Valentina Cruz
“Eu, pelo menos, gosto de trabalhar. Principalmente com livros, por quê? Porque é educativo, ao mesmo tempo é cultura, ao mesmo tempo dá personalidade a nós…”, essa é a visão sobre livros de Joel Costa, de 73 anos, dono do sebo Mestre Joel Livreiro, localizado no coração da cidade de São Paulo, na Avenida Paulista.
Tanto leitores como não leitores apresentam o preço dos livros como um dos dez motivos para não terem lido mais. Esses são dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Literatura no Brasil, com dados de 2024, de 2019 até 2024. Ainda segundo essa pesquisa, o número de leitores caiu de 52% para 47% no país, tendo em vista que ela considera como leitores aqueles que leram um livro impresso ou digital, inteiro ou em partes nos últimos 3 meses.
O sebo é uma das formas que as pessoas têm encontrado para ter acesso a uma literatura mais acessível. A produtora de rádio Mylena Vitória, de 24 anos, conta que lê aproximadamente 24 livros por ano e que o alto preço dos livros é um fator que afeta esse hábito. Com outras prioridades com as quais precisa gastar seu dinheiro, ela fala que encontrou no sebo, nas doações e na revenda de livros maneiras de solucionar esse problema e que costuma comprar livros nesses locais para manter a leitura.

Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) que atua em mais de 70 países, com estudantes entre 15 e 16 anos, 50% dos brasileiros têm nível 1 em literatura em uma escala de 1 a 5, sendo 1 o menor nível. Joice Seles, bibliotecária escolar, formada em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), diz que a leitura cria no ser humano o senso de vocabulário, a construção da visão de mundo. Ela também diz que a prática promove o conhecimento de histórias e versões diferentes dos quais não teríamos acesso por meio da simples visão de outras pessoas. Ela aponta que a leitura afeta a forma como uma pessoa escreve e se desenvolve.
Sebos são locais onde podem ser vendidos livros, revistas, CDs usados e em bom estado de conservação. Assim, por terem pertencido a outro indivíduo anteriormente, esses locais conseguem revender os produtos com um preço mais acessível.

Cada sebo possui uma história e funciona de forma única. Fábio Adriano trabalha há anos no sebo Stock Cultural, localizado na região central da cidade de São Paulo, ele conta que essa rede de sebos surgiu em 1988, quando um jovem de 18 anos decidiu junto com sua mãe que gostariam de abrir um negócio de vinil, que era o único produto em foco na empresa naquela época. Esse sebo compra produtos para revender de pessoas que estão se desfazendo de itens como livros físicos, no lugar também são vendidos livros de pessoas que desejam desapegar desses produtos e doam. Também realizam trocas com indivíduos que já leram seus livros e desejam trocar por outros produtos da loja, como CDs e DVDs.
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) de 2018, com 824 consumidores de todas as classes sociais e todas as capitais do Brasil, mostrou que 54% deles alegaram já terem comprado livros de segunda mão. Essa pesquisa apontou que ao adquirir produtos utilizados, os consumidores possuem como foco diminuir os gastos e poupar o dinheiro que têm. Além disso, nove em cada dez entrevistados enxergam que a compra desse gênero de produto ajudou no bolso deles.
Quando Joel Costa saiu da Bahia e chegou na cidade de São Paulo, se deparou com os indivíduos jogando livros no lixo. Porém, por nunca ter deixado de acreditar que o livro fornece energia, compreensão e amor próprio para poder continuar, ele começou a pegar esses itens descartados para ajudar as pessoas. Essa ação promoveu a reciclagem de produtos que poderiam ser reutilizados, além de continuar, ainda nos dias de hoje, sendo uma forma de levar o conhecimento e o desenvolvimento do ser humano de forma mais acessível por meio da literatura.
Alguns sebos como o de Joel, o Stock Cultural e a Passagem Literária, são importantes maneiras de dar continuidade a literatura acessível no centro da cidade de São Paulo. A Passagem Literária está localizada na Rua da Consolação há 20 anos e conta com livros que podem custar até mesmo 3 reais. Ela tem uma visão de reutilização de livros com o foco de fornecer oportunidades de compra desses produtos para quem não tem condições de comprar um livro novo.
A produtora Mylena Vitória alega que uma das formas que encontra para manter a literatura no seu cotidiano é por meio da doação que outras pessoas fazem em estações de trem e metrô, por exemplo. O site do Governo do Estado de São Paulo divulga que empresas relacionadas com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos desejam promover o estímulo à leitura enquanto os passageiros estão nos trens e ônibus. Há cerca de 20 anos a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) faz ações para o incentivo dessa prática, desenvolvendo até parcerias com bibliotecas e instituições. Desde 2018, as estações da CPTM contam com gelotecas (geladeiras com o papel de bibliotecas) e estantes nas estações para que as pessoas possam deixar livros que não desejam mais ou pegar outros que estejam ali. A estação Aeroporto-Guarulhos é uma das que conta com uma geloteca para os passageiros.
A bibliotecária Joice acredita que os indivíduos podem cometer alguns erros se não tiverem acesso a literatura e informações, pois não conseguem desenvolver a escrita, a fala, as relações, além de não ter a capacidade de compreender o mundo à sua volta.
A conversa sobre a relevância dos livros no dia a dia da humanidade é um assunto discutido há anos pelo mundo. Em 1995, a Conferência Geral da UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, declarou o dia 23 de abril como o Dia Mundial do Livro. A data surgiu para prestigiar livros e autores, além de ser uma iniciativa que visa incentivar a leitura e a relembrar a sua importância.

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Um comentário
Que diva