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Um passeio entre túmulos

Cemitério da Consolação reúne arte, história e cultura

por Raquel Lumena, Rebecca Rachel e João Malandrin

“Vocês estão pisando em um solo minado de história.” É assim que os visitantes e curiosos são recebidos por Francivaldo Almeida Gomes, o carismático guia que realiza o tour guiado pelo Cemitério da Consolação, e que é popularmente conhecido como Popó. 

Com a abertura de seus portões em 10 de julho de 1858, mas inaugurado somente em 15 de agosto do mesmo ano com o primeiro sepultamento, o primeiro cemitério municipal da cidade de São Paulo foi construído com a necessidade de enterrar os mortos fora de igrejas por questões sanitárias. Popó conta que na época havia um surto de Varíola em São Paulo, e enterrar os mortos em locais de grande circulação de pessoas tornou-se muito arriscado. “Inspirado por costumes europeus, a ideia era estabelecer um local aberto e mais afastado do centro da cidade para realizar os sepultamentos”, esclarece, enquanto caminha conosco e outros visitantes pelo cemitério.

Estátuas suntuosas, mausoléus cuidadosamente esculpidos e lápides com nomes famosos são a paisagem para quem visita hoje o Cemitério da Consolação. Localizado no bairro de Higienópolis, quem passa a pé pela calçada permeada de muros altos não faz ideia que está a poucos metros de um museu a céu aberto que abriga tanto da história da capital. 

“A arte tumular é livre em termos políticos”, explica a pesquisadora e crítica de arte Carolina Vigna, que leciona no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Presbiteriana Mackenzie e tem doutorado na área de História da Arte. Uma estátua urbana não pode ser fincada de qualquer forma, deve-se estar de acordo com a política vigente no local. “Porém, no cemitério a arte e o artista estão livres para criar e se conectar com a família”, acrescenta a professora.

Segundo Popó, o cemitério no passado sofreu preconceitos dos nobres por estar localizado no meio do mato, com animais pastando e perto da estrada que levava à cidade de Sorocaba. Hoje é considerado um dos mais luxuosos da capital paulista. Abriga mausoléus das mais importantes e ricas  famílias da cidade de São Paulo. Obras de arte de artistas renomados como Victor Brecheret fazem parte do cenário e não é difícil encontrar túmulos de celebridades que revolucionaram a história da cidade. 

Atualmente, o local acumula cerca de 8500 túmulos, em uma área equivalente a de três campos de futebol, e aproximadamente 300 obras de artistas famosos, entre brasileiros e estrangeiros.

O guia Popó reúne os visitantes ao seu redor e inicia o tour mais bem humorado possível que um cemitério poderia ter. Em meio a curiosidades históricas e lápides antigas, o senhor de chapéu, microfone portátil e baixa estatura, é uma figura cheia de vida que se destaca entre os suntuosos mausoléus. Com o vocabulário recheado de grandeza e uma memória admirável, Popó conduz os curiosos por entre os túmulos mais relevantes e cheios de história. Conta sobre a vida e morte de políticos até comuns com grandes feitos e polêmicas. Celebridades, acadêmicos, marechais e escritores se encontram a poucos metros de distância, em seu descanso final.

Mardson Soares Santos, de 32 anos, mora em Brasília e está pela segunda vez em São Paulo. Entusiasta de cultura e arte, relata que já visitou outros cemitérios apenas por curiosidade, acha interessante pelas personalidades. Ele conta que visitou o Cemitério de Goiás apenas para ver o túmulo de Cora Coralina. “Pesquisei na internet por tours em São Paulo e fui cativado pela Visita Guiada no Cemitério da Consolação. Gostei de poder apreciar os imponentes mausoléus, como o da família Matarazzo e da família Jafet, fundadora do Hospital Sírio Libanês”, diz. 

Durante todo o percurso, o carismático guia interage com os visitantes e pergunta diversas vezes se tem alguém com medo. Explica sobre a santa popular dos vestibulandos, do singelo túmulo de Tarsila do Amaral, do inusitado casamento de Oswald de Andrade no cemitério e até mesmo do maior Mausolėu da América Latina, que corresponde a uma altura equivalente de um edifício de três andares e pertence à família Matarazzo.  

Popó em frente ao maior mausoléu da América Latina, pertencente a família Matarazzo.

Com sua varinha, Popó aponta com cuidado e respeito para cada detalhe que poderia passar despercebido nas construções tumulares. Conhece o cemitério como a palma de sua mão. Fala de cada falecido como se fosse um velho conhecido, e perpetua a história do cemitério como se assim deixasse seu legado. 

Sua história com cemitérios vem de anos atrás, de sua infância no Ceará, quando passeava de bicicleta com seus amigos por dentro dos cemitérios. Seu passatempo era procurar as lápides mais antigas, e talvez venha daí a sua familiaridade com histórias póstumas. Mais velho, trabalhou como sepultador e foi assim que foi parar no Cemitério da Consolação. Começou a garimpar a história do cemitério há muito tempo e foi aprendendo muito sobre a famosa necrópole. 

Popó, o condutor da visita guiada.

O passeio guiado repleto de história no cemitério da Consolação acontece toda segunda-feira à tarde, com a supervisão da Prefeitura. Essa prática de visitar os cemitérios para conhecer um pouco mais sobre a cultura de determinadas regiões e, em alguns casos, visitar túmulos de pessoas famosas é chamado de necroturismo.

NECROTURISMO 

O necroturismo é um turismo no qual as pessoas visitam locais relacionados à morte, como cemitérios, mausoléus ou locais históricos de desastres. O aspecto soturno desses ambientes, faz os mais curiosos se aventurarem por entre lápides e encontrarem um universo cheio de história. 

Mas apesar da riqueza cultural, o necroturismo traz consigo uma bagagem cheia de lendas urbanas e preconceitos, o que faz muitos olharem com medo ou com maus olhos quem o pratica. 

Maria Ângelo e Taís Moura, ambas de 26 anos e naturais de São Luís do Maranhão, estavam a passeio em São Paulo e decidiram fazer a famosa visita no Cemitério da Consolação. Maria conta que foi chamada por Taís para ir conhecer o cemitério, e assume que, apesar de gostar de história, tem muito medo de espíritos: “Desde que o tour não fosse à noite, eu iria”. E foi assim que as duas foram parar em uma tarde de segunda-feira no cemitério mais famoso do centro de São Paulo.

Maria e Taís, respectivamente.

“Há muito tempo eu estava querendo fazer esse passeio aqui no Cemitério da Consolação, porque a gente sabe que é um berço histórico. Apesar da feição de um cemitério, ele é realmente um museu a céu aberto”, conta Taís. Após a visita, ainda ressalta que o tour faz as pessoas olharem para o cemitério de uma outra forma, e que o guia faz o ambiente se tornar mais leve.

 

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