Uma das regiões mais emblemáticas da cidade de São Paulo reflete discussões públicas que vão da política à cultura.
Por Amanda Rocha, Fernanda Kitasaua, Jean Werneck e Tainá Fonseca
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Inaugurado em 1892, o Viaduto do Chá, localizado entre o Shopping Light e o prédio da Prefeitura Municipal de São Paulo, no miolo do centro da capital paulista, é um dos pontos turísticos mais relevantes da cidade de São Paulo. E mais do que revelar histórias do passado, o local é permeado de personagens e fatos do presente, que acabam por refletir um microcosmo do centro da maior metrópole do país.
Dentre a multidão de pessoas que passam diariamente pelo Viaduto do Chá está a professora de História, Sílvia Ferrero. Ela comenta a importância do viaduto para a cidade. “Ele é simbólico por diversos motivos. É simbólico pela presença da Prefeitura, pelo fluxo de pessoas que passam por aqui, pela história e também pela cultura”, explica a docente que escolheu o local para fazer uma pesquisa de opinião da população sobre a presença de mulheres no governo municipal.
Para a assessora de comunicação, Ketlyn Maissa, que também passa com frequência pelo viaduto por trabalhar na região, o fato de a sede da Prefeitura estar situada ao lado do Viaduto do Chá é estratégica. “Acho que a ideia da Prefeitura ser aqui é para que ela seja aberta ao público.” Ela lamenta o fato de, na prática, isso nem sempre se consolidar. “A prefeitura está aqui por ser um lugar que é mais acessível para todas as pessoas, mas ela não é tão acessível assim. É uma falsa acessibilidade”, completa.
Corroborando a opinião de Ketlyn, Silvia Ferrero comenta que, para ela, as grades que ficam ao redor do prédio são intimidadoras e pouco convidativas para que o público conheça o espaço. “O ideal seria que a Prefeitura tivesse uma entrada aberta à visitação com exposições de arte. A questão do espaço público em São Paulo está tendo sua importância diminuída”, critica.
A atmosfera política do local ainda é intensificada por banners (estendidos nas duas laterais do Viaduto do Chá) de diferentes candidatos à Prefeitura da cidade, dentre eles Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL), que aparecem na liderança das pesquisas de intenção de voto.
Falar sobre o Viaduto do Chá é também falar sobre cultura
Arthur Cyrandeiro e Jovane Almeida são artistas circenses e diariamente praticam acrobacias no aparelho Roda Cyr no Vale do Anhangabaú, que fica embaixo do Viaduto do Chá. “A gente escolheu treinar por aqui pelo mesmo motivo que a galera vem andar de bicicleta, de patins ou dançar; o espaço é amplo e o chão tem a textura ideal para o nosso tipo de treino.”
Arthur foi professor de circo do Vale do Anhangabaú nos últimos dois anos e ambos são vinculados a algumas companhias de circo de São Paulo, apresentando-se em lugares como a Fábrica de Cultura e unidades do Sesc (Serviço Social de Comércio) da região. “Nas companhias de hoje a gente é contratado e recebe por apresentação feita, como trabalhos freelancers. Em datas comemorativas como o Dia das Crianças ou o Natal sempre aparecem muitas oportunidades”, disse Jovane.
Os dois ainda comentam sobre a disparidade de oferta de emprego entre a baixa e a alta temporada. “Como é a vida do artista fora da alta temporada? O que nós fazemos para sobreviver nessa realidade?”, brinca Jovane se questionando. O Viaduto do Chá ainda tem outras ações culturais promovidas pelo Teatro Municipal de São Paulo.
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A segurança no viaduto e em seu entorno
A região ao redor do Viaduto do Chá e do Vale do Anhangabaú tem um policiamento reforçado durante o dia, período mais frequentado dos espaços públicos. Já pela noite o cenário é outro. “A noite aqui é mais caótica. A presença da polícia é reduzida e a quantidade de pessoas em situação de rua e pedintes aumenta, o que deixa o clima mais tenso”, observa Jovane. Para a dupla de artistas circenses, o viaduto e o vale poderiam ser um lugar seguro e agradável para todos os que frequentam, independentemente de ser dia ou noite.
“O policiamento nem sempre é a melhor solução, porque a gente, o pessoal que dança ou anda de bike e fica mais próximo do viaduto, não costuma ter ponto de atrito com a GCM (Guarda Civil Municipal), mas os skatistas que ficam na parte de baixo do vale têm mais problemas pela abordagem truculenta dos guardas com a criançada”, explica Arthur. Ele também diz que já presenciou brigas entre os guardas e os skatistas que achou que fossem acabar em violência física.
O Viaduto do Chá, dessa forma, tem sua identidade formada pelas histórias e opiniões de todos que estão em sua circunvizinhança. Ele acaba sendo um agente identitário do centro de São Paulo.





