Desde o encerramento das Olimpíadas, o skate tem sido rotulado como um esporte em destaque. Para seus praticantes, a questão vai além da competição. A rica cultura presente nessas atividades abrange um estilo de vida único, que abraça a liberdade de expressão, a criatividade e a comunidade.
No coração da cidade, o Vale do Anhangabaú solidificou sua posição como um dos maiores símbolos dessa cultura na cidade. Frequentadores relatam que o local não só se transformou em um ponto de referência crucial para a prática, mas também desempenhou um papel vital na construção de uma comunidade entre os entusiastas do esporte.
Vila Guilhermina, início dos anos 90. Heitor Neto, um jovem cuja aversão a esportes tradicionais era notória, encontrou sua verdadeira paixão e forma de expressão no skate. Contrariando o que muitos pensam, a prancha de madeira (shape) da época não possuía o design moderno que conhecemos hoje; não possuía extremidade definida (tail), e muito menos a parte de frente modelada (nose). Mesmo com sua estrutura modesta, a prancha sobre rodas mostrou-se capaz de conquistar o coração do jovem Heitor, que começou a engajar-se no esporte durante o início dos anos 90, tendo seu primeiro contato através do namorado de uma de suas tias. No entanto, foi em sua comunidade que a sua paixão realmente floresceu. Heitor uniu-se ao crescente grupo de entusiastas do skate na região, conhecendo pessoas como Nicolau, Pablo, Formiguinha e Mancha, que mantinham uma fábrica no local.
Essa comunidade frequentemente reunia-se para assistir a vídeos e discutir as manobras que eram executadas com sucesso apresentadas neles. Entre esses vídeos, um se destacou e se tornou uma verdadeira revolução para Heitor: o “Virtual Reality” da Plan B, lançado em 1993. Segundo ele; “Foi amor à primeira vista. Eu comecei a ver a maneira como eles faziam o skate acontecer lá, com as video parts e tudo. Fui muito influenciado mesmo por esse vídeo”. Para Heitor, aquilo representava mais do que apenas um hobby, era uma forma de libertação e uma maneira de expressar sua criatividade. A atividade tornou-se sua voz contra o sistema de ensino e a sociedade que o rodeava. Nas ruas, Heitor encontrou um espaço no qual poderia ser autêntico em torno de uma comunidade que compartilhava seus sentimentos e perspectivas.
Sidney Arakaki, de 49 anos, iniciou sua trajetória em 1988 e, após poucos meses, tornou-se completamente devoto ao esporte. Entretanto sua devoção enfrentou um obstáculo significativo: durante a administração de Jânio Quadros como prefeito de São Paulo, a prática do skate foi proibida. Sidney, então um jovem de 13 anos, vivenciou o impacto da proibição de perto. Sem pistas disponíveis em São Paulo, os skatistas eram forçados a improvisar, montando obstáculos nas ruas para que pudessem continuar dedicando-se naquilo que realmente amavam. Sidney buscou alternativas fora da cidade. Saindo da Zona Norte, ele viajava sozinho para São Bernardo do Campo, uma das localidades onde a prática ainda era permitida; “Eu saia da Zona Norte de madrugada, sozinho, aprendendo a andar de ônibus para passar o dia todo em outra cidade onde tinha pista e o skate ainda era legalizado.”
Nesse período a relação de Sidney com o skate era marcada pela adaptação a obstáculos urbanos e algumas poucas pistas no ABC paulista. Mas logo após a legalização em São Paulo, novas oportunidades surgiram, Sidney começou a se conectar com outros apaixonados pelo esporte e a praticá-lo na região central da cidade. A infraestrutura para o skate ainda era incipiente; o Vale do Anhangabaú ainda não existia e as opções eram limitadas a locais como a Praça Roosevelt, São Bento e pistas particulares. Mas isso não parou Sidney, a prática do skateboarding tornou-se muito mais do que um passatempo, deu uma direção à sua vida. Apesar das dificuldades escolares, ele encontrou uma vocação no jornalismo de skate, alimentando seu amor incondicional pelo esporte.
Já William Nascimento Silva, mais conhecido como Café, era apaixonado pelo skate desde cedo. Sua trajetória sofreu um abrupto desvio aos quinze anos, quando abandonou a prática após o falecimento do seu pai. Esse período de dor e perda quase fez com que o garoto abandonasse completamente o seu refúgio sobre quatro rodas. Café retornou um tempo depois com uma nova perspectiva, buscando não apenas a execução de manobras, mas um sentido mais profundo e emocional na sua maneira de se expressar. Durante esse período de recomeço, enfrentou desafios significativos; “Quando meu pai morreu, eu tinha muita coisa para resolver, entre assuntos sobre a casa e a herança, mas a única coisa em que eu pensava era terminar a escola, continuar trabalhando, ter minhas coisas para ajudar a minha mãe e também andar de skate. Só que no meio de tudo isso, minha cabeça ficou muito cheia, mas eu consegui voltar a andar de skate.”




