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O outro som da Galeria do Rock

Um espaço onde o rock e o geek coexistem em harmonia caótica

Há lugares que não pertencem a um tempo, mas a uma alma.

No coração da Avenida São João, onde a pressa é regra, há um prédio que respira fora do tempo. A Galeria do Rock — ou, para os mais íntimos, apenas a Galeria — é um marco simbólico. De longe, seus arcos curvos de concreto desenhados pelo arquiteto Alfredo Mathias, em 1963, lembram uma caixa de som gigante.

Mas a Galeria nem sempre foi do rock.

Quando nasceu, em meados dos anos 1960, se chamava Centro Comercial Grandes Galerias. Era elegante, moderna, projetada para abrigar lojas de moda, joalherias e salões de beleza. Nos corredores, ecoavam os saltos finos e os perfumes caros das mulheres da elite paulistana.

O rock ainda era uma rebeldia distante, e o centro de São Paulo vibrava em outro ritmo.

Foi só nas décadas seguintes, quando o centro começou a mudar de estética, que o prédio também se transformou.

Nos anos 1980 e 1990, enquanto o brilho das vitrines da elite migrava para os shoppings, a Galeria foi ocupada por outras vozes, aquelas que viviam à margem. Vieram os punks, os metaleiros, os geeks e os góticos, todos aqueles que antes não eram bem vindos, aqueles que não tinham lugar nos corredores polidos dos Jardins.

E o que era luxo virou resistência.

Nas vitrines, os ternos deram lugar às camisetas de bandas, às jaquetas de couro e aos vinis empilhados como relíquias. O nome “Galeria do Rock” nasceu, num batismo informal movimentado pela contracultura. Hoje, o prédio abriga 450 lojas. São estúdios de tatuagem, sebos, brechós, lojas de instrumentos musicais e de vinis raros.

“Eu venho aqui desde moleque, quando o centro ainda era o centro. É legal que aprendi sobre música, sobre arte, tudo aqui. Aqui eu vi bandas nascerem e acabarem. Vi o rock mudar de cara. O legal é que hoje tem de tudo”, diz o tatuador Paulo Serra, de 42 anos.

Serra fala com a naturalidade de quem cresceu entre lojas de discos e estúdios improvisados, como se a Galeria do Rock fosse uma extensão da própria casa — ou do próprio corpo, coberto por tatuagens que também contam histórias do centro.

E há algo maior nessa resistência.

Mesmo quando o centro da cidade perdeu parte de sua vitalidade, a Galeria do Rock seguiu viva. Talvez porque sempre tenha pertencido aos que não cabem nos moldes. Aos que encontram na música, na tatuagem ou na roupa uma forma de existir sem pedir licença.

Mas a Galeria não é só rock.

Entre as lojas de camisetas e os estúdios de piercing, brotaram também universos paralelos. O lado geek tomou conta de vitrines. Bonecos de Star Wars, Homem-Aranha e Naruto dividem espaço com os discos. Há boxes inteiros dedicados a mangás, HQs raras, miniaturas, action figures, camisetas de animes e jogos de tabuleiro.

O colorido se mistura à luz fria do teto, criando um pequeno refúgio geek no meio do labirinto de lojas alternativas.

“Eu gosto da cultura geek, então vou lá pra encontrar coisas que sejam meu estilo, lá é mais fácil pra encontrar e o pessoal é sempre bem acolhedor. Agora que vai ter vários shows no Brasil, a galeria tá cheia. É muito legal ver o tanto de gente que vem à procura da mesma coisa”, afirma o estudante Victor Silva, de 21 anos.

Para o estudante José Antônio, de 23 anos, a Galeria do Rock é mais do que um ponto de compras — é um atalho. “A galeria junta tudo que eu tenho de interesse em um lugar só, sem eu precisar me deslocar muito. Se eu procuro uma camiseta, encontro cinco lojas de diferentes estilos no mesmo lugar. Isso ocorre com qualquer coisa lá.”

O público jovem, que antes via o local apenas como “templo do rock”, hoje o reconhece como um espaço de múltiplas identidades.

A Galeria, nesse sentido, é mais do que um ponto comercial — é um ponto de convergência cultural. Onde universos colidem em um só espaço.

Com sua câmera pendurada no pescoço, Ingrid observa o vai e vem dos corredores como quem espera a próxima cena de um filme. A luz atravessa as curvas da Galeria do Rock e rebate nas vitrines metálicas, criando reflexos que parecem pensados por um diretor de fotografia.

“A galeria é o lugar mais fotogênico de São Paulo. Cada um tem um estilo, uma história. Eu venho pra fotografar, mas sempre acabo ficando pra conversar. Já conheci bandas, já fiz amizade com gente que só encontrei ali”, relata Ingrid Victoria, de 22 anos, auxiliar administrativo.

Ela conta com o entusiasmo de quem encontrou ali um estúdio a céu aberto — e uma cidade paralela que só existe entre um clique e outro.

Lá fora, a cidade continua apressada.

Mas aqui dentro, o tempo resiste em riffs (termo musical).

A Galeria do Rock é, talvez, o último grande lugar onde as diferenças se reconhecem.

Por dentro da Galeria

📍 Endereço: Av. São João, 439 – República, São Paulo

🕐 Horário: Segunda a Sexta-feira, das 9h às 19h, e aos Sábados, das 9h às 18h.

🚇 Acesso: Próximo à estação República (Metrô linhas vermelha e amarela)

Foto por Mariana Santos D’alessandro

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