Com antiquários, brechós, coleções e uma atmosfera nostálgica, a região central se tornou um verdadeiro refúgio para os que valorizam peças e objetos antigos.
Por Amanda Rocha, Fernanda Lima, Jean Werneck e Tainá Fonseca
O vintage não é apenas um estilo de moda ou decoração, é um fenômeno cultural que se alimenta da nostalgia e da busca por autenticidade em tempos onde quase tudo é padronizado. No coração da cidade que sempre busca inovações, ainda há espaço para admirar a beleza do passado, afinal por, trás de cada peça, há uma história, uma memória que nos leva a décadas passadas e que, agora, é carregada de novos significados. De acordo com o proprietário do Brechó Colmeia, Reginaldo da Luz, que fica localizado no bairro Santa Cecília, as pessoas gostam que as peças tenham história. “Nem sempre você sabe a história da peça. É difícil. Mas quando tem uma história, a gente sempre deixa reservadinha na cabeça e conta para o cliente, o cliente gosta.” Reginaldo destaca que as pessoas gostam de estabelecer vínculos afetivos com os objetos. “Quando chegam aqui, elas gostam de ver que eu tenho uma história para contar da peça. Assim ela se torna especial.”

Além da beleza e das memórias que um objeto pode carregar, existe o lado sustentável que esse movimento cultural traz, principalmente em um momento onde é tão importante o controle de lixo desnecessário, já que muitas vezes o que se vê é o descarte irresponsável de objetos e roupas usadas. “O ideal é reaproveitar até a peça se desintegrar, porque a gente já não tem mais recursos para ficar gastando isso à toa”, pontua o proprietário do brechó. Segundo dados de uma reportagem publicada em janeiro de 2022 na revista Exame, retiramos cerca de 60% a mais de recursos naturais que o planeta consegue recuperar em um ano; e até 2060 podemos chegar a consumir 190 bilhões de toneladas de material vindo da natureza. A sustentabilidade por trás dessa tendência é uma reflexão sobre como podemos, coletivamente, repensar nossos hábitos e encontrar soluções mais duráveis e responsáveis para o futuro.
A cultura vintage também traz consigo o mundo das coleções, o que não é apenas uma junção de itens, mas um projeto pessoal que envolve paixão, pesquisa e uma busca contínua por algo único. Existem diversos tipos de coleções, desde as mais comuns como discos de vinil, fitas-cassetes, bonequinhos, selos… Tudo é possível de ser colecionado se despertar seu interesse. De acordo com Fábio Jorge, gerente da Stock Cultural, uma loja de artigos de mídia física, muitos colecionadores procuram o estabelecimento. “Aqui já passaram colecionadores de todos os tipos, por exemplo, um colecionador só de Roberto Carlos, que faz questão, de ter o mesmo LP 50 vezes, porque o que foi lançado no ano de 1977 tem um selinho atrás do LP, que o de 78 não tem. Então, o colecionador é muito cheio de detalhes, muito metódico”, diz o gerente.
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As lojas de brechós, mercados de antiguidades e feiras de vinil, que se espalham pelo centro, não apenas resgatam o passado, mas criam um novo tipo de experiência urbana, onde o antigo se mistura com o novo. Nos últimos anos o centro de São Paulo vem passando por um processo de revitalização, que tem como objetivo mostrar um centro onde se utiliza arquiteturas do passado para inserir novos comércios, estruturas interativas e atrair um novo público, tentando desvincular o espaço daquela imagem de um “centro sujo e perigoso”. O assessor de imprensa e escritor do livro “São Paulo em Photos e Fatos”, Mauricio Coutinho, fala sobre a importância de um centro mais seguro para que a cultura vintage possa ser desfrutada. “A revitalização do centro pode torná-lo uma área mais acessível e agradável, atraindo tanto moradores de outras regiões quanto turistas. Esse aumento na circulação de pessoas beneficia diretamente os brechós e antiquários, pois aumenta a visibilidade desses estabelecimentos e atrai novos consumidores que buscam experiências culturais autênticas e históricas”. Ele também ressalta que a segurança e revitalização do centro podem impulsionar o empreendedorismo criativo e a economia local. “Esse clima de apoio ao empreendedorismo criativo atrai jovens empresários e entusiastas da cultura vintage, que veem a região como o lugar ideal para montar seus próprios brechós, antiquários ou cafés temáticos. Assim, o centro torna-se um polo de economia criativa voltada para a preservação cultural, o que estimula a diversidade comercial e contribui para o fortalecimento da cultura vintage.”


