Quedas de árvores em São Paulo viram transtorno
Caroline Callegari
Ana Bittencourt
A queda de árvores durante fortes chuvas é um problema recorrente em São Paulo, especialmente em períodos de tempestades mais intensas, como as que vêm atingindo a cidade desde Fevereiro. Ventos fortes, solo encharcado e árvores com raízes comprometidas compõem o cenário ideal para tragédias anunciadas. Além dos transtornos no trânsito, os incidentes causam danos a veículos, imóveis e representam riscos reais à vida da população.
Um desses episódios aconteceu na Rua Itambé, em Higienópolis, região central da cidade, onde moradores e trabalhadores ainda sentem os efeitos do caos provocado pela queda de árvores. José Bento da Silva, comerciante e proprietário de uma banca de jornais no local há 46 anos, relata que nunca havia presenciado algo parecido:
“Eu estava aqui na chuva. Só que aquilo lá foi uma tempestade muito forte. Tinha bastante gente na rua, mas quando veio o vendaval, todo mundo correu pra dentro da banca. Há 46 anos que eu tô aqui e nunca aconteceu isso. Foi a primeira vez que eu vi”, contou.
O comerciante também criticou a ausência da Prefeitura no atendimento imediato à situação:
“A Prefeitura nem veio. Quem ajudou aqui foi o Mackenzie. A Prefeitura ficou um tempão sem aparecer. Foram os engenheiros da faculdade que vieram, ajeitaram as plantas e abriram passagem pras pessoas conseguirem circular. A limpeza mesmo foi feita por eles”, relatou José.
Casos como esse são reflexo de um problema maior. Segundo um estudo publicado na revista científica Urban Forestry & Urban Greening, a cidade de São Paulo registra, em média, cerca de 2 mil quedas de árvores por ano. A pesquisa se baseou em dados de 456 árvores que tombaram na área da Subprefeitura da Sé, abrangendo bairros como República, Bom Retiro, Santa Cecília, Consolação, Bela Vista, Liberdade e Cambuci — regiões antigas e muito verticalizadas.
A urbanização acelerada, com grande presença de asfalto e concreto, compromete a drenagem natural do solo e intensifica os efeitos dos temporais. Além disso, muitas árvores estão plantadas em locais inadequados, com calçadas estreitas ou espaços confinados que dificultam o crescimento das raízes e comprometem a estabilidade da planta.
O taxista Higor Kurschat também sentiu os impactos da queda das árvores no ponto de táxi onde trabalha.
“Eu estava trabalhando e a região ficou caótica. A gente não sabia se conseguiria voltar pra casa ou se estávamos seguros ali. E não foi só no dia. Nos dias seguintes também, foi assustador”, contou Higor.
Segundo ele, o transtorno durou mais de uma semana, com dificuldades de locomoção e falta de espaço para os taxistas estacionarem:
“Demorou pra normalizar. A rua ficou intransitável, o ponto de táxi foi atingido. Nenhum táxi foi danificado, mas o ponto sim. E quando a prefeitura apareceu, piorou ainda mais a situação. Eles danificaram ainda mais o ponto durante a retirada da árvore”, relatou, visivelmente indignado.
O taxista também afirma ter feito uma denúncia formal semanas antes da árvore cair.
“Eu tenho uma reclamação registrada com número de protocolo do dia 27 de janeiro. Fiz sobre essa mesma árvore, que já estava inclinada, com risco de cair. Ela levantou a calçada, quebrou muretas. Eu tenho fotos do dia. Foi essa árvore que caiu, quebrou o galho, atingiu o ponto de táxi e causou todo esse prejuízo.”, disse.

Casos como esse revelam uma falha grave na gestão das áreas verdes da cidade. Muitas árvores que caem durante tempestades já apresentam sinais visíveis de comprometimento estrutural — como troncos ocos, fungos, raízes expostas ou calçadas levantadas. A ausência de monitoramento e manutenção preventiva agrava o problema.
Além dos impactos diretos à população, a queda de árvores também traz prejuízos ambientais: a destruição de habitats naturais de aves e pequenos animais assim como perda de áreas verdes e diminuição da qualidade do ar. Árvores urbanas exercem um papel fundamental no equilíbrio térmico das cidades e no combate à poluição.




