A resistência da cultura judaica na cidade mais movimentada do país.
Por João Malandrin, Raquel Lumena e Rebecca Rachel
“Podem nos expulsar de muitos lugares, mas não podem nos tirar nosso conhecimento. É assim que nos reerguemos.”
A fala forte é da judia praticante Larissa Elimelek, que trabalha como guia do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, localizado na Rua da Graça, no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo.
O Brasil tem a segunda maior comunidade judaica da América Latina (atrás apenas da Argentina) e a 11ª no mundo. No estado de São Paulo há a maior população judaica do país, cerca de 71 mil de judeus (incluído descendentes étnico-raciais), segundo a Confederação Israelita do Brasil (Conib).
Os bairros do Bom Retiro e Higienópolis têm uma forte ligação com a comunidade. Foi neles que os imigrantes judeus buscaram abrigo dos horrores da Segunda Guerra.

Larissa Elimelek explica que houve imigração judaica para o Brasil desde 1500, com o início da colonização do país por parte dos portugueses. “A cultura que os judeus possuem de valorização do estudo e do trabalho fizeram eles serem requisitados nas grandes navegações”, diz. Ao longo da história diversas situações de perseguição levaram os judeus a se deslocarem para outras nações.

Gabriel Guillen, estudante universitário em Higienópolis e descendente de judeus, conta que mesmo sua família não perpetuando tanto as tradições dentro de casa, ele se lembra das histórias relacionadas à fuga de seu bisavô e de seu avô para o Brasil, por volta de 1933, ano em que os nazistas assumiram o poder e Hitler foi nomeado primeiro-ministro da Alemanha. “Depois que descobri o significado nunca mais tirei essa corrente que meu avô me deu”, destaca Guillen.
O local onde se situa o Memorial do Holocausto já abrigou um dia a primeira sinagoga registrada em São Paulo. O bairro do Bom Retiro se tornou um importante núcleo da comunidade judaica na primeira metade do século XX.
Localizada entre o Rio Tietê e a ferrovia (Estação da Luz), a região era um ponto de parada dos trens que vinham da serra em direção à capital. Imigrantes de várias nacionalidades, incluindo judeus da Europa Oriental, se estabeleceram no bairro. Os judeus, falantes de iídiche, chamavam o Bom Retiro de “pequeno shtetl”, em referência aos vilarejos de onde vieram. Reconstruíram no bairro uma parte de sua vida e cultura, criando uma comunidade vibrante no centro de São Paulo.
Com o passar dos anos os judeus foram se desenvolvendo e fundando outras sinagogas. Higienópolis, por exemplo, abriga de 20% a 40% dos judeus paulistanos, um universo que segundo a Federação Israelita do Estado de São Paulo abrange 12 mil das 60 mil pessoas que formam a comunidade. O bairro possui prédios especificamente projetados para pessoas judias, apresentando os chamados elevadores-shabat, programados para parar em todos os andares no período do Shabat. Para os judeus ortodoxos, o Shabat é um dia de descanso absoluto. Não se pode usar energia elétrica, andar de carro, de elevador, acionar ou comandar qualquer equipamento eletrônico e mexer com fogo. As restrições vão da noite da sexta-feira ao fim da tarde de sábado.
Higienópolis recebeu muito bem os judeus e atualmente possui 11 sinagogas e cerca de meia dúzia de restaurantes de comida kosher, que são alimentos que obedecem as regras de alimentação que seguem a Torá. A Padaria Kez, localizada na rua Sabará, se tornou famosa por sua culinária típica judaica e arquitetura aconchegante, mesmo não sendo comida propriamente Kosher.

Alan Niski, dono da Padaria Kez e de família tradicional Judaica, diz que a escolha por Higienópolis se deu por ser um bairro com muitos judeus que já conhecem os pratos judaicos. “Além disso, é um bairro denso com fluxo tanto de pessoas que trabalham quanto que moram na região” , acrescenta.
São Paulo é rico em misturas culturais de diversas nacionalidades, e os judeus cooperam para a formação paulistana e brasileira.
*Crédito das fotos: autores da reportagem.










