Abandono de animais dispara
Número de pets deixados nas ruas cresce, exigindo mais conscientização e políticas públicas eficazes
Caroline Callegari e Nathalie Gomes
O abandono de animais tem se tornado uma preocupação crescente em diversas regiões do Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, no país, existem cerca de 30 milhões de animais em situação de rua, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. O problema se agravou nos últimos anos, especialmente após a pandemia da Covid-19, quando muitas famílias enfrentaram dificuldades financeiras e não conseguiram manter seus animais de estimação.
Segundo um levantamento da Ampara Animal, entidade de proteção animal, o número de abandonos cresceu mais de 60% desde 2020. Entre os principais motivos apontados para a desistência dos tutores estão dificuldades econômicas, mudanças de residência e falta de planejamento ao adotar um animal.
Além do impacto emocional e físico para os bichos, o abandono também representa riscos à saúde pública, como o aumento da disseminação de doenças zoonóticas, entre elas a raiva e a esporotricose felina. Segundo o Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP), os animais em situação de rua estão mais expostos a maus-tratos, fome e atropelamentos.
Diante desse cenário, projetos de resgate e adoção de animais têm intensificado suas ações. O projeto “Aumigos do Theo” é um exemplo de iniciativa baseada no amor pelos animais. Composto por um grupo de 20 pessoas, o projeto realiza resgates, cuida dos animais até a adoção e busca parcerias para lares temporários. Um dos primeiros casos foi o resgate de um dálmata abandonado em uma chácara, que foi tratado, treinado e adotado por um veterinário. Atualmente, o grupo auxilia resgates, fornece suporte para adoções e contribui com ração e cuidados veterinários. “O que está acontecendo atualmente é que o abandono aumentou assim, consideravelmente, é impressionante o número de animais abandonados, maltratados, jogados”, afirma Fernanda Garrafa, integrante do projeto “Aumigos do Theo”.

Outra iniciativa de destaque é a “Aprogato”, uma associação fundada oficialmente em 2019, mas com atuação anterior no Parque da Aclimação. Com 30 voluntários, o projeto cuida da alimentação diária, troca de água e tratamento dos gatos abandonados no parque. Além disso, a associação trabalha no resgate de animais em situação de risco e promove campanhas de conscientização sobre a importância da adoção responsável.
“O abandono é sempre cruel. O desafio é fazer com que as pessoas entendam que essa é uma péssima prática. Em vez de abandonar, a pessoa deve procurar formas de conseguir um novo lar para o gato. Agora, essa ideia de transformar o bichinho em um objeto, pegá-lo hoje e, no Natal, decidir viajar e simplesmente descartá-lo em qualquer lugar é inaceitável. Isso não vale apenas para quem abandona no parque, mas também para quem o faz na rua ou para quem não cuida direito, deixando o gato sozinho em casa ao viajar. Tudo isso é horrível, e as pessoas precisam começar a refletir melhor sobre essas atitudes”, destaca Paulo Fasanella, voluntário da Aprogato.
Alexandra Takazono, também voluntária da Aprogato, reforça que o abandono aumenta consideravelmente durante os períodos de férias e festas de fim de ano. “Sim, nós percebemos que nos finais de ano e nas férias é o período que mais têm abandono, porque as pessoas, quando adotam um animal, não pensam que esse bichinho é parte da sua família e que, se todos da casa saírem, esse gato e esse cachorro vão precisar de alguém para cuidar. Normalmente, as pessoas não contabilizam isso. Essa, inclusive, é uma das perguntas que eu faço na adoção: ‘Quando você viajar, como vai ser o gato? Quem vai cuidar?’. Quem tem bichos precisa ter uma rede de apoio, um serviço de cat sitter, um vizinho, um parente ou um amigo que ajude. Mas é preciso ter essa responsabilidade.”
Ela também aponta a falta de políticas públicas voltadas para a conscientização e a castração como um dos fatores que contribuem para o aumento do abandono. “O Estado é omisso nessa responsabilidade da prevenção do abandono e da castração. Se houvesse mais castração, não teríamos tantos casos de abandono, pois não haveria tanta reprodução. Se hoje você liga na Zoonoses para falar de um animal abandonado, eles não vêm retirar porque dizem que não têm onde colocá-lo.”
Alexandra diz que o abandono só vai ser reduzido com iniciativas de conscientização e respeito aos animais. “Isso deveria ser ensinado nas comunidades mais carentes, nos bairros mais afastados e nas escolas. A criança precisa aprender desde cedo que um animal não é um brinquedo, ele sente dor, fome, frio e precisa de carinho. Gatos e cachorros não podem ser simplesmente descartados.”
Além disso, ela aponta que a castração deve ser acessível e não centralizada nos Centros de Controle de Zoonoses, onde o cidadão precisa se deslocar para fazer a inscrição. “O ideal seria levar castramóvel para bairros afastados e comunidades carentes, onde as pessoas têm menos recursos para buscar esse serviço. Hoje, muitas ONGs realizam projetos de castração nesses locais, mas falta um apoio efetivo do Estado para que essas iniciativas cresçam.”
Estatísticas revelam que o Brasil ocupa o 3º lugar no ranking mundial de países com maior número de animais de estimação, totalizando aproximadamente 149,6 milhões de pets, com cães liderando a lista. No entanto, apesar desse alto índice de posse responsável, o abandono persiste como um desafio significativo. Pesquisas também indicam que cerca de 72% dos lares brasileiros possuem pelo menos um animal de estimação, evidenciando a forte presença de pets no cotidiano nacional, segundo o Portal 360.

