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Números que têm fome: onde fica a insegurança alimentar em São Paulo?

Mesmo sendo a cidade mais rica do Brasil, São Paulo abriga uma dura realidade: mais da metade de seus habitantes enfrenta algum nível de insegurança alimentar. Em bairros periféricos, a fome se torna rotina e os números frios das estatísticas ganham rostos e histórias de quem luta diariamente para garantir o que comer. Divulgado em setembro de 2024, o I Inquérito sobre a Situação Alimentar no município de São Paulo revelou que pouco mais da metade da população vive em algum nível de insegurança alimentar, sendo que a grave ou severa afeta cerca de 12,5% do total. Aproximadamente 72% das pessoas em situação extrema residem nas áreas mais periféricas do município: 446 mil, na Zona Leste.

A fome que mora na periferia

No extremo Leste da capital, a 350 metros da Estação Guaianases, os números se materializam. Em uma modesta fila em frente a uma unidade do Bom Prato, Eva Aparecida e sua filha adolescente Priscila Oliveira, aguardam o almoço vendido a preço popular, um real. Elas procuram um local acessível e digno para se alimentar. “Às vezes o feijão acaba, tem que cozinhar e dá trabalho com esse calor abafado. Aqui é fresquinho, não precisa cozinhar. Só chegar e comer”, relata a mãe.

Ao ser questionada da escolha do restaurante, Eva relatou começar a frequentá-lo quando passava por dificuldades financeiras e fazia bicos como catadora de materiais recicláveis. “Eu não tinha emprego nenhum para trabalhar. A reciclagem eu vendia, mas nem sempre dava para vender. Eu não tinha nada em casa. Aí quando me pagavam, eu vinha comer aqui”, revela.

Nem tudo é fome, mas tudo é insegurança alimentar

Eva está entre 1,5 milhão de pessoas (13,5%) da capital paulista em insegurança alimentar moderada, ou seja, enfrentam a redução da quantidade de alimentos, de acordo com a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). Para entender melhor a diferença entre leve, moderado e grave, o economista e pesquisador do Instituto Fome Zero, João Pedro Magro, explica que a insegurança alimentar moderada está relacionada a uma restrição nutricional. “Os indivíduos de um domicílio não estão fazendo alguma das três refeições diárias, o que indica um nível de restrição mais aprofundado”, completa.

Segundo João Pedro Magro, a insegurança alimentar leve ocorre quando os moradores de um domicílio percebem que podem enfrentar dificuldades para se alimentar no futuro. Por sua vez, a grave ou severa “tem um indivíduo que não come por um dia inteiro”. Situação que o morador do Jardim Fanganiello, em Lajeado, Gilberto Nascimento, já enfrentou.

O impacto do desemprego na insegurança alimentar

Trabalhador de construção civil, atualmente está desempregado, segundo ele, por conta de sua idade. “A gente chega aos 50 anos e eles (empresas) nos descartam, já não querem mais, querem pessoas novas. Tenho experiência em várias áreas, mas isso parece não ter valor no mercado de trabalho”, completa. Gilberto tem tentado conseguir uma nova ocupação fixa e busca auxílios do governo para manter o mínimo de estabilidade financeira, mas por enquanto sobrevive apenas de trabalhos informais, que não geram valor suficiente para pagar sua alimentação. “Tem vezes que eu não tenho um real no bolso, aí eu peço para os meus colegas, né? Quem pode arrumar, arruma, quem não pode… Isso é uma humilhação”, completa.

Acompanhando Gilberto, o amigo e vizinho Edivaldo Gonçalves, conhecido como Lau, se emociona e conta que o trabalhador de construção civil paga seu almoço quando ele não encontra nenhuma moeda. Os parceiros se ajudam como podem.

João Pedro Magro explica que o mercado de trabalho está diretamente relacionado com a insegurança alimentar. “No estado de São Paulo não estamos conseguindo ter um mercado de trabalho em que a remuneração praticada, seja ela informal, autônomo ou formal, tenha a renda auferida suficiente para essa população, principalmente para a população mais pobre”, pontua.

Em tom descontraído, Lau pediu para ser gravado enquanto fazia um rap freestyle sobre o restaurante popular.

O que pode ser feito para mudar esse cenário?

O I Inquérito sobre a Situação Alimentar no município de São Paulo aponta que os auxílios sociais disponíveis, como o Bolsa Família, o auxílio-gás e ações de doação de alimentos não têm sido suficientes para alcançar os domicílios em insegurança alimentar moderada e grave. João Pedro explica que existem mais alternativas para lidar com a situação. “Você já tem uma diversidade de estratégias, é sabido que o combate à fome e a insegurança alimentar, ela parte é de alguns pilares. Como assegurar a renda, ou seja, o direito ao acesso à renda para que essa pessoa consiga acessar os alimentos, garantir a produção de alimentos em diversidade e de forma sustentável, também é uma das formas de você estimular e combater a fome de uma maneira estruturada”, comenta.

Apesar das políticas públicas de enfrentamento não serem o suficiente para a mudança da situação alimentar na capital, elas ainda causam um impacto benéfico na população. Elizauro Santos, por exemplo, viúvo e ex-taxista, que atualmente faz bico como Papai Noel, conta com auxílio do governo e elogia o programa de restaurante popular, afirmando que “muita gente certamente padeceria sem a existência do Bom Prato.” Santos, que também é estudante de direito ainda lamenta que o restaurante comunitário não funcione aos domingos, um dos problemas recorrentemente citados em relação ao programa. “É uma pena que o Bom Prato não funcione aos domingos. Muitas pessoas não terão alternativas e podem acabar passando fome”, relata.

João Pedro conclui, que apesar a eficácia das iniciativas, o contexto atual depende da parceria público-privada para combater os diferentes níveis de insegurança alimentar. “Não há como assegurar a segurança alimentar nutricional, sem assegurar o direito humano à alimentação (…) No Brasil a gente tem isso assegurado pela da Constituição, e o estado está lidando com os direitos dos cidadãos”, explica ele, que segue responsabilizando o setor privado por ser encarregado de uma “participação importante nisso, que é justamente na prática de preços relacionados ao mercado de trabalho e os pagamentos de salários, oferecendo também, em contrapartida, trabalhos que sejam suficientes para que esses indivíduos terem acesso a oferta de alimentos.”

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