Casa de acolhimento à população LGBTQIA+ une bingo e arte drag em evento beneficente
No bairro do Bixiga, centro de São Paulo, o galpão da Casa 1 foi palco de mais uma edição do evento beneficente Drag Bingo, no dia 24 de maio, sábado no qual disputou público com o primeiro dia da Virada Cultural do município. Com entrada franca e venda de cartelas por R$ 4, o evento beneficente uniu o jogo de azar com entretenimento e arte transformista em uma noite de performances e distribuição de prêmios, atraindo um público diverso, entre moradores do bairro histórico e pessoas de diversos locais da Grande São Paulo.
Uma das atrações convidadas foi Elke Jones, que referencia tanto à rockeira Rita Lee quanto à atriz Elke Maravilha, criação do multiartista Arthur Diniz, de 22 anos.
O artista
Natural de Ribeirão Preto, no interior do estado, o jovem veio à capital em 2024 para estudar na SP Escola de Teatro. Inspirado pelo apoio da mãe e da madrinha, Arthur trabalha com arte desde os 5 anos, quando integrava o projeto Ribeirão em Cena. Além do teatro, ele ainda trabalha com cenografia, figurino e confecção de máscaras e bonecos.

Nos preparativos para a apresentação do Drag Bingo, o apartamento que divide com um amigo na zona Oeste de São Paulo serve também de ateliê para algumas de suas criações. Ao som de uma ritualística playlist que ia de Madonna a Ney Matogrosso e de Kate Bush à obviamente, Rita Lee, seu quarto se torna camarim.
Enquanto esculpia em seu rosto o semblante dramático e magnético da criação em frente a um pequeno espelho redondo, dublava as músicas de forma síncrona. Os olhos recebem sombras bem marcadas em tons de branco e azul. A boca foi redesenhada teatralmente em um vermelho bem vivo delineado por um lápis escuro. As sobrancelhas, escondidas com auxílio de uma cola em bastão, dão lugar ao desenho arqueado característico desse tipo de representação.
[inserir carrossel com fotos da montagem]
Em cerca de 3h30, aquele rapaz mignon de 1,68m de altura pouco a pouco se transformou em uma figura feminina robusta calçada em botas de salto prateadas que lhe deram ao menos mais 15 centímetros. Seu corpo é revestido por um macacão verde rendado. Seu cabelo naturalmente escuro cortado em mullet dá lugar a uma peruca vermelha volumosa, que coroa a composição, que relembram a clássica personagem Poison Ivy, da DC Comics, que inspirou o clipe da música “Erva Venenosa”, de Rita Lee, versão em português do sucesso de 1959 da banda estadunidense The Coasters, que leva o mesmo nome da anti-heroína dos quadrinhos. Essa adaptação, gravada pela primeira vez pelo grupo Golden Boys e imortalizada na voz da rockeira como tema de vilãs de telenovelas como “Cobras & Lagartos”, “Escrito nas Estrelas” e “Fuzuê”, foi escolhida para ser a base da performance que Arthur faria na noite.

A criação
Arthur não define Elke Jones como uma personagem, mas como uma persona, com a qual sente uma ligação quase que metafísica. Ele define o processo de criação dela como complicado, uma vez que teve o primeiro contato com o conceito de transformista na adolescência, quando sua madrinha comparou a arte cosplay que ele desenvolvia com o transformismo, que até então era um conceito novo para ele. Anos depois, em 2019, ele relata ter sido amadrinhado artisticamente pela atriz Lu Lopes, quando passou a estudar comicidade.
“Ela dizia que via uma drag em mim. Eu nem sabia direito o que era isso, e fiquei um pouco encucado. Escrevi até um textinho de como eu imaginava minha drag”.
Paralelamente, com a chegada da Pandemia da Covid-19, ele começou a enviar correspondências à Rita Lee e, fazendo ume studo profundo de sua personalidade, chegou a conclusão de que ela era uma personalidade importante na construção e normalização da comunidade LGBTQIA+ em meios heteronormativos pouco representada. Em 2021, em uma viagem à São Paulo, estreou Elke Jones em uma boate na rua Augusta, apresentando-a à sua ídola, que viria a morrer em decorrência de um câncer pouco tempo depois
[inserir vídeo de entrevista com Arthur completo]
Além da presença no palco, Arthur trouxe outro projeto seu para a apresentação: o “Boneco na Mala”, que divulga seu trabalho de criação de adereços cenográficos. Foram usadas duas máscaras de papel machê para compor a personagem em momentos distintos da apresentação: uma réplica do rosto de Rita Lee, e uma face monstruosa para demonstrar a “cara” da maldade da personagem.
A bordo de um Onix Prata, contratado por um aplicativo de corridas, rumo à rua Adoniran Barbosa, a rainha encarnada ensaia mais uma vez “Erva Venenosa”.
[inserir vídeo de Elke ensaiando no carro]
A casa
A Casa 1, espaço que organiza e recebe o Drag Bingo, é um centro de cultura e acolhimento para pessoas LGBTQIA+ expulsas de casa e/ou em situação de vulnerabilidade, que oferece atendimento psicossocial, capacitações e feirões de empregos voltados a esta população.
O projeto, nascido em 2017, foi uma iniciativa de Paola di Verona, que atua como professora voluntária e coordenadora do projeto English to Trans-form, que disponibiliza cursos gratuitos de língua inglesa a pessoas trans e travestis. Ela é a figura alta e imponente que comanda e seleciona os artistas que marcam presença no evento.
[Inserir depoimento de Paola di Verona]
Angelo Castro, diretor da instituição, defende que a arte drag tem uma função história para a comunidade e sua popularização é extremamente importante por ser uma das primeiras expressões artísticas a questionar o gênero.
“Com o tempo, a gente como sociedade foi entendendo que esses padrões não se encaixam para todo mundo. Expressar isso artisticamente, além da militância e da nossa vivência é super importante para nos aproximar e nos fortalecer”, afirma.
[Inserir foto de Angelo]
Nesta edição, Paola dividiu a apresentação do Bingo com Ikaro Kadoshi, personagem andrógino que usa pronomes masculinos e apresenta o programa Caravana das Drags, ao lado de Xuxa Meneghel. Jornalista, ele aproveitou o espaço para falar sobre a atuação política da comunidade no Brasil, em especial pela proximidade do evento com junho, o “mês do Orgulho LGBTQIA+”
Cada um entrava performando alguma canção de sua escolha. A criadora entrou ao som de “Be Without You”, da rapper Mary J. Blige, enquanto Ikaro encarnou a versão em português de “Let it Go”, do musical animado Frozen, da Disney Pictures.
[Inserir carrossel com as perfomances de Paola e Ikaro]
Bingo!
Durante o evento, as apresentações das drag queens convidadas eram mescladas com o sorteio de diversos prêmios. Os apresentadores chamavam ao palco duas ou mais pessoas que haviam gritado “bingo!” na rodada, onde elas apresentavam seu nome, sexualidade, gênero e “caravana”, ou seja, de que bairro ou cidade a pessoa vinha. Após isso, escolhiam seu nome de drag queen e disputavam o prêmio em divertidas batalhas de lipsync ao som de músicas selecionadas na hora por Di Verona e sua xará DJ Paola Cadilac, que comandava o set. A melhor performance e dublagem era premiada com o anúncio da placa “bingou!”, enquanto os derrotados recebem a placa “rodou!”.
A primeira rodada, marcada por apresentações tímidas, mas bem-humoradas, foi encerrada pela chegada de Elke Jones como a Erva Venenosa. Antes da música, o áudio anunciava, como em uma manchete de jornal:
“filha perdida de Rita Lee, drag queen é procurada após cometer uma série de crimes pela cidade”.
[inserir trecho de apresentação de Elke Jones]
Ao desenrolar das rodadas, o público foi embarcando mais na brincadeira e grandes performances foram reveladas, não só de figuras masculinas, mas também femininas como a designer Passsoca (sic), que atua na criação publicitária da organização. Ela foi voluntária em outras edições do bingo, mas performou pela primeira vez com o público nesta.
“Gosto muito do evento. Muitas pessoas que nunca vieram à Casa 1 acabam conhecendo por causa do Bingo. A vibe toda do galpão muda”, declarou.
[inserir vídeo de passsoca abrindo leque]
Seu colega na mesa de recepção, Deco, declarou frequentar o Drag Bingo desde a primeira edição, quando ainda não era voluntário na Casa. Ele, que atua na Biblioteca Comunitária Caio Fernando de Abreu, a 300 metros do galpão, auxiliou a organização do evento pela primeira vez, e acabou performando junto ao público como Mingau de Brócolis.
[Inserir foto de Mingau perfomando]
No decorrer da noite, se apresentaram também a rainha amazônica Tristan Soledade, participante do Drag Race Brasil, que performou a dramática ”Espumas ao Vento” e Alyssah Hernández, autointitulada “uma das maiores drags do Brasil”, que apresentou um show erótico com figurinos franjados.
[Inserir carrossel com apresentações de Tristan e Alyssah]
Política
A presença das drag queens na cultura LGBTQIA+ é histórica e politicamente significativa. O termo “drag”, que teria surgido no século XIX, é uma abreviação de dressed as a girl (vestido como uma garota), usado inicialmente no teatro para designar homens que interpretavam papéis femininos. Com o tempo, a prática se consolidou como expressão artística e identitária com representações femininas caricatas carregadas de sarcasmo, que pode ser interpretada por pessoas de qualquer gênero.
Nos Estados Unidos, as drags estiveram na linha de frente de importantes lutas por direitos civis, como a Rebelião de Stonewall, em 1969, marco da resistência contra a violência policial em bares frequentados por pessoas fora do padrão cisheteronormativo. No Brasil, a tradição dialoga com o teatro de revista, os bailes de carnaval e o transformismo, consolidando nomes como Rogéria e Silvetty Montilla e, atualmente, artistas como Pabllo Vittar e Glória Groove.







