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O coração do skate no centro de São Paulo

Por Breno Shoji, Daniel San Juan, Leonardo Gibram e Alex Gabriel

 

Nos últimos anos, o skate conquistou uma popularidade crescente no Brasil, impulsionado em grande parte pelo brilho dos skatistas olímpicos, que trouxeram 5 medalhas para o país nas última duas edições de olimpíadas. Esse fenômeno é especialmente evidente em São Paulo, no centro da cidade. Desde então vários parques de skate têm surgido ou sido revitalizados, com destaque para o Vale do Anhangabaú, que, antes de se tornar um ponto de encontro vibrante para skatistas, esteve à beira da demolição devido a um projeto de renovação urbana.

A história do Anhangabaú é marcada pela resistência. Quando a prefeitura anunciou a possível demolição da pista, skatistas locais se mobilizaram para salvar o espaço. Entre eles, Murilo Romão, atleta profissional de 35 anos, que começou a praticar o esporte em 2000 com um skate emprestado do irmão. “Eu comecei brincando, mas logo estava andando todo dia”, conta. O Anhangabaú, que ele conhecia inicialmente por fotos, logo se tornou um local frequente em sua rotina.

Murilo destaca a importância do Anhangabaú para a cena do skate em São Paulo, no Brasil e até mundialmente. “Antigamente, a galera se reunia em poucos lugares e o Anhangabaú era um deles. Lá, o pessoal se encontrava para compartilhar experiências e evoluir juntos”, explica. Essa notoriedade fez do Vale um ponto de referência internacional no mundo do skate.

Por volta de 2015, no entanto, surgiram rumores de que a prefeitura planejava demolir a pista. Quando as obras começaram em 2019, o temor dos frequentadores se confirmou. “A princípio, achamos que só reformariam o chão, mas logo disseram que iriam destruir tudo”, relembra Murilo. A resposta dos skatistas foi imediata: organizaram protestos, lançaram campanhas nas redes sociais e até criaram uma petição online. A mobilização culminou em um protesto em frente à prefeitura, que ganhou atenção midiática, incluindo de veículos internacionais. A pressão deu resultado, e em agosto de 2019, a demolição foi cancelada.

Para Murilo, a importância do skate na preservação dos espaços urbanos é clara. “O skate pode ajudar na manutenção, pois onde tem movimento, tem segurança”, afirma. No entanto, ele lamenta que a prefeitura ainda não compreenda plenamente as necessidades dos skatistas. “Não adianta criar uma pista que não tem a ver com a galera. Eles precisam entender a relação entre o território e os skatistas”, critica.

Essa conexão entre o skate e a revitalização urbana é visível em diversos lugares, como na Praça Roosevelt, outro espaço em São Paulo redescoberto pelo público através do skate. “O impacto positivo que o esporte teve ali é surreal, o centro tem se tornado um lugar melhor com a presença do skate.”

Felipe, jovem de 15 anos, também é um amante do skate e frequentador do vale. Começou sua jornada desde criança impulsionado pelo pai, que sempre está com o skate nos pés. “Ando de skate desde sempre, meu pai sempre me traz aqui para se divertirmos e passarmos um tempo juntos.”

Embora o Anhangabaú seja gerenciado pela iniciativa privada, que organiza aulas gratuitas para crianças e outros eventos culturais, Murilo acredita que ainda há espaço para melhorias. Ele sugere que a segurança da pista seja reforçada, especialmente após o aumento recente de assaltos na área. “No começo era bem seguro, mas agora precisamos de mais atenção à segurança”, observa.

Ao longo de seus vinte anos de carreira no skate, Murilo viveu experiências memoráveis, muitas delas em viagens a destinos icônicos do skate mundial, como Nova Iorque, São Francisco e sua cidade favorita, Barcelona. Mas apesar de ter rodado o mundo com o skate em seus pés, o lugar que tem o coração de Murilo é o Vale do Anhangabaú, não à toa produziu dois livros (Vale Img e Vale Txt) e o documentário (Valeros) sobre a importância do vale para o cenário do skate.

Para Murilo, o skate oferece mais do que adrenalina e manobras radicais; é uma fuga do mundo digital que consome os jovens de hoje.“A juventude está presa no celular, e o skate é uma forma de se libertar disso.” Além disso, o skate promove a socialização e a atividade física, algo que ele considera essencial. “É importante aproveitar o momento, fazer uma atividade física e curtir a cidade. É isso, aproveitar mais os espaços públicos e sair dos lugares fechados.”

O skate não é apenas um esporte. É uma forma de viver, explorar e se conectar com a cidade e as pessoas ao redor. A história do Anhangabaú é apenas um exemplo de como essa cultura pode transformar e preservar espaços urbanos, unindo comunidades em torno de um propósito comum.

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