos, esses espaços fazem parte da própria história do cinema no Brasil. “O cinema de rua é como nascem os cinemas em São Paulo, no Rio, enfim, no Brasil”, explica. “Quando o cinema surgiu, ele era exibido em qualquer lugar, circo, bar, feira, onde desse para colocar um pano e projetar alguma coisa. Com a popularização, começam a surgir as primeiras salas destinadas exclusivamente à exibição de filmes. Aqui em São Paulo, por exemplo, a primeira sala foi inaugurada em 1907, o Cine Bijou, na Rua São João.”

Essas salas, lembra Donny, surgiram justamente onde a cidade acontecia, no centro histórico, onde estavam as atividades culturais, econômicas e políticas. “As salas acabaram pipocando exatamente por conta disso. Era onde a população estava, onde acontecia a vida política e cultural. E ir ao cinema era um ato social. Você tinha cinejornal, curta-metragem, às vezes orquestra tocando antes de abrir a tela. Era um ritual, um evento coletivo.”

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Durante décadas, o cinema de rua foi o principal espaço de lazer das famílias paulistanas. Os anos 1940 e 1950 ficaram marcados como a “era de ouro” dessas salas, quando São Paulo chegou a ter mais de 160 cinemas em funcionamento. Mas, a partir das décadas de 1980 e 1990, o cenário começou a mudar. Com a abertura de shoppings e a popularização dos multiplexes, o público foi migrando para os novos complexos de lazer. “Esse fenômeno dos cinemas de rua começarem a fechar não é novo, ele já começa há 25, 30 anos”, diz Donny.

À medida que surgem os shoppings, as pessoas passam a frequentar os multiplexes porque é mais prático, você faz compras, come e assiste ao filme no mesmo lugar. Enquanto isso, os centros urbanos foram ficando perigosos e abandonados. Muitos cinemas faliram, foram vendidos para igrejas, demolidos ou transformados em estacionamentos, disse o professor.

Apesar dessa mudança de hábitos, há quem nunca tenha deixado de frequentar os cinemas de rua. Tamires Cardoso, 24 anos, pedagoga e mestranda, conta que sua paixão por esse tipo de cinema vem da infância. “É uma paixão minha, desde criança”. Tamires, natural de São Lourenço, no interior de São Paulo, conta que na cidade não existiam shoppings, apenas cinemas de rua. “Quando vim para São Paulo, fiquei feliz de descobrir que ainda existiam cinemas de rua. Gosto da possibilidade de ter outros espaços de cultura que não sejam só shopping centers.”

Elizabeth Somessari, 70 anos, engenheira, reforça o valor afetivo dessas salas e como elas fazem parte de sua rotina. “Eu acho maravilhoso o cinema de rua. Ele nos faz voltar ao passado, quando quase todos os cinemas eram assim. Moro aqui perto, venho a pé, volto a pé… isso, para mim, é uma magia. Fiquei muito triste quando quase fecharam o Belas Artes. Aqui é um ponto de encontro, tem até feira de artesanato. O cinema de rua é muito importante.”

Para Donny, as salas que ainda sobrevivem, como o CineSesc, o Belas Artes e o Reserva Cultural, guardam a tradição cinematográfica e cumprem um papel essencial. “Eles mantêm viva a aura da cinefilia, exibindo filmes cult, históricos, clássicos restaurados e programações especiais. São frequentados por pessoas que buscam uma experiência mais profunda, uma imersão no cinema que não se encontra no streaming ou no shopping.

Mural “O cinema mais amado do mundo”.
Foto por: Laura Moraes

Os desafios, porém, são grandes. Além de custos altos de manutenção, essas salas precisam lidar com a concorrência do entretenimento doméstico e com a insegurança no centro de São Paulo. Para se manter, muitas dependem de patrocínios e de apoio institucional. “Cada vez mais é preciso ter um patrocinador para manter a operação”, ressalta Donny. “Uma vez viabilizado o espaço, o que vai destacar esse cinema é justamente o diferencial da programação. Outro ponto é atrair novos públicos.

Se no passado ir ao cinema era um hábito social, hoje a experiência precisa se reinventar para competir com o conforto de assistir em casa. “Existe um público-alvo específico, que geralmente é mais velho, mas também há jovens que consomem esse tipo de programação. Uma forma de atrair mais gente é mesclar a grade, ao lado de filmes mais segmentados, exibir um título do momento. Isso faz o jovem entrar no cinema e, de repente, descobrir outra coisa. Às vezes ele gosta do ambiente, da região, e volta para outras sessões”, afirma Donny.

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