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Festa da Achiropita: fé, sabores e tradição que vivem no coração de São Paulo

Por Laura Moraes e Giovanna Melim.

Na 99ª edição, o maior evento cultural italiano do Brasil reúne milhares de pessoas no Bixiga. Religião, música e gastronomia mantêm viva a identidade de um bairro e de uma comunidade.

As ruas do Bixiga se transformam em outro país quando agosto chega a São Paulo. O relógio ainda marca pouco depois das cinco da tarde, mas já é possível sentir no ar que uma noite agitada se aproxima. O cheiro de massa recém-assada escapa das barracas junto ao cheiro do molho de tomate. O som das músicas italianas ecoa pelas caixas de som, animando os primeiros visitantes, enquanto voluntários de camisetas estampadas com o nome da festa se espalham entre a multidão. O cenário é um retrato humano: famílias inteiras de gerações diferentes, jovens em grupos que chegam entusiasmados com a quantidade de comida, turistas estrangeiros que tiram fotos a cada barraca, moradores antigos que conhecem cada detalhe e fazem questão de voltar todos os anos.

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Logo, as filas se formam. Os corredores entre as barracas ficam cheios de gente. Pessoas com pratos de espaguete equilibrados nas mãos, outras segurando pedaços da tradicional fogazza, além das pessoas disputando espaço para tirar fotos em frente à igreja iluminada. “Vem com fome, tá bom? Porque aí você pode comer de tudo um pouco”, aconselha Tamires Dias, 19 anos, visitante que experimenta a festa pela primeira vez. Ela confessa que o que a atraiu foi a comida italiana, especialmente as massas, e diz ter conhecido a festa por indicação de um amigo. Para ela, o mais marcante é a diversidade. “É bem legal porque acaba chamando pessoas que talvez não conheçam. Elas vêm para poder provar as coisas, conhecer melhor. Eu acho isso importante”, reflete.

A cada esquina, um grupo de voluntários orienta os visitantes, e é impossível não notar a dedicação que sustenta o evento. São mais de 1.200 pessoas que, ano após ano, trocam os fins de semana de lazer pelo trabalho comunitário, servindo comida, organizando filas, limpando espaços e acolhendo o público. Entre eles está Maria Alice Dantas, de 14 anos, em sua primeira experiência como voluntária. “Eu me senti muito acolhida pelas pessoas que trabalham aqui. Elas são muito bondosas com todo mundo. É uma festa muito legal para jovens e para pessoas de qualquer idade. Todos são muito receptivos”, conta. Para ela, o convite veio de um tio que participa há anos, em cumprimento a uma promessa feita à Nossa Senhora. “Eu fiquei muito tocada pela missão dele e decidi vir trabalhar para ajudá-lo nessa promessa”, explica. A adolescente, que antes frequentava a festa apenas como visitante, diz que a experiência marcou e que pretende voltar nos próximos anos, inclusive para o centenário.

Voluntarios na barraca da Fricazza. Foto por: Laura Moraes.

A Festa da Achiropita não nasceu grandiosa como hoje. Sua história começa em 1908, quando a comunidade italiana do Bixiga organizava leilões para arrecadar fundos. Como recorda Maria Emília Conte, 77 anos, responsável pelas Relações Públicas da festa, “No início, a comunidade fazia leilões para arrecadar fundos. Pediam doações de cabritos, leitões, frangos ou doces típicos italianos. Tudo isso era leiloado durante a festa. Também havia pau de sebo, bandas e celebrações religiosas. A primeira edição foi realizada nos dias 13, 14 e 15 de agosto de 1908”. Com o dinheiro arrecadado, criaram uma pequena capela, depois a igreja, e em torno dela cresceu um evento que nunca mais parou. Para construir e depois manter as obras sociais, a festa se tornou tradição anual, atravessando décadas e se transformando em um patrimônio da cidade.

A cada edição, o público se renova, mas a devoção permanece. A festa nasceu da fé em Nossa Senhora Achiropita e ainda hoje preserva esse caráter espiritual. Durante o mês de agosto, procissões e missas lotam a igreja, enquanto os visitantes aproveitam a celebração na rua. Silvânia Freitas, 47 anos, visitante sergipana que veio pela segunda vez, explica o que sente: “É Deus e Nossa Senhora que trouxeram essa festa. Sempre está chegando gente, saindo gente, e o povo com entusiasmo. É acolhedor, muito acolhedor aqui”. Para ela, o acolhimento é tão forte quanto a gastronomia. E é justamente nessa mistura de fé e sabor que a festa é construída e celebrada.

Imagem de Nossa Senhora Achiropita. Foto por Laura Moraes.

A fogazza, sem dúvida, é o prato mais aguardado. Uma massa recheada, assada em fornos industriais improvisados nas ruas, que chega a gerar filas de horas. “Com certeza é a fogazza. Mas a polenta também vende muito”, explica Maria Alice. A operação de preparo é gigantesca: mais de 250 voluntários trabalham apenas na produção da fogazza. Maria Emília conta que a receita é única e impossível de reproduzir. “Mesmo com a receita disponível, ninguém consegue reproduzir igual. Eu acredito que é porque este lugar é abençoado”, diz. Não à toa, a memória mais marcante que ela guarda da festa é justamente quando a produção da fogaça começou a ganhar proporções grandes: “Fizemos 5 kg de massa para testar e o público adorou. No dia seguinte, já foram 10 kg, depois 20, 50… Hoje, produzimos mais de 2 toneladas em um único dia”.

Mas a festa vai muito além da comida. Ela financia uma ampla rede de obras sociais mantida pela paróquia. São mais de mil pessoas atendidas diariamente em creches, centros educacionais, projetos de alfabetização de adultos, apoio a moradores em situação de rua, dependentes químicos e idosos. “Não se trata apenas de dar comida. Fazemos um trabalho de assistência, recuperação e dignidade, para que as pessoas possam crescer e sair de situações difíceis”, explica Maria Emília. Esse é um dos maiores motores que mantêm viva a motivação dos voluntários e organizadores, mesmo diante dos desafios. Montar uma festa dessa dimensão custa mais de um milhão de reais e exige patrocínios, apoios e infraestrutura complexa, e ainda assim, para a comunidade, tudo isso já faz parte da rotina.

Bazar da Achiropita. Foto por: Giovanna Melim.

Com o tempo, a Festa da Achiropita se transformou em uma verdadeira empresa organizada, com setores divididos entre manutenção, RH, comunicação, marketing, coordenação de barracas e até gestão de limpeza. Hoje, ela é reconhecida como o maior evento cultural italiano do Brasil, parte oficial do calendário turístico da cidade, apoiada pela prefeitura e pelo governo federal. Estima-se que passem pelo evento entre 250 mil e 300 mil pessoas durante todo o mês de agosto, com fluxo constante de visitantes.

Entre eles, os jovens têm ganhado cada vez mais espaço, especialmente após as 21h, quando o público familiar dá lugar a grupos de amigos que chegam para aproveitar a música e a gastronomia. As redes sociais também desempenham papel central na renovação do público, como destacou Tamires, em sua fala, e como confirma a própria organização, que hoje investe em parcerias com influenciadores digitais e mantém forte presença em plataformas como TikTok e YouTube. 

Em 2026, a Festa da Achiropita completará cem anos de história. A organização ainda não revela os detalhes da comemoração, mas garante que será um marco inesquecível. Entre as ideias em estudo estão a produção de um livro e exposições especiais, que vão contar a trajetória da festa desde os primeiros leilões até o evento que hoje movimenta milhões de reais e mobiliza milhares de pessoas. Até lá, segue o compromisso de manter a qualidade e a essência que fazem a festa ser única.

No fim da noite, quando a música diminui e a multidão começa a ir embora, ainda há filas nas barracas, gente comprando a última fogazza, famílias inteiras se despedindo com sacolas cheias de doces. Para Maria Emília, a palavra que define a Festa da Achiropita é simples: “Amor. Amor em todas as formas: fidelidade, amizade, companheirismo. Quem faz parte dessa festa cria raízes profundas. É uma grande família com desafios, como qualquer outra, mas movida por um afeto que ultrapassa limites. Para mim, a Achiropita é um amor infinito”.

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