“Aqui todos os dias acontecem pequenos milagres.”
Por João Malandrin, Raquel Lumena e Rebecca Rachel
São Paulo é um destino comum para refugiados por ser uma cidade com muitas oportunidades de trabalho, qualidade de vida e estudos. Segundo a Prefeitura de São Paulo, em junho de 2024, a rede de acolhimento municipal atendia cerca de 2.573 pessoas, das quais 1.243 se declararam refugiados. Muitos vêm ao centro em busca de uma esperança, mas acabam passando dificuldades e momentos extremamente difíceis. Ao chegarem nos aeroportos paulistanos, fugindo das suas próprias nações, são acolhidos por abrigos na região central da capital paulista. Na maior parte do tempo a Prefeitura não consegue suprir toda a demanda da realidade da cidade, e as ONGs desempenham um papel primordial.
Localizada na Rua Baronesa de Itu, 639, na Santa Cecília, a BibliASPA é sede de um dos projetos sociais mais influentes e nobres com mulheres árabes, africanas e sul americanas. Em 2003 essa ONG foi fundada em um casarão tombado como patrimônio histórico. O que começou como um centro de pesquisa, hoje se tornou a maior biblioteca de livros árabes de São Paulo.
Durante um período conturbado quando Israel atacou a Síria, a instituição encontrou a necessidade de acolher refugiados e começou a dar aulas de Português para imigrantes aos sábados. Com o passar do tempo, foram recebendo mais e mais imigrantes, vindos dos mais diversos lugares como América Latina, África e Oriente Médio.
Além das aulas de Língua Portuguesa, a BibliASPA oferece às mulheres refugiadas café da manhã, almoço e café da tarde todos os dias da semana, além de muitas aulas ligadas a ofícios como culinária, costura e bijuteria. Em 2023 houve um projeto, em parceria com a secretaria municipal de Direitos Humanos e Cidadania e com uma emenda parlamentar aprovada na Câmara Municipal de São Paulo, de acompanhamento e integração intercultural para famílias afegãs e imigrantes. A BibliASPA ultrapassou seu propósito primordial de pesquisa e aulas de Português para se tornar um berço de cuidado, proteção e inserção de mulheres refugiadas na sociedade brasileira.

O dia na BibliASPA começa às dez horas da manhã e vai até quatro horas da tarde com diversas atividades e aulas de segunda a sexta, com o foco apenas em mulheres. Julia Sena, estudante de Geografia na USP e voluntária da Bibliaspa desde 2022, explica que conheceu a casa por conta de um professor que sempre levantou a bandeira dessa ONG. “Fiquei muito interessada no projeto e mandei um email, na semana seguinte já estava dando aula”, diz. Ela também conta que o objetivo é que as mulheres se desenvolvam e comecem uma vida nova, que elas se sintam seguras de fazer isso de forma independente.

Além de tudo isso, a instituição oferece algumas aulas em parceria com outras empresas e ONGs para as alunas, como cursos no Senac e na Ohquideia, em que as estudantes salvam orquídeas que estavam largadas ou quase mortas e fazem kokedamas com as flores, isso nada mais é que uma bolinha de musgo com a planta suspensa dentro. Com esse trabalho, as alunas recebem um valor, que muitas vezes pode ajudá-las a se manter.
A BibliASPA também faz eventos, vendas em um bazar e recentemente inaugurou uma loja chamada Nova Raiz, que vende perfumes, colares, pulseiras, entre outras coisas manuais feitas pelas próprias alunas nas aulas realizadas dentro da ONG, que também permite o seu respectivo sustento.

O foco da BibliASPA segue sendo o ensino de Português. Atualmente, são aproximadamente 160 mulheres cadastradas. Mas, dentro desse número existem diversas histórias e muitas famílias que ensinam aos voluntários todos os dias. Realidades das mais diferentes que clamam por ajuda, pois algumas dessas mulheres não foram alfabetizadas nem em suas próprias nações. “Algumas alunas tiveram pela primeira vez a oportunidade de ter um caderno e um lápis, o que implica em muitos desafios de se tornarem independentes aqui”, explica Joyce Schiavinato, analista de sistemas e voluntária desde 2023.
A maior dificuldade da BibliASPA, e da maioria das ONGs, é a parte financeira, já que são instituições sem fins lucrativos. O gestor e gerente operacional da BibliASPA Militino Joaquim de Souza Neto, carinhosamente apelidado de Tino, conta como a instituição se mantém. ”A gente vive de doações e algumas emendas parlamentares, que não são frequentes e às vezes nem anuais.”
Outra forma de sustento é por meio da nota fiscal com o CNPJ da Bibliaspa, mas isso não supre tudo e as empresas ou pessoas que doam dinheiro, roupa, móveis e alimentos também fazem diferença.
A bibliASPA é apenas um exemplo dentre muitas ONGs que buscam promover cuidado e ajuda para refugiados no centro de São Paulo. Essas entidades transformam vidas e famílias inteiras. Como aconteceu com Rawan All que não só aprendeu Português fluente e se formou no ensino médio, mas também se tornará dentista em breve. Ela ingressou na faculdade de Odontologia. “A língua é a parte mais difícil, mas quem quer consegue. Não tem o que fazer, precisa vencer a vergonha e falar”, conta Rawan.





