“O Cine Marabá é, sem dúvida, um símbolo da resistência dos cinemas de rua de São Paulo. Se hoje eles são tão poucos, nos anos 40 e 50 eram predominantes”, afirma Julio Simões, jornalista e autor do livro ‘’Cine Marabá – O cinema do coração de São Paulo’’. Localizado no centro da cidade, o Marabá é mais do que um espaço de exibição de filmes: é um monumento histórico e uma testemunha viva das transformações culturais e sociais que marcaram São Paulo.
Lançado no auge da “Cinelândia Paulistana”, na Avenida Ipiranga, quase esquina com a Avenida São João, o Marabá permanece como um dos últimos representantes dessa era. Apesar das diversas fases e desafios ao longo dos anos, o cinema preservou sua essência e evoluiu junto com o mundo contemporâneo.
A origem
Inaugurado oficialmente em 20 de maio de 1945, o Cinema Marabá foi projetado para ser um símbolo de sofisticação e luxo no centro de São Paulo, evidenciando o auge da indústria cinematográfica, conhecida como a Era de Ouro dos Cinemas. Com capacidade para 1.655 pessoas em uma única sala, o Marabá foi criado pelo empresário Paulo de Sá Pinto, da Empresa Paulista Cinematográfica, com o objetivo de competir com o monopólio do espanhol Francisco Serrador, que dominava o circuito de cinemas na cidade.
A arquitetura do Marabá, com seu hall de entrada de pé-direito altíssimo, colunas imponentes e um lustre vistoso, rapidamente o consolidou como um dos favoritos da elite paulistana. “O Marabá se tornou uma das salas mais importantes da cidade por sua arquitetura marcante, características preservadas até hoje, graças ao tombamento histórico do prédio”, explica Julio Simões.
Nos anos 40, a região central de São Paulo, conhecida como Cinelândia Paulistana, abrigava grandes salas como o Marabá, o Cine Ipiranga e o Cine Marrocos, que exibiam tanto filmes de Hollywood quanto produções nacionais. Nessa época, ir ao cinema era um evento social importante. “Por sua localização privilegiada, próxima à Praça da República, o Marabá se tornou um dos cinemas mais populares da Cinelândia”, relembra Julio.
Com o passar dos anos, a concentração de cinemas no centro de São Paulo tornou a experiência cinematográfica acessível para muitos paulistanos, em meio a um período de grande efervescência cultural. “Naquela época, com a nossa condição, só conseguíamos pagar o ingresso. Não dava nem para comprar pipoca. Mas, quando entrávamos no Marabá, o ambiente era deslumbrante, muito elegante”, relata Eder Nilton, analista contábil, ao relembrar uma das suas primeiras idas ao cinema.
Os anos de ouro e o início da crise
Nos anos 80, Eder Nilton, então com 14 anos e morador da Freguesia do Ó, se aventurou de ônibus até o centro de São Paulo em direção ao Cine Marabá. “Era tudo muito elegante, com salas amplas e confortáveis”, relembra Eder, mencionando com carinho a estreia de O Cangaceiro Trapalhão, que assistiu no Marabá. Além disso, o que tornava o cinema ainda mais especial era a possibilidade de ver mais de um filme na mesma visita. “Depois, assisti Star Wars: O Retorno de Jedi. Foi uma experiência inesquecível.”
Nessa mesma década, o centro de São Paulo começava a sentir os efeitos da degradação urbana, e os cinemas de rua enfrentavam dificuldades. Muitos deles adaptaram suas programações para exibir pornochanchadas (filmes adultos), para sobreviver. No entanto, Paulo de Sá, gestor do Marabá, resistiu a essa tendência, mantendo uma programação de qualidade, voltada para filmes comerciais. Essa escolha preservou a essência do cinema e garantiu que o Marabá continuasse oferecendo uma experiência para todos.
Em 1999, Carlos Alberto Julião viveu uma experiência marcante ao assistir à estreia de Star Wars: A Ameaça Fantasma no Marabá. “Foi a primeira vez que assisti a um filme da saga, e fiquei impressionado com os efeitos especiais. Nunca tinha visto algo assim”, conta Carlos, relembrando a atmosfera envolvente do cinema. Para ele, o Marabá proporcionou uma experiência cinematográfica única, mantendo viva a magia do cinema mesmo em tempos de mudanças.
Apesar dos desafios, o Marabá permaneceu resistindo. Após a morte de Paulo de Sá, em 1996, a PlayArte assumiu a gestão e, entre 2007 e 2009, fechou o cinema para uma grande reforma. Essa foi a única vez que o Marabá interrompeu suas atividades para uma restauração, conduzida pelos arquitetos Ruy Ohtake e Samuel Kruchin. A modernização trouxe instalações atualizadas, mas sem comprometer o projeto arquitetônico original. Após a reabertura, Eder voltou ao cinema, “quando reinaugurou, fui de novo. Continua um cinema agradável, embora hoje tenha menos movimento.”
Atualmente, o Marabá, com suas cinco salas – a maior com 430 lugares e a menor com 122 –, é o único remanescente da antiga Cinelândia Paulistana que ainda exibe filmes do circuito comercial. Enquanto outros cinemas de rua foram transformados em estacionamentos, igrejas ou demolidos, o Marabá permanece como um símbolo de preservação cultural.
O jornalista Julio Simões escolheu o Cine Marabá como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (transformado posteriormente em livro) após observar a decadência das salas de cinema no centro de São Paulo. “Sempre gostei daquela página do jornal onde a programação dos cinemas era listada, e percebi que o número de salas no centro, antes conhecido como Cinelândia, estava diminuindo. O Marabá era o único que ainda funcionava, o que me despertou curiosidade. Resolvi então investigar a história do cinema e entender o que o mantinha de pé em um cenário de declínio.” Para Julio, o Marabá carrega um peso simbólico, representando tanto a era de ouro dos cinemas quanto a transformação do centro de São Paulo.
Mais do que um espaço para assistir a filmes, o Cinema Marabá é um símbolo da memória afetiva da cidade, conectando o passado ao presente. Ele representa o glamour dos cinemas de rua de antigamente, a resistência frente às mudanças e a capacidade de se reinventar. Em um mundo cada vez mais voltado ao consumo digital, o Marabá preserva a essência do cinema como um local de encontro, diversão e cultura, encantando gerações.
Nossa experiência
Animados pela importância histórica do Cine Marabá, decidimos assistir a um filme em uma quarta-feira à tarde. Embora o único título disponível naquele horário fosse um filme de terror, entramos assim mesmo, ansiosos para vivenciar o espaço. No entanto, a experiência deixou a desejar. A sala estava completamente vazia, o que gerou certo desconforto, não só pela falta de público, mas pela sensação de insegurança. O cinema, que já foi vibrante, agora parecia deserto e sem vida.
Notamos que alguns centros de pipoca estavam desativados, e a pipoca que compramos estava murcha e sem manteiga. O ambiente, em geral, parecia descuidado: as cadeiras estavam sujas e grudentas, e havia poucos funcionários, o que aumentou a sensação de isolamento. Por outro lado, o preço acessível do ingresso, apenas 15 reais, foi uma vantagem em relação aos cinemas de shopping, cujos valores são bem mais altos.
Mesmo com a experiência negativa, estamos nos planejando para voltar em um final de semana, esperando que a atmosfera seja mais animada e que possamos finalmente aproveitar o charme desse cinema-ícone da história paulistana.
Na nossa infância, o Cine Marabá era um espaço vibrante, cheio de vida, com filas longas e o aroma de pipoca no ar. Voltar agora e encontrar o cinema vazio foi desanimador. Ficamos chateados ao ver um lugar que antes simbolizava tanta energia e cultura agora praticamente abandonado, com salas desertas e cadeiras grudentas. Esse contraste nos fez refletir sobre como o ato de ir ao cinema perdeu parte de sua magia com o tempo, substituído por novas formas de entretenimento. Ver o Marabá assim nos deixou com a sensação de estarmos perdendo mais do que apenas um espaço, mas uma parte da memória cultural da cidade.





